A CANO DE NOSSA GENTE
EDUARDO GALIANO

Nota: Este livro foi digitalizado por Joana Belarmino, em 7 de outubro
de 2000 e a sua distribuio com fins comerciais  estritamente proibida pela Lei
Brasileira de Direitos Autorais

A CANO DE NOSSA GENTE

COLEO CLASSICOS LATINO-AMERICANOS
Eduardo Galeano
A CANO DE
NOSSA GENTE
ROMANCE
Traduo de Eric Nepomuceno
PAZ E TERRA
(c) 1976, Eduardo Galeano
Traduzido do original em espanhol La cancin de nosotros
Preparao Jos . Santos Moraes
Capa
Direo de arte: Elifas Andreato
Projeto grfico e ilustraes: Chico Nunes
Galeano, Eduardo, 1940-
A cano de nossa gente; traduo de Eric Nepomuceno.
3' ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
Do original em espanhol: La cancin de nosotros.
1. Romance uruguaio I. Ttulo II. Srie
78-0082 CDD - U863
CDU - 860(899)-31
Direitos adquiridos pela
EDITORA PAZ E TERRA S. A.
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que se reserva a propriedade desta traduo
Conselho Editorial
Antonio Canddo
Celso Furtado
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso
1992
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
"O moinho j no existe;
o vento continua, todavia.
VAN GOGH, carta a Tho
SUMRIO
I A cidade 11
2 A cidade 12
3 O regresso 13
4 A cidade 16
5 Andanas de Ganapn 17
6 A cidade 24
7 O regresso
8 Andanas de Ganapn 33
9 A cidade 41
10 Andanas de Ganapn 42
11 O regresso S 8
12 A mquina 6-'
13 O Santo Ofcio da Inquisio 63
14 O regresso 64
15 O Santo Ofcio da Inquisio 67 i
9
16 A mquina
17 A cidade
I8 O Santo Ofcio da Inquisio 78
19 A mquina 78
20 O Santo Ofcio da Inquisio 82
21 A mquina 82
22 O Santo Ofcio da Inquisio 83
23 A mquina 84
24 A mquina 86
25 O Santo Ofcio da Inquisio 88
26 A cidade 89
27 O Santo Ofcio da Inquisio 90
28 Andanas de Ganapn 92
29 O regresso 98
30 A mquina 102
31 A mquina 103
32 A mquina 105
33 Andanas de Ganapn 109
34 O regresso 122
35 Andanas de Ganapn 130
36 O regresso
37 Andanas de Ganapn 151
38 A cidade 65
39 O regresso/Andanas de Ganapn 1Wo
10
1
Contars tua histria?
Falars aos nossos ouvidos alguma vez?
Dirs: eu fui traada
no rumo de uma bala de canho,
humilhada pelo vento, varrida,
salva das pestes
pelo vento que sopra do sul?
Dirs: eu fui sangrada,
esvaziada, queimada, trada?
Dars espadas para vingar-te?
Espelhos para multiplicar-te?
Vinho para celebrar-te, vozes para chamar-te?
Cidade mascarada, que esconde o rosto de ns,
de ns, teus filhos:
danam juntos em tuas noites
os vivos e os mortos?
Saem juntos em caada os vivos e os mortos?
Por que to longa nossa viglia de armas?
Com que tinta se desenha teu rosto?
Com que sangue?
Morrem enganados os homens que morrem
11
para que nasas outra vez?
Nenhum deus nos ama, nenhum deus nos escuta.
Aonde, a que comarca ou cu alheio levaram nossa alma?
Que pssaro a roubou, que gaivota? -
Deixars que eu saiba que sou daqui, sentir que sou daqui,
nascido aqui?
Cidade minha, cidade nunca:
Serei digno de mergulhar a cabea entre teus peitos?
Merecerei beber teus sucos
amargos, poderosos?
Poderei cantar tua cano deitado sobre a relva?
Cantar com voz de cego tua cano?
2
A noite impregnou a cidade com seu hlito, o arfar da boca
da noite, mas o sol de outono j se aproxima e ser suficiente
para encurralar a umidade contra as caladas e ao p dos muros,
junto ao lixo.
A areia, porm, no secar. As pegadas continuaro imprpres-
sas, como se estivessem sobre cimento fresco: ser possvel adi-
vinhar por onde andaram os pescadores com suas lanternas e as
gaivotas e o cavalo das noites de lua cheia. O cavalo passou a
noite galopando, a crina aoitando suas costas, jorrando vapor
pela boca e levantando nuvens de areia e espuma com os cascos.
Durante toda a noite o cavalo correu pela costa, para leste e
para oeste, mais veloz que um grito, ferindo-se nas rochas,
ficando de vez em quando sobre duas patas, relinchando para o
mar, machucado, desafiante, brilhante de suor e de sal, os cascos
como tambores chamando na terra algum que no chega, e
quando a primeira claridade do dia deslizar a traio pelo ar, o
cavalo se meter mar adentro, regressar mar adentro: o cavalo
de olhos incendiados, invicto de cavaleiros.
12
3
Entre os sons do amanhecer na cidade - sons de um ritual,
rudos de garrafas e latas e cachorros magros farejando o lixo -
Mariano escuta o motor de um nibus que se aproxima. Volta
sobre os prprios passos, arrastando levemente a perna manca, e
sobe no nibus. Tropea nos degraus. O nibus enferrujado est
cheio de homens que se apertam e no se falam. Esta  a pior
hora: cheira a derrota e a umidade e a fumaa fria do primeiro
cigarro. O silncio revira-lhe as tripas.
Poucas quadras depois, Mariano desce. As ruas de pedra do
porto, ruas-cobras, deslizam, retorcendo-se entre a costa norte e a
costa sul. Os letreiros dos bares ainda cintilam no ar cor de cinza.
Um caminho carregado de soldados atravessa, roncando
devagar, a rua do porto. A lona entreaberta mostra os olhares en-
fastiados dos soldados e o cano da metralhadora. As rodas salpi-
cam de barro as calas de Mariano, mas Mariano no corre, Ma-
riano no se cola  parede: continua caminhando, como se tudo
estivesse bem, tudo normal. Fecha os olhos. Quando era menino,
bastava fechar os olhos e pensar: os outros no estaro me vendo.
As moas dos bares tomam mate j usado, no fim de uma
longa noite sem clientes. Sim, esta  a pior hora: tem um sabor e
uma cor de mentira, e j no sobram palavras para dizer nem
vontade de falar nem msica brotando das mquinas caa-n-
queis. Mariano entra; pede uma graspa. O gole arde no corpo, faz
bem. Vista daquele balco, a cidade est se espreguiando contra
as cortinas de tiras de plstico e se rasga em franjas trmulas.
Sente-se no ar um cheiro acre, e vem-se anis pegajosos de cer-
veja sobre o piano maltratado; uma ou outra mosca caminha pela
fumaa, o leo faz borbulhas na frigideira. (Ao fundo, dorme,
bbado, o campeo que ontem  noite lutou sua iltima luta.
Dorme esparramado sobre um catre, com a boca aberta, com a
boca para o teto:  grande como um pas. Mariano no o v nem
sabe, mas ontem  noite o campeo escorregou e caiu, ao desviar-
se de um gancho de direita, quando estava j com a cara inchada
pelas porradas de um monte de rounds e seus lbios sangravam e
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as sobrancelhas estavam arrebentadas. Caiu e o pblico ergueu-se
de seus assentos e ele j no podia ver atravs das plpebras in-
chadas e s conseguia escutar e ouviu os rugidos da multido e
soube que toda aquela gente tinha esperado desde sempre a opor-
tunidade de v-lo cair.)
Tres pescadores caminham para o cais, com suas varas ao
ombro. Mariano sai do bar. Um cheiro de alcatro e de peixe se
ergue de algum lugar perto. Mariano anda vagando e a saudade 
um cachorro que morde seus calcanhares. Por que a gente volta?,
se pergunta. Por que a gente sempre acaba voltando? A cidade.
Em outra hora, em outro tempo. O caf. Ajanela aberta  virao,
quando o mar, nas luminosas tardes de vero, devolve vento
fresco. A felicidade acontecendo; a maresia golpeando minha
cara, e um arrepio percorre a pele e d vontade de sair abraando
o mundo. Este mar No um mar qualquer: o rio-mar, o rio largo
como um mar: eu conversava com ele desde menino. Eu desde
menino tinha o costume de escutar-lhe as vozes, e contar-lhe coi-
sas e sabia que ele  mais importante que ns e que ter uma vida
muito mais longa. Este mar Tem um som diferente dos outros e
se move de outra maneira. Sagrado mar sempre criana.
Faltam ainda algumas horas para o encontro. Mariano coa
o bigode novo, que odeia tanto como  nome falso e os cabelos
tingidos. Atravs das solas gastas dos sapatos sente as pedrinhas
espetando e o frio que se infiltra e morde as plantas dos ps e
trepa, lngua de gelo, pelas pernas. Por que a gente volta? Pela
revoluo? Por essa maneira que temos de querer-nos sem dizer?
De caminhar desafiando e olhar com melancolia? Mariano sopra
vapor pela boca; caminha fumando o frio. Esta cidade no soube
ser um acampamento fraternal e sem fronteiras? E no  tambm
nossa ratoeira? No  tambm nossa impresso digital, nosso ver-
dadeiro sinal de identidade, e ao mesmo tempo nossa jaula
podre? Esta cidade. A ameaa se enrosca, aperta: persegue-o
com o ouvido grudado nas paredes e vigia pelas pestanas de
luz das persianas. Estou disposto a morrer por esta merda e esta
maravilha?
O sol desprende sua mscara cinzenta. As gaivotas gritam,
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desesperadas, voando em crculos sobre as corvinas e os pesca-
dos e as tainhas penduradas nos juncos, entre forquilhas de ma-
deira. Na superfcie da gua quieta, gua de sopa de petrleo, as
bias ondulam em crculos brilhantes.
Sem perceber, Mariano procura o Caf do Grego. Nas cos-
tas dos estivadores, nascem e renascem coreovas de estopa; as
mandbulas dos guindastes mordem e cospem mercadorias. Ran-
gndo sobre os trilhos, entre os depsitos e os caixes empilha-
dos, um vago vai e volta. Mais adiante, debroado na proa de
um navio, um marinheiro fuma.
Mariano sabe que o Caf do Grego no existe mais. Mas
existir, existiu. Existiu? Sim, era vivo. Foi de vidro e de madeira
e nas madtvgadas enevoadas paravam, na sua porta, as lanchas
rebocadoras e os barquinhos pesqueiros. Havia uma moa cha-
mada Clara sentada na frente de Mariano, e uma garrafa de vinho
com dois copos sobre a mesinha, na calada de pedra, aqui, na
beira do mat. Um rebocador abria um talho de espuma, gnznhia,
jogava uma nuvem de fumaa e fagulhas entre as embarcaes
ancoradas. Uma vela vermelha inchava e desaparecia. O vinho
deixava um sabor spero na boca, mas dava calor ao corpo. Uma
sirene soava bbuuuu, bbuuuuuu, e outra sirene respondia, e Clara
tinha um nariz bom para dar beijos de esquim e para ser acari-
ciado com a ponta do dedo indicador e bom, tambm, para ser
lembrado. E ela bocejou e espreguiou e o suter e as calas se
separaram como duas plpebras mostrando o tremor do ventre, a
curva das cadeiras,.a pele brilhante. Ento Clara estalou os dedos
e atirou um cMio para trs, no vento, por cima do ombro es-
querdo, e pediu, com os olhos fechados, trs desejos. No disse
quais. Riu e apertou os dentes e no disse quais e tudo isso acon-
teceu antes de comear o medo.
Mariano desdobra um jornal e senta em cima dele, com as !
pernas balanando sobre as rochas polidas como ossos. De vez
em quando escuta passos atrs de si: os m.sculos se crispam;
olha de lado, tenso, e passam os segundos, e tudo passa. Dois
homens aparecem, entre os outros que esto passando. Um 
negro e forte, caminha preguioso e manhoso como um gato com
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sono e tem olhos amarelados e voz rouca; o outro  um baixinho
de bigodes ralos, que caminha estufando o peito e tropeando a
trs por dois. Mariano no presta ateno: eles caminham um
pouco bbados. Mais que um pouco.
Marano queria pensar. S consegue recordar O porto retro-
cede, a cidade se estende. Os tempos idos avanam. Os fantasmas
abrem caminho, vindos do exMio triste da memria.
4
As coisas perderam seus nomes e ns j no fazemos sombra.
Nossa terra ficou vazia de homens vivos e a esperana
converteu-se em uma puta estril, de tanto matar gente no seu
ventre.
Que foi feito da terra que nos tinha sido dada para crescer e
acreditar e ser livres, como num brinquedo? A terra que vamos e
nos devolvia o poder de olhar A que nos fazia sinais do outro
lado da noite e da tristeza. A pobrezinha, a fada mambembe. O
que foi feito dela?
 ela esse cadver que os cavalos arrastam?
Que somos ns, se ela j no ? Inventar-nos nascer juntos:
poderemos voltar a no ficar ss?
Onde esto os corpos que se buscaram e se amarraram entre
si com ns de msculos e maravilhas e cegamente acreditaram
que continuariam para sempre molhados destes sucos, e morrer,
s mesmo se fosse de tanto rir?
Ns cantores, ns nascedores: antes de que comeasse este
longo penltimo dia, como ramos? Quem ramos?
O vento anda como dono dos restos do naufrgio e nos joga
onde quer. No voltaro a juntar-se nunca os pedaos que nos
izeram possveis?
16
s
Buscavida estica as pernas; danam, um por um, os dedos ,
dos ps. Livres dos sapatos; que so dois nmeros menoros, os
dedos dos ps se retorcem e se esticam como minhocas felizes.
Ganapn v como 0 outro afunda os ps, at os tomozelos,
na gua. As ondas deslizam sem brio entre as rochas. O mar, na
mar vazante, bate em retirada, e em seu caminho de ida deixa
canais e lagoinhas cheias de musgo e de esputna e peixes peque-
ninos que correm como fle.chas. Ganapn deita de bruos, seu
corpo enorme esparramado sobre uma rocha, e mergulha a ca-
bea na gua gelada; toma flego, volta a mergulhar a cabea.
Buscavda imita-o, apesar dos estremecimentos de frio que per-
correm seu corpo. Ele tambm sente o mal-estar da ressaca na
boca do estmago, a lngua pastosa, as moscas zumbindo no cr-
nio. Necessita um pente; no encontra. Sacode vrias vezes a ca-
bea. Aperta os olhos com os dedos. Quando entraram no bar
para o primeiro trago, a lua comeava a desenhar sua forma,
enorme, de um lado do cu. Quando safram, tinham acabado com
trs garrafas de cachaa e a lua insistia, mas em outro lugar, e j
tinha amanhecido o novo dia. No tinham ido muito longe, entre-
tanto, pelo caminho em S da bebedeira: dormiram sobre a mesa
quando comeava a etapa das ofensas ao Criador, que vem logo
depois do captulo dos improprios contra a autoridade, antes de
chegar  exaltao dos caudilhos depostos ou mortos e muito
antes da perda da estabilidade e da negao da evidncia.
Deitam de boca para cima, agora, para receber os raios pli-
dos do sol em suas caras. Sobre uma pedra alta, descansa a mala
de papelo de Buscavida, fechada com um cadeado, e sobre a
mala, cuidadosamente dobrado, est o palet de seu temo, de la-
pelas largas e bicudas e muitos botes.
- Eu disse que no a dar - murmura Buscavida.
- Outras vezes deu - diz, entre os dentes apertados, a voz
rouca de Ganapn. Atravs de um furo na camisa, coa a barriga
com o polegar.
Na sada do botequim, tinham tentado entrar na estiva, onde
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pagam bem para carregar sacos nas costas. Estavam na fila, na
frente dos portes de ferro do porto, e urn cara expulsou-os. Per-
guntou o que estavam fazendo ali e quem eram e os expulsou.
No esperou pelas respostas. Era o que mandava, no pestanejava
nunca; nojento, percebia-se, at pata beijar
- Eu o vi e percebi - diz Ganapn. - ramos dezesseis
na fila e comece a estudar o assunto, porque se que em cada
dez homens tem sempre um filho da puta.
"Ei, Ganapn", diz Buscavida, rindo sozinho de repente.
Com o punho esquerdo avanado explora a defesa de um rival
invisvel, diz: "Lembra quando a gente deu uma surra nos tiras?",
solta um gancho de direita no ar, ri. "Lernbra da tremenda surra
que a gente deu?", ri cada vez mais, e tosse: "Quando foi, Gana-
pn?", e tosse tanto que acaba sentando para no engasgar
- Essa regra no falha nunca, para mim - continua Gana-
pn, surdo, olhando os brilhos de mbar do cu de outono. -
Sempre foi assim na histria da humanidade. Por isso tinha de ter
pelo menos um fitho da puta. E tinha.
Com o dedo, Ganapn percorre a cicatriz que atravessa sua
cara: uma fronteira branca abrindo em dois a pele negra e bri-
Ihante: ele nunca fala de sua cicatriz, mas sc entende bem com ela.
"Lembra, Ganapn", insiste Buscavida, rindo at agora sua
risada gaga, em exploses de riso e tosse cada vez mais espaa-
das, como um motor que vai ficando sem gasolina: "Lembra
quando fzemos pure daqueles meganhas?", e pouco a pouco se
apaga: "Lembra?".
J no  sacudido pelos soluos do riso e olha o mar com
tristeza, com o queixo entre os joelhos erguidos e os braos ca-
dos; olha as faixas escuras das correntes, o vaivm lento das
ondas com barba de espuma. Doem os pulmes e di tn dente. O
maldito dente do fundo sempre di quando ele lembra que no
tem dinheiro e comea a pensar que os cachorros vivem melhor
que os cristos e no h graspa nem cachaa ao alcance da mo
para tranqilizar o nervo. Buscavida extrai um palito do bolsinho
da cala e cutuca o buraco do dente devastado.
- Se pelo menos tivesse um dente s...
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- Como dom Idtlio, no ? - concorda Ganapn.
- Ele tinha um inico dente em taia a boca.
- Tinha cssa sorte.
- Pode-se viver de uma virtude ou de um defeito.
- Mas tem de ser importantssimo.
- As pessoas pagavam a dom Idtlio, por isso. Com uma
colherinha batia no dente e fazia msica.
- Tocava o Hino Nacional completo, e em sua prpria ho-
menagcm.
- E com isso ia tocando a vida.
- Vivia bem.
- Viver bem. Viver!
- Viver  mais difcil que esticar a pica de um porco.
- Voc, com essc canino de ouro na boca, podia tocar uns
concertos sensacionais.
- Do jeito que cst, no scrve para nada. Usava o dente
como talism. Mas j no me defende mais,
Buscavida acaricia os fiozinhos que e.scorrem pelos cantos
da boca:
- Vender sangue, no d. Eu estive l na semana passada.
E vocc?
- H trs dias.
- Seguido desse jcito, cles no aceitam.
- Eles controlam, os sacanas.
- Mas o que intercasa para eles? Pode me dizer o que inte-
ressa?
- Sci l. Vai ver  porque o sanguc fica mais aguado. Ma.s
no sei.
Buscavida fica em p sobre uma pedra. De costas para o
mar, gesticula, interrogando a cidade:
- Somos ciganos Somos o qu? No h nenhum lugar que
seja nosso'o
Ganapn atira uma pedra ao tnar. A pedra prolonga no es-
pao a parbola do brao.
Longe, uns meninos rolam rindo pcla encosta da colina;
correm os automveis pclo aterro; um vclho, de macaco podo,
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lubri ica as engrenagens dos brinquedos do parque de diverses.
O corte de uma p penetra na terra seca do cemtrio. Soltam-se
as folhas das rvores, planam no ar, caem suavemente no cho.
- Juntar garrafas e ferro velho - diz Ganapn - j no
d. A concorrncia  grande demais. Todo mundo anda com a
fua enfiada no lixo.  um nojo; eu me retirei do negeio. No 
digno nem de porcos, isso de andar remexendo o lixo. Ento, o
qu? Venderjornais?
- Dos que liam, sobraram quantos?
- Engraxar e lustrar sapatos?
- No rende nem para a graxa.
- Para arrancar as ervas, quem paga?
- Bilhetes de loteria, quem compra?
- Alugar o palet na porta do cassino? Mas que palet?
- Eu tenho um.
- Acabam deixando ele no pano verde da mesa.
- Rifar o salrio?
- Que salrio?
- Vender versos sobre os mortos famosos?
- Os mortos famosos esto proibidos.
- E nas oficinas?
- E nas fbricas? E nos escritrios?
- Quantas voc percorreu, Ganapn? Voc no ia esperar
os jomais s trs da manh? No sujava os dedos com a tnta
fresquinha dos amncios de emprego?
Caminham em direo ao esgoto. Um cachorro, abando-
nado como eles, persegue-os.  um co remelento, rabo curto,
machucado no lombo.
O cachorro senta sobre as patas de trs e ergue as orelhas: a
sesso vai comear. O terren baldio, cheio de latas, pedras e
gravetos, serve de palco. Buscavida, em p, com as pernas aber-
tas, sobre um eaixote de cerveja, eneaixou na cabea uma panela
queimada e destrambelhada, como se fosse uma cartola, e usa um
pedao de cabo de vassoura como um charuto. A seus ps, em
quatro patas, Ganapn morde o p: vrias voltas de barbante
esto atadas ao seu pescoo. Com a mo direita, Buscavida se-
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gura seu chinelo dec madeira; com a esquerda, segura a ponta do
barbant : e  sacode-o, golpeando as costas de Ganapn. L de
cima, Busravida grita, com a voz em falsete, em ritmos diferentes,
como um disco que vai mudando de velocidade e todas elas
Gsto lerrddas: pergunta nome e sobrenome, endereo, idade,
estado civil, profisso, antecedentes, doenas, religio, idias
polticas,
tendencias, preferncias, referncias.
Grapn late, mia, grasna, grunhe, muge, zurra, pia.
Ento a detonao ressoa repentinamente na pedreira,
desatanto o rudo dos passarinhos do terreno baldio. Por trs do
cemi-trio
chega-se uma coluna de fumaa branca; o co late em direo
 fumaa e se agita, ncrvoso, sem se atrever a fugir,
Bu>ca~.v~da d um chute no traseiro de Ganapn c de um pulo
baixo fose caixote de madeira. A panela se converte em um chapu
Buscavida cumprimenta o cachorro com uma reverencia.
hem seguida ri, o canino dourado brilhando ao sol, mas Ganapar
levantou-se com cara de poucos amigos. Ganapn: comprido,
negro. Buscavida olha para ele com certo receio: a alegria
se fazia como um balo cansado de voar.
entam-se os dois, um de cada lado do cachorro, que j
 a misteriosa exploso e lambe as patas cuidadosamente.
 fumava o ltimo cigarro que sobrou: dividem, uma tragada um,
outra, tragada o outro. Ganapn esfrega as plpebras. Pergunta,
mais a ningum:
- E o cu, scr tambm desse jeito? Haver pases tristes,
Ho eu?
-- Isso te preocupa? - Buscavida joga pedrinhas contra
sua. .lata, parada a alguns metros de distncia. - No d p. De
qualquer jeito, voc nunca vai pisar no cu... no vo deixar voc
entrar...
-- Do que a gente tem de se disfarar para endireitar a sorte?
- Que culpa terem a orelha de ter nascido furada?
Deve ser por causa de ser nordestino.
o lugar onde que tia chegar o primeiro cego que
ser  -deu no trfego. destino:
-- A Cidade Grande. Para l voc ia ontem  noite, Busca, e j
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esqueceu. Para a Cidade Grande. E se voc no foi, a culpa  minha
- diz Ganapn, a testa franzida, as palmas das mos na nuca.
Buscavida se apia em um cotovelo:
- E o que eu ia ganhar com isso, quer me dizer?
- Tudo. Olha os que foram embora. L, existe respeito. E
h trabalho. Voc desembarca e j est trabalhando. No do tempo
nem de voc largar a mala. E os preos das coisas so to, mas
to baixos, que para fazer compras a gente tem de se agachar...
Ganapn continua falando, as palavras envolvidas na ltima
baforada do ltimo cigarro:
- Quantos foram embora, Busca? Gente de classe, douto-
res e tudo. ~E a pobreza? Todos vo embora. Nossa cidade  uma
cidade de gente que diz adeus. Eu no disse nem digo, com toda a
meninada que... comigo aqui, comem dia sim, dia no. Se eu for
embora, tero de se alimentar de suco de madressilva.
De um lado do terreno baldio, no teto de um bonde abando-
nado, dorme um gato. No bonde, o esqueleto comido pelos ven-
tos e pelo sal e pela umidade, vive gente; h roupa estendida na
cerca de arame. Um menino descalo, com um saco no ombro,
cumprimenta de longe, agitando a mo. O campinho cheira a
resto de lixo.
- Bebemos a passagem, Ganapn.
- Essa  a dura verdade. Com o tempo que voc deve ter
levado parajuntar esse dinheiro...
Buscavida olha para suas prprias unhas, sopra e lustra es-
fregando-as contra a manga do palet:
- No tem importncia - diz.
- Mas a passagem era sua. Eu bebi a passagem de meu
irmo Buscavida. Troquei por cachaa, fiz isso, e isso no merece
o perdo de Deus.
- Deus no te d bola.
- Fstou falando srio.
- E da? Nos despedimos tanto, que afinal ficamos.
- No  bom tanto adeus. A estas horas, voc j estaria na
Cidade Grande. O que eu fiz no tem perdo. E no foi por ne-
cessidade, porque...
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Buscavida sacode a cabea, sentecioso:
-  preciso despedir-se s um pouquinho, Ganapn. Um
pouquinho s. O que acontece  isso. Da, vem copo, vai copo, e
o tempo no d e nem o dinheiro.
Ganapn se descala, mede os furinhos das solas das sapa-
tos. Agacha-se, procurando, em vo, pedaos de papelo ou de
couro jogado fora. Diz:
- O que  que eu vou dizer? No esperava eneontrar voc.
Eu nem sabia que voc ia aparecer.
- Nos encontramos por acaso, Ganapn. Deve existir
algum motivo para eu ter perdido o barco. No existem infmias~
,
o que existe  fatalidade.
Buscavida passa a lngua pelos bigodes ralos:
- Deus e o diabo so farinha do mesmo saco. Eu, o que
sei,  o que se v. E se v que voe, Ganapn, estava destinado a
acompanhar-me em alguma aventura misteriosa.
- Pois . Pode ser. Ontem  noite tive a mesma sensao.
Havia uma coisa muito importante que estava me esperando. No
era meu aniversrio, essa coisa estava  no ar.
- Est, Ganapn. Est no ar - diz Buscavida, franzindo 0
nariz, com os olhos fechados. - D at para sentir o cheiro.
Ento, levantam e caminham, rua acima, ruma  praa. O
co vem correndo atrs, pernas tortas como Ganapn, fareja rvo-
res e tornozelos.
Os dois amigos competem equilibrando-se sobre o meio-fio
da sarjeta: a noite de bebidas ficou para trs, os cinco senfidos
esto espevitados: sentem sede e vontade de inventar. Ganapn
sonha que vo buscar um tesouro escondido pelos jesutas, h
sculos, nas covas das pedras, e vo armados porque o tesouro 
guardado por uma serpente.
- Ganapn, Ganapn - Buscavida ri, diverte-se eom a
prpna tisada, ri mais. - Lembra quando demos a surra nos po-
lieiais? Como eles ficaram, Ganapn!
Ri s gargalhadas, dobrando o corpo, agatrando a barriga
"
com os dois braos: "Nem a mo deles ia reconhec-los!
Enrolado em trapos e jomais, um menino dorme curvado
23
contra a porta de um cinema. Os pardais disputam as migalhas de
po debaixo da sombra dos fieus. Ouvem-se vozes vendendo fru-
tas frescas e notcias do dia.
6
O vento demora em empurrar as nuvens e a fome tem unhas
que arranham a pele do estmago. Na boca da cloaca os mendi-
gos investigam os exerementos da c~dade e esperam que aparea,
por milagre, flutuando entre as imundcies, algum anel de ouro.
A cidade ferve de mendigos e trabalhadores sem camisa e
sem f, enquanto os inquisidores e os carrascos erguem seus es-
tandartes e o Poder avana pelo lixo. Anes com leques rodeiam
o Poder, cavaleiros mascarados do Fsquadro da Morte mont<~.m
guarda. O Poder  capaz de todos os crimes, menos aqueles que
requerem coragem. Devora heris e caga loucos. At os postes ~o
telgrafo se inclinam quando ele passa. O Poder inaugura cre~~
res no primeiro dia de cada ms. O inimigo quer um mundo serr
donos nem proibies, e o Poder adverte: o inimigo prete:~de
fazer-nos crer que no existe, mas quem no  perigoso para a
ordem pblica? O inimigo se infiltra, intoxica, pressiona: tem
cheiro de enxofre, tem chifres,  noturno e jovem e numeroso.
A fome, punhal lento, rasga tripas. Um louco persegue pelas
ruas o eco que perdeu quando era menino, e uma mulher solitria
sente lgrimas arremetendo contra as suas pestanas e procura um
lugar para chorar e no encontra. Um homem cai de joelho5, de-
sesperado, e lambe a parede.
Rua abaixo, v-se o mar e parece que os barcos navegam
sobre os telhados. As gaivotas roam a gua, chiando, recuperam
o vo com as asas abertas. As hlices de urn barco vo remo-
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r
vendo, num rtmo regular, a gua de barro: as ondas golpeiam
levemente a quilha. J se dissolveram no ar novo da manh os
fiapos de nvoa que ao amanhecer ondulavam, como rabos de
cavalo, entre os mastros. Atrs do edifcio da alfndega, uma fi-
gura' molambenta apanha um carvo da lenha que usou para es-
quentar a gua do mate. Ergue o carvo e desenha, no muro, um
rabisco alegre.
Rua abaixo, est quase vazio o caf do beco. A luz do dia
choca-se contra os vidros da porta e se rompe em mltiplos est-
lhaos dourados. Dentro dos jorros de luz perambulam, fiu-
tuando, preguiosos, o p e a fumaa.
Com a vista fixa no fundo da xcara vazia, Mariano est
querendo decifrar os enigmas da borra de caf, e no consegue.
Depois pensa em outra coisa e com a colhetzinha raspa a borra,
desenha o contorno de uma cara, faz a loua tlintar: depois ergue
0 olhar; depois v quando ela chega, entra, vem, v os olhos obl-
[i~1]L~ Cl~ilQ ~llj.~~ ~,c cox ~cgv~nv n Iaua vu v ititliIIC7 G JG aCGII(1Cm
ao descobri-lo ali sentado, na mesa do fundo, esperando, e a
chuva negra dos cabelos que agora ela usa soltos. Percebe-a des-
lizando como um barquinho, caminhando, navegando, entre as
mesas e os espelhos.
Clara pra em frente de Mariano e diz: "Oi". Ela queria que
fosse possvel fazer de conta que no passou o tempo nem acon-
tcceu nada. Senta-se ao contrrio, abraada ao eneosto da cadeira,
o queixo sobre o encosto, e o peito de Mariano se alvoroa, e
Mariano pensa:  uma sorte que ela continue sendo.
Clara morde o polegar Depois de alguns minutos, diz:
- Quer dizer que voc voltou.
E diz:
-  perigoso.
Mariano-ergue os ombros:
- Passou muito tempo.
- Nem tanto. Nem tanto tempo.
- Bastante.
- Qualquer um te...
E diz:
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- Voc se sente muito mudado? Est cmico, com esse
bigode. E louro! Mas eu logo te reconheci.
Esse  um lugar tranqilo. O silncio espera as palavras,
envolve-as, conduz. Mariano est sentado de costas contra a pa-
rede e sente que fnalmente  capaz de respirar sem arfar. Do
outro lado das coriinas amarelas da janela, h manchas que atra-
vessam o ar fresco e Iumnoso da manh de outono.
Em outra mesa, longe, um velhinho vasculha o jornal com
os culos. No balco, um homem bebe de costas e conversa, sus-
surrando, com o copo de cachaa: tem uma perna encolhida,
como um quero-quero. O engraxate dorme num canto.
Mariano pede dois copos de vinho branco bem seco e ge-
lado. Clara bebe aos poucos, pausadamente, lambe os lbios, diz:
- Voc lembra? Tinha me pedido para ler sua sorte.
No cruzar os braos nem as pernas, cottar em trs com a
mo esquerda. O cavalnho de copas. Marano usava chapu de
plumas, capa, colete:
- Cinco de copas, situao perigosa. Sete de ouro, sur-
presa. Cinco de paus, desgosto. Nunca mais ia ver voc. Era es-
tranho pensar que nunca.
As mos se procuram e se apertam. As cartas se enganam.
Como ns. Como todos os bichos vivos.
Mariano diz:
- Um belo dia voc descobre com que facilidade podem te
apagar. Quemam suas cartas, seus lvros, suas cosas. Te matam
ou te prendem ou te obrigam a ir embora. Um belo dia voc olha
para trs e v que no ficou nenhuma pegada. Como se voc no
tivesse existido nunca. Agora, tenho nome de outro.
O sol vai enrolando as sombras e levando-as embora. O
lugar tem cheiro de madeira mida, e de caf recm-modo.
Quando a noite chegar, o cheiro de tabaco predominar.
- Por isso voc voltou? Por isso voc queria me ver?
- E voc, no queria?
Ele olha o rosto dela, multiplicado pelos espelhos dos lam-
bris de madeira. Fecha os olhos e Clara est nua debaixo do so-
bretudo dele, que para ela  como uma barraca, e usa os sapatos
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dele, desamarrados, e caminha pela casa, caminha como Carlitos
,
e est belssima.
Mariano sacode a cabea:
- Hoje andei toda a manh procurando o Caf do Grego.
Pensei que tinha mudado, que...
- Eu voltei l, algumas vezes.
- Sozinha?
- O qu?
- Pergunto se voc voltou l sozinha.
Ela d um belisco na coxa dele, que retruca com um ta-
pinha rpido.
- Claro que sozinha, bobo. Ao meio-dia, como antes. Vol-
tei, embora sentisse medo. Depois, quando precisei ir, o caf j
no existia.
Clara vira o rosto. Aeima dos revestimentos de madeira se
retorcem molduras de gesso; mais acima, um cartaz de touradas,
descolado e sujo de moscas. De repente, Clara diz:
- No entendo por que voe voltou.
E retira a mo. A mo. A mo de Mariano fica sozinha sobre
a mesa, eom a palma virada para cima. Tem a linha da vida longa,
mas muito cortada.
- No entendo. Voc me disse: "No vamos nos ver mais.
Somos livres", e eu fiquei muda, olhando suas costas, e voc se
pcrdeu na esquina da estao. O que voc esperava? Que eu sasse
cortendo atrs de voc? Que gritasse? Para que eu queria essa liber-
dade que voc me dava de presente? Para que ia quer-la?
(Mariano escutava os ecos dos seus prprios passos e estava
eom a cabea vazia, na dolorosa vitria da vontade, mas ao che-
gar na estao do trem entrou por seus ouvidos o estrpito da
mquina se aproximando e ento soube que dali para a frente
sentiria falta dos navegantes misteriosos que muitas vezes se per-
diam, por gosto, dos desfiladeiros de nvoa da memria ou da
imaginao daquela moa. Subiu pelos degraus de ferro e soube
que ela seria, dali para a frente, uma nuca apenas percebida na
multido ou um perfil que foge, voz adivinhada entre outras
vozes. Que ele viraria de repente e eomearia a correr at agarrar
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uma mulher pelo brao: que erraria sempre. Entrou no vago de
passageiros e se sentou num dos velhos assentos de palha da
poca dos ingleses e soube que ela persistiria: escutou o barulho
das rodas sobre os trilhos e soube que ela persistiria, persistir: no
vero, nos ttneis de folhas, transformada numa joaninha que ca-
minha pelo seu brao, ou nas noites de julho, enchendo uma' ca-
deira vazia na cumplicidade esfumaada dos cafs. Na chegada
desceu, tonto, e ainda sabia que ela continuaria cheirando a si
mesma em sua memria, perambulando nua pela regio notuma
de seus sonhos: que ela seria, ser, uma cicatriz que s vezes coa
e s vezes lateja e s vezes di. E sentiu a necessidade de voltar e
pelo menos dizer: "Nunca, nada". Pelo menos dizer: "Como isto,
nunca, nada". E no voltou.)
- Clara.
- Sim.
- Eu...
Clra desenha espirais de cinza sobre a mesa de madeira. A
boca de Mariano nega saliva.
- Eu sentia muita falta de voc, sabe? - diz Clara. - E
odiei voc, muito, ou pelo menos quis odiar, muito, para que voc
no me magoasse. Quis ver voc quando voc estava preso, mas
no tinha jeito, e eu no tinha a quem perguntar. E depois... De-
pois, me sentia como uma bala perdida. Acordava chorando. No
gosto de chorar. Quando eu era pequena, li um livro para meninos
e esse livro tinha duas pginas que me faziam ehorar. Cada vez
que lia essas duas pginas, chorava. Ento grudei as duas, com
cola. Eu no gosto de chorar
Mariano engole seco, pigarreia, diz:
- Mandei um recado. Dois. Alguns sinais de fumaa. Te
chamei.
- Muito depois - diz Clara.
- Sim.
- Muito depois, e de longe.
- Voc no~respondeu nunca - diz Mariano.
Clara ri, sem alegria. Acende um cigarro. No sente nenhum
gosto nele.
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- Voc sempre decide tudo por sua conta, no ?
E diz:
- Eu sabia que ia passar o tempo e amos nos esquecer
muito ou completamente.
Por um segundo, Mariano sente a tentao de responder
algo que seja brutal e definitivo, como para ajudar o destina de
merda a cumprr-se, mas tira os culos, mordisca a haste, e diz:
- No recorn a voc. Aenuncie a voc. Como nas novelas
cafonas do sculo passado, no ? O doente sem salvao volta
do mdico e diz  mulher que ama: "No te quero".
Uma aranhinha, minscula, caminha sobre a mesa; sobe na
mo de Clara, estende um fio entre seus dedos. Clara procura os
olhos de Mariano:
- Voc me disse coisas horriveis. Antes.
- No.
- Voc me acusou de precisar de voc.
- No. No.
- Voc me disse que...
Ela sopra uma tragada, persegue uma mosca com a fumaa.
- Deve ter muito para contar - diz.
E voc.
- Eu? No mu.ito.
- Suponha que devem ter acontecido coisas - diz, ex-
plora, pergunta Mariano. - Nesse tempo todo...
- Agentei - responde, foge, se fecha Clara. - No
morri na sua ausncia. Para mim era fcil, no ? Voc lembra?
Dizia que eu tinha a pele impenetrvel e que tudo em mim escor-
regava e... Eu fiqui aqui. Fico. Um pas em demolio. Espe-
rando. Que caia em cima de mim e me esmague.
Clara escuta sua prpra voz ressoando dentro:
- No vai chorar, Clara...
Sua prpria voz:
- No vai chorar no, erguendo-a e agentando-a para que
no tropece e caia. Pelos olhos no sa nada. Pela boca, tam-
pouco. Embora talvez lhe fzesse bem dizer: "No gosto de ficar
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sozinha. No fiquei sozinha. No gosto de sofrer. Apaguei voc.
No preciso de voc".
Mariano fixa a vista nas tbuas largas do cho de madeira,
na s~jeira de vrios dias com suas noites, nas manchas de lcool
ou de caf, os cigarros apagados contra o p gorduroso.
- Eu no quero que ningum me espere - diz. - No
queria.
- Para no se sentir obrigado a esperar por rngum - diz
Clara. - Por isso.
- Pode ser. No sei. Pode ser - diz Mariano, e diz:
- No importa.
As palmas das mos de Clara formam um clice que sus-
tenta e aperta os msculos de sua cara. Essa cara que parecia no
mudada. Se fosse possvel, pensa Mariano, ser mais forte que a
dor e o esquecimento. No quero comear outra vez eom aquelas
guernnhas nteis: voc disse, no disse, disse sim, quis dizer,
no quis, quis sim, no. No quero ter magoado voe nunca. No
quero me defender. Se fosse possvel dzer a voc que na prso
voc era a nica liberdade que eles no podiam arrancar de mim.
Se fosse possvel ver a alegria arrancando fascas pelos poros de
sua pele. Sabe? Se fosse possvel. Foi um assassinato. J sei. Ou
no. O amor era um deus primitivo: exigia sacrifcios: tinha mor-
rido de fome.
- Voc continua sem me dizer.
- O qu?
- Por que voltou.
Mariano olha o teto. Dizer: me sentia Iadro. Dizer: estava
usando uma liberdade que no era minha. E alm disso, por que
os bichos voltam a beber nas guas do mesmo crrego? Mas no
diz nada.
- Quer que eu diga a voc, em seu lugar?
- No. No me faa perguntas. No gosto que me pergun-
tem coisas.
- J sei. Voc se sente como se algum estivesse man-
dando. Eu deveria saber Voc continua vivendo na defesa. Como
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antes. Antes, isso tambm me agradava. Mas eu mudei, Mariano,
eu mudei.
Mariano queria beij-la ou quebrar-lhe a cara. E, em vez
disso, diz: "Perdo". Aperta o copo entre os dedos. Olha ela olhar
as unhas rodas; olha ela olhar para ele como se ele fosse transpa-
rente. Ele tambm queria que no tivesse passado o tempo e que
no tivesse acontecido nada. At que idade pode-se acneditar que a
noite  uma deusa guerreira e no o resultado da rotao da Terra?
Acende um cigarro: conftma que continua mal do pulso. Pede mais
vinho. Poderia dizer que voltou para fazer alguma coisa por sua
pobre terta e pelo que  justo e merece ser salvo; e isso seria
verdade. Mas seria somente uma parte pequena da verdade.
- Algum dizia: "Brindemos pela prxima vez", e no
fundo sabia ou temia: "No haver nenhuma prxima vez". Que
somos, Clara? Fantasmas bbados que andam por a? Que somos
todos ns? Que merda somos? Por que tudo se amina sempre?
No podemos fazer nada que dure?
Mariano sente que l no fundo nasce a necessidade de falar,
de contar. A priso. A importncia universal de um cobertor e
uma ma. A memria de teu rosto. No espao curto de teu rosto
cabia toda minha liberdade e ainda sobrava lugar. Contar a ela:
"Mas as caras se desprendem e vo embora. Uma noite voc pede
uma cara  memria e a memria no segrega nada. A morte 
isso. No pode lembrar. Isso". Contar a ela: "Algum tinha es-
crito na parede da cela: Lc fora sempre acreditaram em voc".
Falar, contar a ela, dizer: ficar vazio. Mas soaria como s-
plica ou chantagem.
- Por que as coisas se amznam sempre? Em que momento
se armnam para sempre?
Clara olha para ele, mordendo os dedos. De repente estala
os dedos e abre a bolsa, eomo apressada, e tira um livrinho de
capa negra. Mariano fecha os olhos, abre:  sua carcomida cader-
neta de endereos e telefones. Acaricia o livrinho com a mo. A
capa velha, corroda, entvgada. Com o polegar, faz correr as p-
ginas. Do A ao Z. Folheia. Abre. Fecha.
- Quer dizer que se salvou.
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- Vrias coisas se salvaram. Ela est quase desfeita. Voc
teria que pass-la a limpo. Eu no me animei a toc-la.
- Eu tambm no me animo. Me d medo.
E pensa: e os discos, e os livros, que ter sido feito deles?
Uma queixa de saxofones, uma garoa de guitarras, uma impres-
so digital impressa numa pgina, os amuletos ganhos das mulhe-
res que amei e dos homens que foram meus irmos: uma cpsula
de bala calibre 22, uma pedrinha transparente para apertar entre
dois dedos e afastar a desgraa, um caracol colorido, um cava-
linho do mar: sim, eu tinha dito: no importa perder as coisas, as
coisas no significam nada. Mas agora me pergunto: aquelas coi-
sas que eu amava, que ter sido feito delas?
Esta cademeta. Esta cademeta:
- Est toda cheia de mortos, Clara, e de gente ~que se foi.
Eu poderia dizer a voc: conheci todos, um por um, portanto no
esto mortos; conheci todos, portanto no esto longe. Seria uma
puta mentira.
Sentem sede. Pedem mais vinho branco, e depois mais.
Cada um sente os joelhos do outro debaixo da mesa; as pernas se
movem, se estendem, se entrelaam. Agora fumam o mesmo ci-
garro. Agora no esto to longe do outro tempo, quando dor-
miam abraados e nada poderia destru-los e essa insensatez era
melhor que a memria e que os dias seguintes e acordavam e se
encontravam os olhos e pensavam: coitadinho de Deus, que no
pode nunca estar assim, de tanto trabalho que tem.
Clara joga a cabea para trs. Ele olha o arco do longo pes-
coo flexvel e sem tvgas, a gola da blusa: debaixo desse pano
azul, nas curvas que conduzem aos ombros, h algumas sardas.
Era lindo percorr-las com os lbios, devagar, preguioso.
Clara brinca com uma mecha dos cabelos, fez bigodes,
morde. Ela tinha sido palhaa, quando era muito pequena: andava
sempre vestida com a roupa dos irmos maiores, com um chapu
de abas largas na cabea, e andava descala, e sempre quebrava o
dedo do p nos saltos mot~tais.
Clara diz:
- Mariano.
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E diz:
- Acaricie meu rosto. Isso. Assim.
Mariano sente sua pele moma contra a palma da mo aberta e
ela inclina a cabea e roa os lbios no dotso da mo dele. Ela diz:
- Queria que voc voltasse. Sim, queria. Queria, Pirata.
Depois se levantam, depois saem. Mariano manca de uma
perna. la sente frio nas costas e ele corre o zper de sua blusa.
8
Ganapn e Buscavida caminham com os bolsos das calas
virados para fora, como bandeiras de protesto. O vento, que le-
vantou do sul e sopra em rajadas quebradas, faz com que os bol-
sos ondulem e as calas batam contra as canelas. A praa est
coberta de folhas secas cadas das copas dos carvalhos. O outono
range debaixo dos ps: uma folha se ergue, ganha vo, roa caras.
Os dois amigos sentem a necessidade de fumo no corpo. Ao
chegar na esquina, Buscavida diz:
- Espera aqui, eu j volto. Voc tem boa presena.
O cachorro ri um osso; fica com Ganapn. Buscavida dei-
xou a mala.
Na metade do quarteiro, Buscavida entra em uma tabaca-
ria.  um corredor estreito, eom o balco coberto, de ponta a
ponta, por maos de cigarros, chocolates, pastilhas e caramelos
coloridos, chaveiros com chicotinhos gachos, cartes-postais e
badulaques para turistas. As revistas de atualidades e de quadri-
nhos esto embaixo, presas com pregadores de roupa. O dono do
estabelecimento deixa os polegares enganchados nos suspens-
rios e as mos com as palmas abertas, como um Cristo de santi-
nhos, mas  gordo e desconfiado: as bolinhas dos olhos deslizam
da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, atravs dos
bolses violceos das plpebras: vigia os movimentos de Busca-
vida.  homem de uma sobrancelha s, de to unidas, e bigodes
de arame; no responde aos cumprimentos. Buscavida sorri para
ele com o canino de ouro: um minsculo corao deixa ver o
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branco do dente. D uma piscada para o homem, apia um coto-
velo na bea do balco. Obriga o homem a inclinar-se chamando
com o dedo inccador e pergunta sussurrando: "De seda, super-
longos, psicodlicos, revetsiveis, irrompveis?". Buscavida injeta
as palavras no ouvido do homem e o gordo se agacha mais, por-
que no entende, e sua cara fica fora do balco, olhando para a
direita: "No tem preservativos da Dinamarca? Mas realmente
no tem? Mas no me diga! Preservativos garantidos da Dina-
marca?", e nesse meio tempo o brao esquerdo de Buscavida se
converteu numa vara de pescar e os anzis agarram, com a velo-
cidade de um raio, alguns maos de cigarros com filtro e uma
caixinha de amendoins com chocolate.
Enquanto isso, o nariz de Ganapn est amassado contra
uma vitrine cheia de instrumentos de misica. L dentro descansa,
em seu estojo de metal, uma gaita como a que ele necessita. O
olhar de Ganapn desliza pelas cadeiras luminosas de uma gui-
tarta eltrica e cai sobre o couro de um tambor gorducho rodeado
de flautas como pontas de uma estrela. Um trombone e vrios
trompetes completam o conjunto. O respirar de Ganapn esten-
dcu um vu de bruma sobre o vidro e Ganapn escuta um repicar
de tambores, a cidade sitiada se rende, pm~raaaao ~ ratapl pl
pl, o general Ganapn avana, desmonta, suas botas sujas de
barro pisam bandeiras e tapetes carmesins, vai abrindo caminho
suando em bicas, sente ainda o calor do cavalo nas pernas. Gana-
pn, o sper, o temido, o amado, surge no balco, o urllforme
manchado de sangue, azul o urllforme, com arabescos de prata e
medalhas enormes que pesam em seu peito. Ganapn brilhante de
luz prpria, a multido delira, os artilheiros aeendem as mechas
estalan as salva.s, ele ergue os braos,. a ovao, flores brancas
voam pelo ar, voam sobre a fumaa e a multido, e ele sorn e ele
compreende e ele perdoa e Buscavida agarra-o pelo cotovelo e
diz: "Vamos". Um automvel d a volta na praa. O motor ruge
para ele: "Voc  um mentiroso, Ganapn". A brisa remove a fo-
lharada. As crepitaes secas o acusam: "Ganapn, voc  um
covarde". O cachorro se mete entre suas pernas, latindo e fazendo
eco: "Mentiroso, mentiroso! Covarde, covarde!". Ganapn d-lhe
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um chute nas costelas. O co geme e corre at a fonte e late para
os anjos de bronze, que danam em roda, de mos dadas. Os anjos
mostram suas bundinhas, verde-escuras pela ptina da intemprie.
Buscavida e Ganapn se sentam num banco de madeira. Na
mo direita de Buscavida h um grande rolo de papel. O co no
demora a voltar, as orelhas baixas, e deita aos ps de Ganapn.
Ganapn pensa que o cu est vazio. Buscavida exibe seus tro-
fus; atira amendoins para o alto e encaapa na boca aberta. Mas-
tigando, a boca cheia, pergunta: "E voc, no gosta de choco-
late?". Mas no oferece.
Desenrola sobre os joelhos uma cartolina pintada em cuida-
dosas letras vermelhas sobre fundo branco: Rifa-se. Est orgu-
ihoso de sua conquista. Ganapn olha de soslaio e comenta, com
desdm:
- E o que voc quer dizer com isso a?
Buscavida balana a cabea:
- Que aborto tua velha deixou de fazer, Ganapn. Voc
no  vivo para nada, nunca. Esse  o seu defeito.
Ganapn, com a mo, agarra-o pelo colarinho e levanta-o
meio metro, como se fosse um bonequinho de pano. Os braos de
Buscavida se transformam em hlices e ele gagueja, sufocado, e
finalmente cai como chumbo sobre o banco. Geme, massageia o
pescoo e o queixo, flexiona as pernas, estica-as. Depois suspira,
pe um palito na boca. Recuperado, explica seu plano, com voz
de gerente geral de alguma coisa:
- Este cartaz  da rifa dos estudantes. Rifam um carro e
todo mundo compra, embora seja um carro arrebentado, eu vi,
venho de l. O negcio  o seguinte: procurar um carro legal,
ltimo modelo, que algum tenha deixado estacionado pelo
centro, um carro bacana, ento a gente chega l e gruda este car-
taz no pra-brisa e vendemos nmeros em benefcio dos rfos
dasinundaes.
Esfrega as mos, como se esstivesse enxugando-as: "T?".
Os pombos levantam vo rasante, em bando, brilhantes e
clamorosos; o cachorro se lana atrs deles. Ganapn persegue-os
com os olhos.
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- E?
Buscavida vira para ele.
- E o quc?
- E se aparece o dono do carro? Acho isso to perigoso
como punhalada de vesgo.
- Mas escuta aqui: algum risco tem de ter, no ? - Bus-
cavida acnde um cigarro, oferece. - Veja bem, Ganapn.
- E que nmeros vendemos? Onde esto os tales? Sem
papelzinho com carimbo, ningum compra.
Busca soha uma baforada de fumaa, olha a fumaa subir e
se perder:
- Bom, a gente consegue isso.
De repente, sente uma espetada aguda no dente do fundo.
Um pedacinho de amendoirn se eneravara e o nervo est protes-
tando. Busca retm uma baforada de fumaa do cigarro na zona
dolorida.
- Alm disso - conelui Ganapn - as ltimas inunda-
es foram aquelas de quinze anos atrs.
Um sacerdote se aproxima, caminhando com a cabea incli-
nada sobre um livrinho que leva, aberto, nas mos. O cura fixa a
vista por cima dos culos: o vento brinca com a saia leve de utna
moa e toda a luz do meio-dia se concentra em suas fortnosas
pernas douradas. O sacerdote tropea na mala de Buscavida e
quase cai; fica vermelho, tosse, pede deseulpas, sacode a batina e
levanta o livro do cho. As pernas douradas desaparecem numa
esquina.
A dor de Buscavida se estende; ehega na bochecha, na testa,
nos olhos. Buscavida rasga o cartaz da rifa e joga os pedacinhos
de cartolina ao vento.
- Assim no podemos continuar - diz Ganapn. - Falta...
... organizao - murmura Buscavida, agarrando a face.
Quanto no pagaria pard livrar-se daquela dor de merda... Quanto
custa um dentsta? Descobre o cachorro, que se distrai cheirando
os tomozelos das pessoas que passam. O ro: as patas torcidas,
crostas na pele, nenhum msculo no corpr:~ e ner~~uma luz no olhar
Buscavida extrai lentamente uma corda do bolso e lenta-
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mente fica em p~ e desenrosca a corda, a corda-serpente, adianta
as mos, as mos massageando a cintura de uma invisvel compa-
nheira de baile. A espinha dorsal do cachorro estremece. Dobra-
se; d um salto para trs. Levanta as orelhas; retorce o pescoo
em crculos, como uma coruja, e geme, desesperado, enquanto
Buscavida d voltas ao seu redor nas pontas dos ps e com a
corda na mo. De repente o cachorro comea a correr como pode,
abrindo caminho no meio do batulho de folhas secas e pombas
que disparam voat~do.
- Desgraado - Buscavida enrola a corda, guarda no
bolso, toma a sentar, afunda as mos nos bolsos: "Que se foda,
para aprender a ser mau amigo. Vai acabar modo. Tr~ansformado
em fingia. Assim vai terminar sua puta vida".
- E voc, o que queria com ele?
- Os doutores do Instituto pagam por cada cachorro que
voc leva. No sabia?
- A quanto cada pulga?
- A cincia no precisa de cachorros finos. Qualquer um
serve para as experincias das grandes invenes da humanidade.
- O coitado do animal fez bem em sair na disparada.
- Como voc  cabea dura, Ganapn - diz Buscavida,
apertando o brao do outro. - Onde est sua maquininha de
fazer dinheiro? Enterrada no fundo do quintal de sua casa? Ou
voc est aehando que vai ficar rico sem foder ningum?
De repente, lembra da agulhada no dente e coa a cara com
a longa unha do mindinho e se queixa: "Ai, ai".
- Se o Sussurro estivesse aqui, ele curava voc.
- J passa.
As olheiras de Buscavida, destacadas pela pele de cera, tor-
nam seu olhar pestanudo ailida mais triste.
- O av do Sussurro, que vivia na iltima das misrias,
curou o filho do Czar da Rvssia, e o coitado j estava esticando as
canelas - conta Ganapn. - O Sussurro recebia o esprito do
av, que lhe transmitia os poderes e a sabedoria para a questo
das doenas fatais.
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O badalo atinge o sino doze vezes, na torre da catedral.
Ouvem-se batulhinhos na barriga de Ganapn.
- Vamos visitar uma amiga minha - diz Buscavida, com
um dedo beliscando o lbio inferior - Ela vai amunar comida
para a gente. E eu ando precisando de uns gargarejos de cachaa.
Entram no banheiro de um caf; cumprimentam um par de
conhecidos com gestos mudos e a distncia. Caminham at a
zona do porto. Acendem cigarros; o vento da costa empurta a
fumaa nos olhos deles.
A cidade cheira a mar e a comida sendo feita. Ganapn ca-
minha chutando uma bola de papel. Algum dia ter dinheiro e
celebrar com os amigos e os vizinhos e as mulheres de quem
gosta: ser de noite, uma boa noite cheia de estrelas, sentados
todos na grama e ao redor de uma gigantesca panela de barro
fumegante e cheirosa. Seus filhos chuparo os dedos e sobraro
manjares para todos os garotos do bairro. Dona Anunciacin dan-
ar de alegria, movendo as cadeiras como nos bons tempos. Os
aromas que escapam pelas janelas das casas dilatam as largas na-
rinas de Ganapn e enchem sua cabea; a imaginao de Gana-
pn jorra sucos e solta vapores: o fogo crepita sob a panela de
barro e as borbulhas se incham e arrebentam e tomam a nascer na
superfcie oleosa enquanto no fundo, envolvidos, se misturam o
vinho tinto e o sangue do novilho, a cebola frita e o alho, a salsa e
o pimento, o tomate e o organo, o sal e a pimenta. Ganapn
acaricia a pana, debaixo da camisa de pano grosso e spero.
Lambe o dorso da mo. A fome no vero  pior, pensa. No vero,
a cidade se torta debaixo de um sol verdugo, as cuspidas secam
antes de chegar ao cho e o que a gente come e bebe escapa pelos
poros num momento. E no invemo? Com a barnga vazia, o frio
parte e mata.
Passam na frente de um aterro onde dormem, ao sol, os es-
fartapados. Algumas espinhas de peixe e garrafas deitadas ro-
deiam as cinzas do fogo improvisado contra o muro. "Eles se
renderam", pensa Ganapn. "Baixaram os braos. Esto descal-
os e gt~unhem, em vez de falar. Esto velhos. Eu no estou
velho", pensa. "Eu no me rendi. Sou forte. Ainda. E quando eu
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for velhinho?", pensa. "A gente vai envelhecendo aos pedaos. O
que ser que vai ficar velho primeiro, em mim? As costas?"
Apalpa as veias do brao; na mo, pendurada, leve como algo-
do, a mala de Buscavida. Ganapn sente uma cibra que retorce
seu brao. "E quando eu esfiver todo velho e todo derrotado"
,
pensa, "quem se ocupar de meus filhos? E de mim, quem vai
cuidar? Suplicar, assustar-me? No costumo."
Ganapn ergue o olhar para as cpulas dos edifcios, os ve-
lhos stos, as janelas gradeadas, os parapeitos frondosos de mol-
duras, e alm deles se adivinham terraos com clarabias e pom-
bos. I. de cima, sente, um vigia misterioso o examina e segue
seus passos. Olha seus sapatos sem meias, triturados pelas pere-
grinaes inteis.
Ao seu lado, Buscavida tambm caminha sem falar. Est
preso  dor de dentes, est nu frente  crie, que, minscula e
impiedosa, continua torturando-o.
- Se consegussemos dinheiro... - diz, por dizer, Ganapn.
.. poderamos tentar a sorte na quiniela~ - diz Buscavida.
Pela rua passa, saltando sobre as pedras, uma caminhonete
policial cheia de presos. No cais pula um peixe, fisgado: agarram-
no pelas aletas, artancam o anzol e a isca meio comida de sua
boca. O peixe se retorce e resvala e cai, a boca aberta.
- Na quiniela  preciso a gente ter sonhado para ganhar -
diz Buscavida, e bate dentes contra dentes. - Um sonho: um
garfo ou um punhal entrando na carne tostada. Jogou no dezoito,
sangue, e perdeu. Saiu na cabea o noventa e trs: namorada. 
coisa de sonhar e saber interpretar.
- Eu tive um - diz Ganapn. - Um sonho bom, porque
para jogar e ganhar  preciso ter um sonho bom. No como
aquela vez que sonhei que tinha morrido e entrava na fila errada
para o Cu.
- Conta, conta - pede Buscavida, estalando os dedos.
- Foi um sonho comprido como um filme, esse meu. Eu
estava dormindo muito bem, dormindo como processo em repar-
* Jogo de nmeros, semelhante ao jogo do bicho. Na quiniela, cada nmero tem um
significado na superstio do jogador. (N.T.)
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tio, e o assunto era um circo. Eu ia pedir trabalho. Entrava por
baixo da lona. No sei se serve.
- Cireo, para a quiniela, no d. No h nenhuma chave
para o cireo. Tinha cachorros, nesse cireo?
- Tinha cavalos, de madeira.
- No. Cavlos, no. Essa  outra diviso. Uma diviso
diferente.
- E tinha um mar, que era de papelo - continua Gana-
pn, a mo direita levando a mala e a esquerda afundada no
bolso. - Mas o que mais me impressionou foi a galinha. O dono
levava a galinha com uma cordinha amarrada no pescoo. Me
olhou com um dio, a galinha! O cara estava procurando trabalho
para ela. Todos estvamos procurando trabalho. A galinha sabia
xingar. Erguia a crsta e te mandava  puta que pariu. Essa era a
habilidade dela.
E lees, no havia?
- No vi. Tinha um chins com um hipoptam e um chi-
leno com uma pulga amestrada. Ah, e um cara com o brao en-
gessado. "E voc, o que sabe fazer?", perguntou, o capo da em-
presa, homem de cartola e culos e tudo. "Eu?", perguntou o
cara. "Eu vo." "E isso a?", perguntou o capo apontando o brao
engessado, e o cara, meio envergonhado, explicou: " que s
vezes no d certo".
Buscavida ri. D tapinhas nas costas de Ganapn.
- So contos, Ganapn. Que sonhos que...
E ri com vontade, com sua risada assobiando como a de um
asmtico.
- Palavra, irmo - continua Ganapn. - Palavra. Escuta.
Depois chegou a minha vez e o capo vem e me pergunta. E eu
vou e digo que sou quase mecnico-tomeiro mas que faz quatro
anos que recolho lixo, e ento todos do risada, gargalhadas, e eu
tambm ria. E acordei.
- E, bem... - diz Buscavida, que percebe que a dor no
dente melhorou um pouco. - Poderamos tentar. Um circo 
como uma festa. Festa  o vinte.
Ganapn acende um fsforo; uma lufada de vento apaga-o
40
antes que ele alcance a ponta do cigarro: "O vinte". Protege a
outra chama com as mos, fuma, pergunta: "E o dinheiro para
jogar, de onde tiramos'?". Tropea num tijolo quebrado e na
mesma hora esquece a falta de fundos: "O vinte. Hoje  a ltima
oportunidade que dou a Deus para acreditar nEle. Se no sai o
vinte, Deus, ests frito". Ganapn pensa na sua sorte: a stima
cat~a do dado que roda sobre a mesa.
- Ganapn - diz Buscavida, parando.
- O qu? - Ganapn vira.
- J chegamos.  aqui.
Buscavida alisa o palet, estreito na cintura. Tira uns fiapi-
nhos'da lapela e investiga as unhas.
Em um buraco da parede, vende chaves usadas o homem do
sot~t-iso eterno. Falta-lhe um pedao do lbio, e o buraco mostra a
gengiva vermelha e os dentes. Sobre uma estopa comprida, aos
seus ps, jazem em fila chaves de todos os tamanhos e de todas as
pocas, chavinhas de cadeada e velhas chaves de bronze, grandes
c:omo armas, dos pt2icos das igrejas destrudas.
- Aqui? - pergLmta Ganapn.
Um passo depois do homem do sorriso imutvel, est a en-
trada do bar. Uma parreira, lavrada em madeira, se enrosca entre
serpentes douradas e sobe at o alto, at o luminoso que pelas noites
reina no quartciro: "A Petvetsa de Paris". Ganapn deixa a mala
no cho. Vacila, o cigatro pendmado na mo, na altma da coxa, a outra
sobrando, como um turista pobre nas portas do Waldorf Astoria.
Buscavida pensa ver pelo vo, oculta pelas cortinas de ~os
coloridos, abanando-se com um leque e com uma das mos na
cintura, a Perversa em pes.soa. Mas ela est l dentro, muito ocu-
pada, discutindo negcios, protegida pela enorme deusa de gesso
que zela pelo bom andamento do estabelecimento.
9
A quetn ou a que cantaro os trovadores'? Algum i~icar,
para lembrar assim:
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Havia quem morria de frio nos portais das igrejas ou nos
canteiros do parque, na frente da praia; havia os que apareciam
abandonados entre as rochas, com os ossos quebrados e a carne
arrebentada pelo chumbo. Um homem amartado escutava os
uivos de sua filha, enquanto ela era partida pela metade no quarto
ao lado. Os presos reconheciam os carrascos pelas vozes e os
cheiros e as maneiras de bater.
Descobrimos que sentamos medo, e isso nos enchia de as-
sombro e de vergonha. A cidade vivia com o flego cortado. O ar
estava envenenado pela desconfiana, falava-se em voz baixa, as
vozes no tinham eco, as vozes no coincidiam com as caras.
Estar livre era, no fim, suspeito, mas ns estavamos soltos e vivos
e sentamos vontade de felieitar-nos. Os meninos desenhavam t-
neis e animaizinhos que fugiam pelos tneis. Fazia-se amor como
se no fosse acontecer outra vez, nunea: "Se caio e no me
matam, vou te mandar cartas debaixo da lngua de algum".
Dizer "At a semana que vem" era uma estupidez. Pensaste, dis-
seste, duvidaste: algum murmurava teu nome antes de desmaiar:
reconhecias o relgio de teu melhor amigo no pulso do soldado
que entrava para te prender.
Os dias no andavam de mos dadas uns com os outros, no
abriam caminho em fila indiana, amavelmente, lento fluxo do
leo do tempo, ida e volta, vai e vem, no: os dias se atropelavam
e se amontoavam uns sobre os outros e caam no vazio com a
pernas enroscadas: zumbavam, atacaro, acossam: naseeste
amanh, morrers ontem: disseste dirs adeus: amor ou medo ar-
dendo nesses olhos que me olharam a prxima ltima vez.
10
Faltam somente respirao e voz para que ela exista e ca-
minhe e esmague todos. King Kong ajoelha-se a seus ps; com a
testa apoiada no gesso, murmura uma orao e um desejo e faz o
sinal-da-croz.
A deusa  uma puta ampliada, uma gigantesca boneca de
42
nos
;iam camaval que se ergue at o topo da abbada e mete medo e endi-
ame reita os destinos. Veste meias de seda e uma saia cutta, aberta do
lado; os peitos, pintados de rosa-choque, mostram valiosos cola-
res de vrias voltas e a blusa ostenta broches de prata e ouro e
pedras preciosas que ningum ousaria toear. Aros brilhantes esto
pendurados nas orelhas. O sorriso  fosforescente, como os olhos.
King Kong ergue-se de um salto. Retira da mesa os pratos
) ar de sobremesa, manobrando com seus braos curtos e dando coto-
veladas contra o ar; ergue a bandeja em uma das mos e percorre,
num ritmo de locomotiva de brinquedo, o longo caminho que
conduz  cozinha. Quando volta, Buscavida sussurra:
- Um frango ao vinho branco. Com ervilhas. E pur. E
mo pimentes e cogumelos. E um tomate. E vinho. Que seja tinto.
King Kong concorda, e com o olhar interroga Ganapn. Ga-
napn eseolhe:
- Corvina na brasa.
Ento King Kong trepa de um salto no topo de um tambo-
rete, atira para trs o guardanapo que estava pendurado no brao
e d uma gargalhada. Depois mergulha para trs no balco; reapa-
rece com uma garrafa e serve bebida em copos barrigudos para
todos, menos para a Perversa de Paris, que bebe uma xcara de
ch, e pata Buscavida e Ganapn, que fieam sem nada. King
Kong contempla-os com um desdm histrico, enquanto se aco-
moda em uma cadeira com seu prprio copo na mo. Suas calas
listadas balanam a boa distncia do cho.
A voz raspada da Perversa de Paris quebra o silncio de missa:
- Quer dizer que se queixam por causa da quantidade de
trabalho - diz. - Mas eu te pergunto, Caralisa. No final das
contas, quem as criou? Quem teve o trabalho de aliment-las e
dar-lhes cultura?
A Perversa, decapitada pelas sombras, est sentada em uma
cadeira mais alta. Seus grandes peitos brilham, ainda duros e
rijos, contra o decote apertado: Ganapn olha a concha vazia de
sua prpria mo. Com a unha do dedo mindinho junta umas mi-
galhas no extremo da mesa de madeira lavrada. Leva-as at a
boca no preciso instante em que King Kong descarrega sobre a
43
mesa a montanha de papis que lhe ocultava o rosto: King Kong
olha-o, acusador. Caralisa investiga os papis, fumando com uma
piteira e acomodando os culos que de`5lizam na bolotinha que 
o seu nariz. Os traos de Caralisa se diluem na cara inchada. Usa
uma esferogrfica de tinta vermelha para grifar os nmeros e as-
sinar com um arabesco no final de cada soma. Quando tem d-
vida, coa a nuca com a caneta.
A Perversa bebe um golinho de ch. Sua voz se equilibra
entre a surpresa e a indignao:
- Quem se entende com o govemo, quando as metem em
cana? Quem cuida delas, quando esto doentes? Quem d de
comer nas suas bocas? Quem tem a pacincia de eseutar suas
histrias estpidas? Hein? Hein? Je demande.
Caralisa diz "Hum, hum", e continua com os culos afunda-
dos nas notas fiscais e no estado das contas. Buscavida se mexe,
nervoso, em sna cadeira. Atrs do balco, no alto, um exrcito de
garrafas cerra fileiras. De um lado do teto um vitral jorra fascas
coloridas. Em sua queda, as luzes oblquas atravessam a atmos-
fera sombria e espessa de p, salpicam as pilhas de papis acu-
mulados sobre a mesa e traam faixas purpreas e violceas, utna
fantasia de arlequim, sobre a espuma de broches do vestido da
Perversa de Paris. O ambiente cheira forte a comida e h um
clima de boa digesto pesando no ar.
O rosto da Perversa, mascarado de maquilagem, no sai das
sombras. As sombras o defendem, mas, na meia-luz, brilham seus
olhos de pupilas abertas. Bate no cho com sua bengala:
- As noites sem dormir, sentada aqui, controlando, quem 
que passa? E de dia, quem trabalha enquanto elas dormem? E as
contas, e os impostos, as dvidas, as propinas...
Quando se refere ao estabelecimento, a Perversa fala no
plural, como a imprensa:
- Suportamos a calnia e a traio. Mas continuamos na
Iuta. Toujours.
Caralisa tira os eulos, sopra as lentes, bafeja; esfrega-os
com um leno de seda. Batem suas plpebras sem pestanas e com
o dedo aponta o cabealho de um dos formulrios: "Lulu"? per-
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gunta, franzindo a pele entre as sobrancelhas invisveis. Caralisa,
ave notuma,  de cor cinzenta. Mas percebe-se que os raios de sol
no so seus nicos inimigos.
Ganapn, que esconde sob a mesa seus sapatos sem meias,
se pergunta que merda espera para ir embora. "Viemos pra qu?",
pensa. A esttua sagrada contempla-o l do alto, sombra desco-
munal que envolve a Perversa, e ele sente fome e pensa que sente
fome. Buscavida fala para si: "Chegamos num mau momento. 
isso. O momento errado. Sempre chegamos tarde, ns dois". Nin-
gum lhes d a menor ateno.
A Perversa fala com o queixo avanado, para esticar a pa-
pada: "A ca.sa detesta a promiscuidade", e crij-craj-cruje o tafet
do vestido, adianta uma das mos forrada por uma luva de or-
gandi, separa os dedos, faz com que girem: "Todas so iniciadas
pelo mesmo ministro", explica, e os dedos retrocedem, se enro-
lam numa mecha da peruca, uma mecha que faz cachos sobre o
ombro: "Ficam porque querem. No  obrigao. Mas onde vo
encontrar o amor e o respeito? Onde vo encontrar quem pague
as hot~as extras em dobro? Nem na Europa! E falo porque co-
nheo, sou viajada", enquanto os dedos deslizam para o colar de
prolas. "No fim, a gente se cansa de servir de leno para lgri-
mas alheias. Nunca pensam que a gente tambm pode ter seu
prprio drama? E as descaradas ainda por cima se queixam",
como gemendo mas ao mesmo tempo caoando de si prpria,
ofendida mas fazendo dengo, no para Caralisa, que de vez em
quando ergue o olhar e concorda movendo a cabea, mas sim
para a espcie masculina em geral e talvez muito especialmente
ante um dos dois recm-chegados, a quem simula ignorar: "As
coisas que temos de ouvir dessas ingratas", diz, vigiando com as
distantes fascas do olhar e falando com a voz e os dedos. A Per-
versa tem muitos dedos:  uma aranha de seda, cheia de formas
luminosas que surgem a fogem para o seu colgio no trono das
sombras. Ganapn no consegue tirar os olhos de cima dela. No
o intimida a outra dama milagrosa que govema a casa, coberta
pelos ex-votos das meninas que pagaram promessas, e poderia
at erguer a mo e beliscar-lhe um peito; mas o que o deixa des-
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lumbrado  a Perversa em pessoa, de carne e osso. Ganapn se
pergunta: "Quantos homens ela ter comido e vomitado?", e se
pergunta: "Quantas mulheres?".
 direita da Perversa, o Prncipe Cigano, campeo em des-
graa, persegue as moscas com um olho. A cabea, afundada
entre os ombros rochosos, mostra os sinais da surra da noite ante-
rior: um lbio inflamado e inchado, um olho preto, um curativo
em cruz sobre um talho na sobrancelha. Tinha ido mal logo no
comeo. Nos camarins fieou louco proeurando o santinho, e no
o encontrou: entrou muito atrasado na luz branca do ringue e
tropeou nas cordas e o pblico levantou-se para vai-lo. A Per-
versa, que sabe fazer girar a manivela da mquina do tempo para
a frente e para trs, tinha previsto ao Prncipe Cigano: "O diabo
vem vindo a galope, montado nuxna tora, e vai te esmagar e voc
no vai poder levantar, vai querer fiear em p e no vai conse-
guir". Agora qualquer um percebe que  um homem acabado; basta
v-lo atirar a cinza do cigarro no ralador de eenouras que as meni-
nas tinham deixado essa manh, por descuido, em cima da mesa.
- A no, bruto - diz ou sussurra a Perversa, e suave-
mente desvia sua mo para o cinzeiro. A voz se dirige sempre a
Caralisa:
- Contratamos o Prncipe Cigano para que nos proteja. A
casa estava necessitando uma coisa assim h muito tempo. Tem
gente que no entende as boas maneiras. E agora ele  nosso.
Como perdeu, ningum quer saber dele. No  verdade, amor?
Desliza seus dedos enluvados entre os caehos dos cabelos
do eampeo. Ele esboa uma suspeita de sorriso e no diz nada.
Comeu bem, est com a barriga cheia, e isso basta. Levanta, com
a inteno de ir ao banheiro, d de encontro com uma coxa da
deusa de gesso; balbucia uma desculpa, em seguida avana dire-
tamente contra um guarda-roupas escondido atrs das cortinas e
entra nele. A Perversa ergue uma das mos: o basto de bambu
soa seco contra o eho. Kong Kong eorre para salvar o extra-
viado. Recupera o Prncipe Cigano, guia-o e fica esperando, com
a orelha grudada na porta do banheiro. Todos escutam um grito
curto e rouco: no  nada grave: o campeo beliscou o pinto com
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o zper da cala. King Kong se enche de pacincia. Finalmente
traz o campeo de volta, puxando-o pelos joelhos, e senta-o em
seu devido lugar.
Ganapn, comovido pelos machucados do Prncipe, apro-
xima-se dele e fala baixinho, comentando: "Vai chover, no
acha?". Mas o boxeador olha-o sem ver, os olhos cobertos por
uma pelcula opaca, e Ganapn sente o sangue latejando e fa-
zendo-lhe ccegas na cara: sente-se acossado pela vaga sensao
de que a Perversa est observando-o e que vai gnzd-lo como
uma agulha contra a parede. Buscavida ensaia, em vo, sua cara
mais pattica; a dor de dente voltou ao ataque e o impede de
estudar, com a necessria serenidade e clareza mental, um plano
para subornar a Perversa. Ele sabe que ela oculta um mao de
notas no suti. A fome de Ganapn bate asas contra o fundo vazio
de seu estmago. Ganapn fecha os olhos e uma vaca assada flu-
tua envolta numa nuvem. Ganapn sente-se sozinho, sobrando,
nufrago de nenhum navio: a vaca sai voando e ele faz com que
desa a tiros. Ganapn abre os olhos. Pensa em seus filhos e na
comida que teria de levar para eles. Dona Anunciacin, como
estar se artumando? Dona Anunciacin tem uma vaca leiteira
dormindo ao lado da cama e um marido que lutou nas guerras
civis. O veterano passa os dias em uma cadeira de balano, deli-
rando com batalhas que se definem com uma carga de lanceiros
entre duas luzes. Ganapn no quer pensar, pensa que no deve
pensar, a Perversa est lendo seus pensamentos: ela o deixa atur-
dido quando fala, e muito mais aturdido ainda quando fica calada,
com seu estrepitoso silncio de caritide.
Buscavida acende um cigarro, engole a fumaa, solta-a no
ar em rodelinhas sucessivas; dedica a Caralisa seu melhor sorriso
e chama-o de "Inspetor". Caralisa olha para ele, sem piscar, seus
olhos frios dizendo: "Eu nunca te levei preso. Nunca tive esse
prazer", e continua ocupado com suas contas. Buscavida se de-
cide: solicitar os favores da Perversa de maneira mais direta.
- T~Iinha rainha - solicita, o corpo esticado para a frente,
os cotovelos sobre a mesa. - Eu tenho... um negocinho, minha
rainha.
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A Perversa continua inacessvel, nas alturas. Com os anas
cresce o orgulho e apagou-se a beleza morena que Ihe tinha
dado fama alm das fronteiras da zona. Agora exala um perfume
violento e vulgar. Um movimento de ombros, um bater de pesta-
nas: a Perversa vira-se para King Kong, que boceja com a
enorme cabea cada sobre os braos cruzados:
- King Kong, amorzinho - chama, e ele se pe a seus ps
de um salto. - O que voc vai me dar de presente hoje: uma
bolsinha com gua da Esccia? Um frasco cheio de ar da Frana?
Ai, King Kong. Voc tambm me tem abandonado.
- Um Rolls Royce Silver Shadow. Um Lincoln Continen-
tal amarelo-limo - promete King Kong, abraado aos tomoze-
los da Perversa. Num dos tornozelos, ela usa uma eorrentinha de
prata.
-  verdade que voc foi preso por ter roubado um p de
sapato? - pergunta a Perversa, empurrando-o com o p.
King Kong cai de costas e fica em p no mesmo instante.
-  verdade, msero King Kong, que voc tem sama e ou-
tras doenas de cachorro?
Acerta sua cara com o salto do sapato. King Kong solta um
gemido, rola pelo cho, deita de costas, como morto, e de repente
d um salto mortal para trs, fica em p, faz uma reverncia para
sua dona e senhora e beija seus ps.
-  verdade que voc matou por amor?
- Num duelo gacho, Princesa.
- King Kong, desgraado. Arranquei voc do esgoto. Onde
voc vai arranjar dinheiro para me comprar um beijo? Roubars?
Matars?
- Herdarei, Princesa.
- Quem te disse isso, King Kong?
- Deus me disse.
- Deus? Pessoalmente?
A risada estremece o corpo cheio de jias.
- Ele me apareceu h trs dias e disse: "Voc ser feliz".
Explodem as gargalhadas. "Ai, ai", diz a Perversa. "De
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tanto dar risada, ainda vou ficar com ps-de-galinha... Ai,  he-
roico.  herico..."
Querendo no fazer rudo nem ser notado por ningum, Ga-
napn se levanta para ir embora. Busca os olh~ da deusa de gesso
como pedirdo licena e perdo. Sigilosa mas firmemente, Busca-
vida agarra-o pelo ombro: "No fique nervoso", sussurra ao seu
ouvido. "Est manhosa. Conheo-a bem.  preciso amans-la,
pouco a poueo. Deixa para mim." Fsto rsso, Ganapn querendo
contestar, quando escutam todos um vozeiro ressoando na entrada:
- Quietos! Que ningum se mexa! Isto  um assalto!
A sombra de um corpo se desenha contra a luz no vo da
porta, atrs da cortina.
Os culos de Caralisa caem no cho com um rudo seco,
enquanto uma pistola calibre 45 brota em sua mo. A ponta da
bengala da Perversa escorrega ao longo do brao da esttua e
desprende uma bolsinha de veludo. A Perversa agita a bolsa, fa-
zendo soar os ossinhos de seus finados maridos. Glup: King Kong
engole saliva. O Prncipe Cigano se levanta, para entrar em ao.
Ganapn acaricia a cicatriz que cruza sua cara: no por medo: por
curiosidade. Um sorriso vingativo torce o lbio de Buscavida.
Quando a cortina se abre e Hachabrava surge em cena com
um passo de bal, vrios pulmes se esvaziam. A Perversa faz o
guarda-costas sentar-se, com uma leve presso em seu ombro.
Caralisa abaixa a pistola. A Perversa cacareja:
- Hacha, ests cada dia mais louca. Voc  uma vergonha
nacional, Hachinha.
O alvio  celebrado com bebida para todos. Desta vez,
surge combustvel tambm para Buscavida e Ganapn. As pedras
de gelo fazem rudo contra o fundo dos copos. Buseavida garga-
reja com usque eseocs. Ganapn empreende uma expedio ao
banheiro; fareja na despensa, mas no encontra nada para comer.
O armrio est fechado a chave, e a geladeira tem cadeado. No
banheiro, d uma olhada no bid, que lhe parece vulgar e sil-
vestre. Segundo Buscavida, foi benzido pelo arcebispo.
Hachabrava gira as cadeiras, erguendo as calas de veludo
negro com dois dedos. Canta "Est queimando... Ai, est quei-
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mando o rabo de palha...", sapateando como um cantor de fla-
meneo. Mostra a lngua para Caralisa. Inclina-se ante a imensa
boneca, patrona da casa, e em seguida solta um longo suspiro de
adorao ao beijar a mo enluvada da Perversa de Paris.
Buscavida olha para o teto com as bochechas infladas de
lcool e cara de mrtir Hachabrava se aproxima. Imita para ele o
canto dos passarinhos, a algazarra dos pssaros em pleno vo, os
piu-pius das fmeas chamando o macho, as vozes dos passari-
nhos que gritam seus nomes: chaj, chaj, do alto das nuvens ou
junto ao cho: quero quero quero; ou inieiando o vo; bem-te-vi,
bem-te-vi; mas  intil: Buscavida s tem ouvidos para sua
imensa, estrepitosa dor de dente. Hachabrava, comovido, busca
lugar na mesma cadeira que Buscavida.
- Vamos, deixa eu ver esse focinho - diz, e cutuca o
dente com um algodo.
Um violo se move atrs do balco; tudo que se v  o
brao, como um mastro, inclinando, deslocando-se para uma das
pontas do balco. Quando aparece o violo, que vira o mmo
avanando para a mesa, vem-se os dedos de King Kong abra-
ando a caixa, e ~ sapatos apontam por baixo. King Kong pulsa
as cordas e pigarreia para aclarar a garganta. Faz frio na barriga
de Ganapn, e o frio se espalha por seus braos e pernas.
Hachabrava fecha, com dois dedos, muito suavemente, os
lbios de Buscavida. Separa a cabea: admira o desenho perfeito
dessa boca de gal.
- Melhorou? - pergunta, atirando o algodo para um canto.
Buscavida comprova que a dor foge. Sente a coxa de Ha-
chabrava gmdada  sua: tenta se afastar e cai no cho. Hacha-
brava acaricia sua prprio cachecol gordo, cor da pele, que usa
enroscado no pescoo. Hi, hi, hi. "No  um caehecol", diz, e a
risada desliza, e os dedos sujos de nicotina escorregam ao longo
dessa espcie de cobra:
- Favor por favor, h uma coisa que voc no pode negar-
me, seu desalmado.
- F~st bem. Diga.
- J te explico. T com pressa?
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Buscavida se senta em outra cadeira. Soa um estampido, a
mesa treme, os copos saltam: o Prncipe Cigano olha a palma de
sua mo direita: no h nela nenhuma mosca morta, e na mesa
tampouco. Murmura um puta-que-pariu qualquer e torna a afun-
dar-se em seu silncio particular Caralisa terminou de revisar as
somas e agora teria que calcular as porcentagens, mas no se
lembra da regra de trs e no tem a quem perguntar. King Kong
gira ao redor da mesa, usando o violo como escudo. Sobe nos
joelhos do boxeador e dali, aproximando-se do ouvido da Per-
versa, faz vibrar as cordas e gtunhe amorosamente:
Muitas vezes eu morria,
pensando que no te veria.
Mas quem morria era a morte
cada vez que eu te via...
A Perversa bate suas asas emplumadas, aplaude louca-
mente. Depois, leva a mo  boca para conter um pequeno arroto.
Com um golpe de bengala, devolve King Kong ao cho e vira-Ihe
as costas.
A cabea de Ganapn, que recebe a luz por trs, est envolta
em uma aureola avermelhada. Os olhos da Perversa lanam-lhe
fascas. Esse  o olhar que faz as cobras danarem. Ela diz:
- O senhor anda aos tropeos, d para perceber Qual o seu
signo? O que lhe disseram os astros?
Ganapn gagueja: "Nada, nada". King Kong arde de ci-
mes. A Perversa pensa: "Tem alguma coisa.  mais feio que cus-
pir em Deus, mas tem seu mistrio. Que estranho.  pobre de
nascimento e de destino, mas tem seu mistrio. Deve ser a nica
coisa que tem. Mistrios e pena, e rien de rien".
Hachabrava conta a Buscavida: "Eu sou do bairro dos curti-
dores de couro, sabia?". Buscavida olha para o outro lado; asso-
bia. O homem tira um envelope do bolso de dentro do palet.
Estende a carta para Buscavida e ordena:
-  uma carta de amor. Abra e leia para mim. Deixo a voc
o prazer de abrir o envelope.
Apia o encosto da cadeira contra a parede, estende-se na
51
cadeira inclinada, com os dedos entrelaados na nuca e o xtase
brilhando no sorriso. Buscavida vacila. Hachabrava, fechando os
olhos, diz:
- No coneederia a voc o privilgio, se no tivesse per-
dido meus culos. Esta minha cabecinha de noiva...
Hachabrava eseuta o rasgar do papel. Explica:
- Ele enviou-me por um pombo-correio, no primeiro dia
que se fez ao mar...
Buscavida l: "Minha bonequinha...". Sempre gostou de
violar correspondncia ntima, e e.sta  uma violao concedida.
Caralisa ergue a orelha. King Kong, ainda mudo de pnico, le-
vanta a cabea: trama uma vingana. O boxeador pede uma
ma; ningum d bola. A Perversa, por cima de todos, dirige-se
a Ganapn, fala da vida e do tempo e o destino como se ela fosse
invulnervel s marcas da velhice e  foice da morte: do nada,
como num passe de mgica, brota um mao de baralho, e a Per-
versa embaralha as cartas no ar; deita-as amorosamente em cima
da mesa e em seguida cobre as carkas com uma das mos, en-
quanto, com a outra, vai tirando uma por uma, as cartas chiando
como folhas de ao. A Perversa acende um fsforo, apaga-o com
um sopro: um fio de fumaa dana fugazmente no ar. Onipotente,
dita a sentena a Ganapn:
- A sombra da culpa acompanha-o por todas as partes.
Vem de seus antepassados, os escravos. Pisa seus calcanhares,
deita-se em sua cama.
Ganapn olha para trs, para ver se h algum outro. No
entende de que se trata. Sente que seus joelhos afrouxam. As fi-
guras avanam sobre a mesa.
Enquanto isso, Buscavida l, com voz baixa, a carta do ma-
rinheiro para Hachabrava: "Por estar pensarulo em ti ante a p-
lida lua por pouco no despenco nos abismos amargos do mar
numa noite dessas. Quem me salvou foi o capito em pessoa que
Deus lhe pague embora ele seja um tremendo sanguessuga e
alm disso sujo no toma barrho nunca apesar de todo aquele
uniforrne branco engomado e os ares de grande senhor: Se o des-
tino no tivesse querido isso tu no estarias desfrutando no dia
52
de hoje a leitura dessas linhas e envolvida em lgrimas chorarias
a agonia daquelas horas que tanto te fazem gozar mimosa minha
porquinha teu amor  tudo para mim".
Hachabrava escuta com a cabea inclinada e paciente, ba-
lanando ma perna. Usa meias de seda vermelha.
- Eu sabia que algo horrvel ia acontecer com ele - diz
- e sabia tambm que ia se salvar.
Acaricia as bochechas, a pele esticada e brilhante como teta
de freira. Aponta para a deu.sa de gesso: "Ela fez o milagre" diz.
"Ela' o salvou. Qualquer coisa que voc precisar, pea a ela.
Como ningum a conhece, ela atende a tudo. Tem pouca clien-
tela, e atende muito bem."
Buscavida segura a carta com as duas mos, e uma voz
dentro dele diz: "Voc  uma besta", e outra voz dentro dele diz:
"Vamos, continue. Continue, que vai ser bom. Alguma coisa im-
portante vai aparecer pela frente". Cada vez que Caralisa se apro-
xima, Buscavida dobra o papel e se cala. Em seguida continua
lendo, murmurando: "Por isso te peo que faas esse sacrifzcio
para ver se finalmente podemos ter nosso prprio ninho e nunca
rnais andar como borboleta sem rumo como se o nosso amor
, fosse vcio ou vergonha social perdoando a expresso. Te digo
que no faas a crueldade de condenar-me ao desamparo e sem
egosrno lembre-se de mim como eu me lembro de ti levo-te em
rneu corao o tempo t,odo doce ferida de amor que me faz san-
grar e anxe.s de andar com outra sou capaz de cortar o meu ins-
trumento vida minha".
- Bem a ele tem uma tatuagem - sussurra Hachabrava
no ouvido de Buscavida, que concorda, compreensivo, e conti-
nua: "Bem sabes que j no posso suportar esta existncia que
levo a bordo trabalho como um animal nem brio nem adorrne-
cido prefiro morrer se preso dessa escravido hei de seguir vi-
vendo por isso o que te peo no  pedido  exigncia tu fazes o
que te digo e se,faltar coragem pensa em mim que a vida inteira
te dei corno eu penso em ti lambendo-me como bem sabes faz-lo
rnalarLdrinha e tuas mordidinhas tambm se pudera expressar-te
tudo o que sinto apesar do mar que nos separa".
53
- Eu adoro ele, adoro - diz Hachabrava. A ponta da ln-
gua, muito vermelha, surge entre os lbios e dana.
Atnito, Buscavida l e rel, para si, os pargrafos seguin-
tes. A intuio no falhara: ali esto, com todos os detalhes, as
instrues para um assalto feil e rendoso. Grana adocicada. Uma
fortuna ao alcance da mo, pedindo para ser roubada. Boquia-
berto. Buscavida esfrega as plpebras.
- E? - pergunta Hachabrava. - Que mais? - Bajula-
dor, passa pelo pescoo de Buscavida a palma sempre mida de
sua mo:
- No fique assim, seu ciumento, o que  que voc quer?
Tenho cravada no peito essa flecha, meu querido.
Buscavida, imvel, alheio a tudo, percorre a carta at o
final, vrias vezes; num instante decora o que est escrito. Esse
assalto  para ele. Esse dinheiro  para ele. Caralisa aproxima a
cadeira e estica a tromba. Buscavida guarda a carta no bolso.
- No banque o mauzinho - insiste Hachabrava. - Voc
tem um eheiro to bom, se soubesse... Voc tem cheiro de jardim
molhado. Vamos, continua.
Buscavida recita: "Te digo que no banques a surda se isso
 escandaloso mais vergonhoso  no saber amar ".
- Que mais? Que mais?
- Depois, vem a assinatura.
Enquanto isso, Ganapn, que quer comer um bom prato de
talharim com molho de tomate, recebe conselhos e magia.
- Escuta - diz a Perversa. - Quem embaralha as cartas 
o diabo.
Um pastel. Dois. Dez. Isso  o que Ganapn queria.
- Escuta. Isso de tocar o fundo  mentira. Parece que
tocou-se o fundo mas sempre se pode chegar mais fundo ainda.
Escuta.
Um churrasco sangrento com batatas fritas. Isso  o que ele
queria.
A Perversa se entemece:
- Le Pauvre Ganapn. Voc caiu do cu e nunca deixou de
54
sentir a dor da porrada. Vai fracassar sempre, por ser to bon-
zinho. Vai vivendo e vai se desgastando.
Ganapn olha para baixo, as faixas negras estendidas no
cho: no reconhece sua prpria sombra. Com o pretexto de le-
vantar um cigarro do cho, King Kong d-lhe um piso e insulta-
o entre os dentes: "Amostra grtis de homem", diz, e acrescenta:
"Desclassificado", enquanto se esconde rapidamente debaixo da
mesa e escapa do chute.
- King Kong, ao balco!
A Perversa estende um brao, a luva que mostra chega aos
seus cotovelos:
- Uma dose de menta indiana - ordena. - Duas doses de
Icite. No. Ponha trs,  melhor, mais nutritivo. Gotas de Coin-
treau. C'est assez, King Kong. Agora, gelo. Bem frapp e com
espuma. Assim, assim. E uma ptala de cravo.
Caralisa concluiu seus clculos. Junta os papis, tira os cu-
los, fica em p.
- Tudo em ordem? - pergunta a Perversa.
- Falta Lulu. No encontro nem um tosto de Lulu.
A Perversa pigarreia. Banca a distrada.
- Disse que falta Lulu - insiste Caralisa, prudente, com
as mos nos bolsos.
O coquetel est pronto e a Perversa ergue os dedos: oferece-
o a Ganapn. "Isto  para voc. Rogo-Ihe que aceite."
King Kong abandona o copo sobre um pratinho, na frente
de Ganapn, e gnmhe, a uma distncia ptudente: "Aptrida", e
depois: "Chiclete de asfalto. Negro malandro, desgraado".
Enquanto isso, Hachabrava no se conforma e Buscavida
no tem outra sada a no ser mostrar-lhe a carta. Exibe-a ao
abrigo da lapela do palet:
- Est vendo? No diz mais nada. Aqui est a assinatura.
Est vendo? Diz que  para voc queimar a carta. Aqui diz que,
depois de ler, voc deve queim-la.
Caralisa apia as duas mos na mesa e se inclina sobre a
Perversa.
- A senhora me deve uma coisa - diz. Acho.
55
Soa o estrondo da bengala contra o assoalho:
- E a Pitanga, ento? Que Lulu, que nada! Je m'en fous!
Ouviu bem? Reclamei alguma coisa pela Pitanga?
Esse nome entra como um tiro no peito de Ganapn. O copo
recm-servido quebra-se em mil pedaos contra o cho. G3napn
se levanta, abobado, com a boca aberta. Esfrega os olhos. Pi-
tanga. A Pitanga. Buscavida apaga com um sopro o fsforo que
tinha acendido para queimar a earta de Hachabrava.
A Perversa, surda, est dizendo:
- Eu perdo. Eu sei esquecer Mas h outros que...
Caralisa, de costas para Ganapn, bate a piteira de marfim
contra a beirada do cinzeiro.
- Quantas meninas eu trouxe para este botequim? Quantos
anos faz que nos conhecemos? Pela Pitanga, por essa...
Ento o touro, ferido a traio, urra e investe: Ganapn
ergue Caralisa pela gola, vira-o de um golpe, a Browning 45 dis-
para para o ar e Ganapn se afirma com toda a fora e Caralisa
solta-se do cho e passa voando sobre o balco e treme o planeta,
o cho se afunda, voam as garrafas; King Kong d um salto,
prende-se ao pescoo de Ganapn, morde-Ihe ferozmente o nariz;
Ganapn arranca-o e vira a mesa e com uma cabeada asmaga o
Prncipe Cigano contra a parede, a parede range, a Perversa dis-
tribui bengaladas sem olhar em quem; Ganapn se agacha bem na
hora e o murro do Prncipe transforma em carne moda o rosto de
Hachabrava, que cai desmaiado entre as pernas da deusa de
gesso; a boneca treme e desmorona com um estrpito de guerra
mundial; uma chuva de reboco e cristais se desprende do teto e a
Perversa grita e gira a bengala e arrebenta um espelho; Ganapn
apanha o violo e quebra-o ean dois contra o boxeador, que fica
girando e piscando enquanto Buscavida agarra um brao de Ga-
napn e grita "Vamos embora, malueo, vamos que os tiras che-
gam num minuto", e finalmente agarra sua maleta e sai em dispa-
rada, seguido por Ganapn.
Os dois amigos correm at perder o flego. Sobem num
nibus que est passando, saltam do nibus em movimento
quando percebem que no sobrou dinheiro nem para a passagem.
56
- Estamos salvos - diz Buscavida, e conta a Ganapn o
que dizia a carta, conta a histria inteira.
Esto sentados no portal de um cortio e Ganapn mastiga
tristeza, na falta de outra coisa. Onde poder eneontrar algo que
acabe com sua mgoa e sirva de consolo, levando-o longe da
terra mas no to longe, porque muito longe da terra o que existe
 a morte? Pergunta isso. Volta e meia pergunta isso.
- Alegria, Ganapn. Nesse assalto somos jogo certo e
ganho. Ningum nos impede de conseguir isso, Ganapn.
A gaita, poderia ser. Se no estivesse quebrada. Tocar gaita
e que a tristeza suba e se perea no ar, a fumacinha da tristeza:
com a gaita, quem faz o que eu fao? Eu pergunto e ela me res-
ponde; no minto para ela nem ela mente para mim.
- Mas , cara, o que  que h? - pergunta Buscavida.
Eu no falo, eu no choro, pensa Ganapn; mas eu me
canso. J no tenho mais vontade de continuar. Para mim, todas
as ruas so ladeiras.
- Sim, j sei o que est acontecendo com voc - diz, com
a cabea baixa, Buscavida. - Eu tambm escutei alguma coisa, o
que disse aquele Caralisa. Mas escuta qui, irmo: voc sabe
quantas mulheres h no mundo? Fiquei sabendo outro dia. Dois
bilhes.
Ganapn crava-lhe um olhar que entra pelos olhos de Bus-
cavida e sai pela nuca. Buscavida se cala.
Logo depois, insiste:
- Mas Ganapn - argumenta - se neste pas  possvel
afanar a ferradura de um cavalo correndo...
Ganapn no se deixa convencer:
- Eu, nesse assunto, no me meto.
- Tem que ser feito a dois, irmo.
- Tem que ser, mas no ser.
- Est com medo? No. O que  isso?
Ganapn assobia. Um passarinho avana dando pulinhos e
pousa em seu sapato destrambelhado.
- Algum dinheiro, para esse trabalhinho, eu consigo - diz
Buscavida. - Eu me encarreg disso. Tenho ainda umas coisi-
57
nhas que posso transformar em grana. Vale a pena, quando a es-
pcrana  grande. Est vendo? Como Cristvo Colombo, aqui
estou: disposto a queimar as naves.
Ganapn acaricia o nariz machucado. Buscavida passa o
brao por seus ombros. Explica a Ganapn seu plano de opera-
es. Riscos, no e.xistem. O tesouro est solto, pendurado numa
nuvem, esperando.
- Voc no sabe que o capito morre eom o barco, que 
obrigado? Voc  meu amigo ou amigo da ona? Deixou cair no
cho a nossa bandeira?
11
Falar, contar. No para desenterrar as pessoas e o tempo que
passou. Transmitir as palavras que me perseguem: dizer: eu me
lembro daquele tempo porque eu no estava sozinho. Dizer: eu
me lembro de tudo.
Eu estava trabalhando no jornal. Era de noite, tarde, e era
inverno e fazia frio. A lua anunciava chuva. Estvamos atrasados
duas horas com o jornal; ou seja: um enterro com honras nacio-
nais. Os que tinham ficado no jomal eram poucos. Estvamos
massacrando as mquinas de escrever e tomando caf, litros de
caf forte, enquanto fazamos a primeira pgina e terminvamos a
ltima. Tinham acontecido muitas coisas. Se as publicssemos,
fechavam o jomal. Fomos fechados no dia seguinte.
Aquele fora um dia de passeata. Lembra, Clara? Voc es-
tava nela. Eu no gostava de ver uma coisa dessas da janela, mas
l estava eu, na janela do jomal, e vi voc. Lembra? As pessoas
subiam nos tanques, avanavam. Eram mars humanas gritando e
avanando. Houve tiros, jorros de gua, gases, e vocs avana-
vam de braos dados. Eram muitos e tinham muita raiva. naquela
tarde tinham matado um menino de dezesseis anos. Uma bala na
nuca. Calibre 38. Ele estava escrevendo numa parede. Escreveu a
palavra "popular" e foi tudo. Depois, eles esfregaram e rasparam
a parede. E explodiu uma manifestao. Eles rodearam vocs na
58
praa e a ponta de baionetas obrigaram todos a se ajoelhar com as
mos na nuca e as cabeas no cho. Eu no vi, Clara,.mas soube.
Tinham acontecido muitas coisas. A greve geral tinha fra-
cassado de vez, e comearam as demisses e vinganas. No pal-
cio do govemo tinha ocorrido um corte de luz, ficou tudo s escu-
ras por culpa de um morcego. Ns conseguimos as provas de
vrias negociatas dos imaculados pais da ptria e decidimos cor-
rer todos os riscos e public-las. Os culpados tinham sido e conti-
nuaram sendo descobertos pelas impresses digitais, como nas
novelas policiais de antes. Culpados? Bem; eram as leis do sis-
tema, e sabamos disso: negcios livres, gente presa.
E aconteceram outras coisas. Lembro-me como se fosse
agora. O suicdio de um homem que se deixou cair de um telhado
quando, l de baixo, comearam a gritar: covarde. E lembro de
um duelo gacho, de faca. Dois rapazes, por amor, tinham amar-
rado os tomozelos com uma corda, e dado um metro de distncia.
0 que ganhou, ganhou por uma hora: depois, morreu. A polcia
distribuiu as fotos. Tinham cara de meninos.
Aquela foi minha ltima noite de jomal. Foi a ltima vez
que o jornal apareceu. Poderia recit-lo de memria. Lembro-me
at do horscopo. Eu adorava o jomal. Voc sabe como fazamos
aquele jomal, sem receber nada ou recebendo de quando em
quando, aos pingos, e sabe que dvamos tudo, at o fim, pelo
puro prazer de poder dizer aquilo em que se acredita e diz-lo
junto com outros que tambm acreditam. Ns ramos muito jo-
vens. O pas era diferente. Tres anos se passaram, Clara. Tanto
tempo em menos de trs anos? O pas ainda no estava envelhe-
cido a portadas.
Terminavam as noites de trabalho e afastvamos as escriva-
ninhas e jogvamos futebol com uma bola de papel. Depois
amos beber e ver o dia amanhecer na praia. Podia-se ser feliz a
troco de nada.
Mas naquela noite, nesta de que falo, estvamos atrasados e
l de baixo, da grfica, choviam palavres e ameaas.
Estvamos assim. Estvamos assim quando me disseram:
- Mariano, esto te procurando.
59
Tinham esmagado a greve e Fierro estava escondido. Ele
queria me ver. No dia seguinte, de manh. Mandava dizer que eu
sabia como. Tinha o cdigo, que ainda servia. Ele precisava de
mim para alguma cosa, e eu no ia falhar. Ele era... sabe? Se
algu~m dissesse que levava uma vida de sacrifcio e riscos, ele
teria um ataque de riso. Era um homem de falar pouco, e sobre si
mesmo no dizia nada. Eu sabia que ele tinha tido uma infncia
muito fodida, porque algum tinha me contado, e nada mais.
Quando o eonheci, ele estudava Direito e alm disso trabalhava
como uma mula. Era fcil perceber que ele tinha descoberlo a
frmula para no dormir. Lia tudo que caa em suas mos, e gos-
tava de tornar vinho e escutar histrias e opinies. Era uma es-
ponja de absorver palavras, sempre calado, sempre curioso.
Um belo dia ele mesmo descobriu quem era. Soube de re-
pente, como numa revelao, para que tinha aprendido tudo que
sabia e para quem ia entregar tudo o que fosse capaz de dar no
tempo em que pudesse viver. De repente encheu-se de asco e
pressa. Nesse dia foi despedido, depois de ter apagado um cigarro
na cabea do gerente, e nessa noite decidiu parar de estudar por-
que descobriu que o Direito no existia. O Direito era o direito de
muitos homens se transformarem em pur debaixo dos sapatos de
poucos. Mandou tudo  merda e dedicou-se a organizar a raiva,
como dizia, dormindo onde fosse e comendo o que houvesse. O
que acontecesse eom ele no importava. Tinha aeeito seu destino
quando soube qual era esse destino, ou tinha escolhido esse des-
tino, no sei, mas sem fazer nenhum drama com isso, como se a
pobreza e o perigo de morrer fossem uma festa. Tinha-se dado.
Ele sabia que no h alegria mais alta.
Recebi o recado e fui. Na manh seguinte, chovia. Eu tinha
que esperar num ponto de nibus. A chuva estava artebentando
contra o teto de lata do abrigo e eu estava nervoso. O earro no
chegava. Havia uma cara que, como eu, no tomava nenhum dos
nibus que passavam. Veio uma rdio-patrulha, devagarzinho,
passou encostada em mim, e eu me sentia espiado por todos os
lados. A chuva caindo, baldes de chuva, e eu empapado e o carro
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no vinha. Pensei em ir embora, mas fiquei: por eausa da chuva;
e, j que eu estava...
Finalmente o cara esquisito foi embora. Isso me tranqitili-
zou bastante. Quando o carro chegou, um Fiat azul, eu estava
sozinho e j no me importava de continuar esperando. Vi que
desciam o vidro dajanela e surgia uma cara:
- Estou procurando a rua que vai dax~ no mar - disse.
Era a frase combinada. Respondi:
- Eu tambm vou para l.
Sentei no banco da frente, sem olhar para os lados. Segui-
mos reto, algumas quadras. Via-se, enlameada a rua deserta. Meu
companheiro estendeu-me um par de culos escuros. Coloquei-
os, e no vi nada mais: os vidros estavam forrados de algodo.
Demos umas voltas. Foi uma longa viagem.
No tenho a menor idia de por onde andamos. Acostumei-
me aos culos. Distraa-me escutando os rudos da chuva e da
ventania. No me sentia mais nervoso. O vento obrigava a avan-
ar devagar e a fazer as curvas com cuidado. Quando desci do
carro, tive a sensao de que me afundava na lama at as canelas.
0 companheiro mc levava pelo brao, eu cego, ele dizendo: "Ca-
minhe naturalmcnte". Andamos mais ou menos uma quadra, pela
calada, e ento ele me fez entrar Subimos pelo elevadr. Oito ou
nove andares, calculei.
l~.cconheci a voz de Fierro. O guia de cego perguntou-lhe se
deveria ('icar, e Fierro disse que no, que podia ir embora. Tirou
meus culos e vi Fierro sorrindo, de orelha a orelha.
- Mariano - disse.
Voc o conheceu. Aquele sorriso franco, os dentes tortos...
Tinha uma cara que parecia feita de barro, brutal, mal-acabada,. as
sobrancelhas quase unidas, o talho no queixo, os olhos grandes,
um olhar de gua limpa: era feio de verdade, mas vendo-o olhar
percebia-se que era um cara que tinha passado por muitas coisas
e nenhurria delas tinha sido capaz de quebr-lo. Por que a gente
vai perdendo essa capacidade, no , Clara? Quero dizer: essa
capacidade de assombro e de exigir tudo ou nada, como da pri-
meira vez. A gente acaba sendo amansada. Mas aquele cara
61
olhava e arrancava com o olhar a dvida e o medo e fazia isso
como se fosse sem querer.
Fez com que eu tomasse um copo de vinho. O vinho me fez
bem. Eu no sabia para que tinha mandado me chamar. At hoje
no sei.
Todas as persianas estavam abaixadas, mas na penumbra
brilhava a brancura dos lenis. Havia lenis estendidos por
todos os lados. Era um apartamento muito pequeno e todo atra-
vcssado por varais com lenis pendurados.
- O que : est lavando roupa para fora, miservel? -
perguntei.
12
O delator estava atordoado pelos golpes e pelas vozes:
Onde voc vai se en iar? Poderemos encontr-lo, sempre.
Sempre. Sabemos tudo. Voc estava achando que ia se esconder?
No h nenhum lugar. Voc nunca vai conseguir escapar de ns.
No h nenhuma cova onde ns no possamos chegar. Nenhuma
cova em nenhum lugar do mundo. Quer dizer que voc queria
colaborar. E ns achvamos que voc era uma mosca. Um in-
seto. Agora, j no somos mais amigos. Voc j no gosta mais de
ns. Amigo desta merda, eu? Vamos arrebent-lo. Estourar seu
rabo. Vamos, vamos. Queremos ver se sai sangue.  a sua pri-
meira noite, desgraado? Olhem, toquem. Est bom. Chora, est
chorando. Est chorando, anjinho? No merece o que fazemos
por voc. Um lixo. Voc, lixo, estou falando com voc. Olhe para
mim quando falo com voc. Diga: senhor. Ouviu bem? Senhor.
Vamos ver: como  que se diz senhor? Ah, assim. Assim, sim.
Est ehorando. O desgraado est chorando. O cago. Escutem
como chora. Quer dizer que voc ia fazer uma revoluo. E agora
no se anima a dizer nada. Merda. Pergunte o que voc . Merda.
No batam mais, no gastem suas mos. Ele vai nos levar onde
est seu amiguinho. No banque o bobo. Toma. Toma caf. No 
verdade? Voc vai nos levar, no ? Voc  dos nossos. Sim, sim,
62
vai nos levar Toma, no chora. No, amanh no. Agora. Mas
descanse um pouco. Fique tranqilo. J acabou, j passou. Por
que voc est chorando? Somos amigos, como antes, e voc vai
ser bonzinho e vai nos ajudar. Filho da puta.
O delator delatou. E depois pensava: Quem pode me obri-
gar a artuinar a minha vida? No sirvo para mrtir das catacum-
bas. E com isso, o qu? No gosto de estar preso. No gosto de
estar morto. Quero comer todos os dias. H algum erro nisso? Eu
tenho filhos. Se eu no aliment-los, quem vai fazer isso por
mim? O po no cresce nas caladas. O leite no sai das tomei-
ras. Eu estive preso. Me sacudiram e me arrebentaram inteiro e
eu no disse quase nada. E algum moveu um dedo por mim?
Algum fez alguma coisa por mim? Eu no era importante, no
? Revolucionrios, esses? Porque foram abandonados pela mu-
lher ou o pai batia neles ou porque queriam ter um carro e no
podiam? Ressentidos, isso sim. Covardes, imitando os heris
como macacos. Repetindo frases como papagaios. Sabem muito,
~no ? Sabem tudo, no ? Muito livrinho. Tm a receita da feli-
cidade pblica. Acham que so os melhores. E se so os melho-
res, por que no ganham? Por que perdem sempre? Vo salvar a
humanidade, e mentem at quando dizem bom-dia. Desconfia-
vam de mim? No ligavam para mim? Sanes, contra mim? Que
se fodam. O povo se caga de rir. Alm disso, estou fazendo um
favor a ele. Estou fazendo um favor a esse cara. Livre,  um
cadver de uma hora para outra. Entrego-o e salvo sua vida. No
vo mat-lo. Vo agarr-lo vivo. O oficial me deu sua palavra.
Porque eu disse que se no for assim, eu no digo nada. E ele
jurou para mim.
O delator: isca, cantador, dedo duro, boi sem chifre. O de-
lator: o que quer gritar e vornita, quer chorar e se mija, quer
dorrnir e morre. Quer querer e no tem corn qu.
13
"O Vice-Rei Toledo queixava-se da pouca paz e muita in-
63
quietude que em quase todas as partes e lugares tinha encontrado
quando chegou ao pas: desa,ssossegada a cidade de La Paz com as
alteraes provocadas por Gmez de Tottoya, Jimnez e Osorio;
na provncia de V lcabamba, rebelado o inca Cusi Titu Yupanqui;
o caminho de Cuzco completamente inseguro eom os roubos e
assaltos que nele realizavam os ndios; intraqilas as provncias
de Tucumn e Santa Cruz; em Los Charcas, os chiriquanes saam
para seus assaltos quase que a cada lua; e o reino do Chile, final-
mente, to apettado que a Audincia requeria socorro porque os
ndios iam cercar os espanhis em suas prprias cidades.
"A justia real poueos a respeitavam ou temiam: o rico acre-
ditava que a ele no bastava, mas no queria d-1a ao pobre; nem
os juzes sentiam certeza suficiente para execut-la, temerosos de
levantar uns povos acostumados  m liberdade e ao desenfreio.
"E era cabalmente nessa ordem, pelo que os fatos daquelas
partes vinham demonstrando, onde a todas as luzes se necessi-
tava mais rigor pard reprimr males e castigat inquietos, amotina-
dores, homens fascnoras e de ms palavras, e principalmente aos
que tentaram a perdio eomum, no grande servio de Deus e Sua
f e da l~aldade a Vossa Majestade devida. Digo-o, conclua To-
ledo, porque cada dia se trata de rebelies neste reino e em cada
lugar e praas se ousa falar disso e alguns motins se provam e
comprovam e no vi ningum castigado por isso, onde os pensa-
mentos deveriam ser gravemente punidos.
"Para fim desses males, Dom Frei Pedro de la Pena, Bispo
de Quito, diza que por certo convinha ao servio de Deus Nosso
Senhor que em cada cidade onde haja Real Audincia nestes rei-
nos haja Inquis~io mas que ordinria, que por em seus lugares
a.s coisas da f, causar medo e ser freio aos tuins e aos que causam
inquietude grande com a liberdade de sua lngua e de seu viver."
14
Falvamos no escuro, e Fierro eansou de bancar o fantasma.
Lcvantamos as persianas. L fora, continuava a chuva e o vento
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batendo forte. E, ento, eu os vi. Senti o corao na garganta.
Olhei para baixo e os vi: vinham muito excitados, chocando-se
entre si, saltando dos caminhes com eapacetes e mscaras contra
gases e metralhadoras e todo aquele arsenal. Vistos l de cima,
pareciam marcianos invadindo a terra. Senti que me encolhia; que
as mangas sobravam; que ficava pequeno. E se tivessem vindo
em meus calcanhares? E se tivessem me usado de isca? E se ti-
vessem vindo atrs de mim sem que eu pereebesse? Tive, naque-
les segundos, esse pnico que me fez suar em bicas. Fora sem
querer, mas de que servia esse consolo? E a Fierro, em que esse
consolo poderia ajudar?
Ele gritou que eu deveria salvar-me. Eu queria ficar. Ele me
empurrou, me xingou, e eu queria ficar, Clara, eu queria. Voc
acredita? Eu queria ficar. Ele me disse que iam ca-lo vivo, e
que ele ia se entregar, que resistir era intil, que eu deveria ir
embora, e durante muito tempo eu me perguntei e me acusei e
reconstru tudo em todos os detalhes, porque sei perfeitamente
que a memria faz favores  conscincia para alivi-la, e agora
tenho certeza, Clara, que quis ficar at o final. Fierro jogou em
meus braos um cofrinho, desses de pirata, um cofrinho de ma-
deira, e disse que era preciso salvar aquilo de qualquer maneira.
Foge com isso, gritou. Esses documentos no podem ser apanha-
dos, foge com isso, caralho, gritava, e eu parado feito um bobo.
Brigamos, engalfinhados os dois entre aqueles lenis descomu-
nais, e ele acertou-me uma porrada e me atirou pela porta aberta.
Agora penso que estvamos rindo de bobagens e dizendo
uma ou outra frase engraada, despreocupados, debochados, sem
que fosse preciso mencionar a alegria de voltar a encontrar-nos
nem nada. Porque  o estilo, no ? O estilo nacional. Isso que
chamamos sobriedade. Eu sei que basta saber yue existe algum
que acredita em voc para salvar-se e que as coisas importantes
morrem quando se fala nelas e que  preciso desconfiar das pala-
vras, gastas pelo uso. Tudo isso eu sei. Que seria frescura emo-
cionar-se e deixar isso claro. Eu sei. So coisas que repito
sempre. Mas por culpa do estilo nacional, minha ltima lem-
brana de meu melhor amigo  um v pra puta que pariu.
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Desci um andar voando pela escada e me atirei com alma e
vida pela primeira porta que encontrei. Estava sem chave. Tran-
quei a porta e fiquei de costas, cado de costas contra a porta, e
tremia at a mcdula. Tinha me cagado de medo e de vergonha.
Escutei-os, nesse momento, subindo pelas escadas. Escutei
o barulho das botas e os palavres que trocavam entre si, para se
animarem. Esperei as balas, os tiros, mas no senti nada alm dos
rudos misturados e o cheiro amargo dos gases que metiam pelas
frestas e os gritos de Fierro: me entrego, no atirem, e golpes e
rudos de corpos se chocando e caindo e a gritaria. Todo o sangue
tinha me subido  cabea. Mordia meus dedos, os ns dos dedos
estavam sangrando. E me repetia: agora est tudo perdido por tua
culpa, filho da puta. Mas sabia que sair era intil. Esperei. Scu-
los. Meu medo tinha um cheiro, e eu o sentia.
Tempos depois soube que Fierro tinha surgido na boca da
escadaria, entre a neblina asquerosa dos gases, com os braos
levantados. Quando foi rodeado pelos soldados, arrancou a espo-
leta da granada que trazia escondida na mo fechada, e atirou-a
aos ps e voc pode imagin-lo fechando os dentes e esperando a
exploso. Mas a granada bateu no cho como uma bola de gude e
ele viu quando ela saltou, ding, dong, e suponho que teve tempo,
em menos de um segundo, atordoado, para pensar que faltou leo
no detonador e que a espoleta no tinha sido atingida, e tempo
para xingar a fbrica da granada e o azar, antes que lhe dessem a
primeira porrada na nuca.
Ento, vi o garoto. No apartamento onde eu tinha me me-
tido havia um garoto e eu no o tinha visto antes. No tinha visto
nada. O garoto estava sozinho, parado num canto. Olhava para
mim, durinho de espanto, de longe. No gritou. No disse nada.
Mas a dona da easa no ia demorar para voltar E eu tinha de cair
fora. Custei a levantar. 'Tinha fieado l, det~rubado, tonto, suando
e sentindo-me um lixo com o cofrinho de madeira nos joelhos.
Abri o cofre. Estava vazio.
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"Aos Inquisidores, zeladores da honra de Deus, devemos a
excelncia maior que se aeha em toda a monarquia e reinos da
cristandade, pois no se conhece nenhum mais limpo que eles de
heresias, judasmos, seitas e outras ervas daninhas que semeia a
ignorncia e arranca e queima este Tribunal, sendo sua jurisdio
desde Pasto, cidade junto ao equincio, dois graus acima do Tr-
pico de Cncer, at Buenos Aires e Paraguai, at quarenta graus e
mais em direo ao Sul, o que significa que corre sua jurisdio
mais de mil lguas Norte-Sul de distncia, e mais de cem Este-
Oeste, na faixa mais estreita, e trezentas na mais ampla. Tudo isso
ara e cultiva a vigilncia desse Santo Tribunal e o incansvel cui-
dado de seus Inquisidores, anjos velozes que so enviados para
remdio das gentes que pretendem dilacerar e separar os sectrios
e os sedutores."
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Fierto quis mover-se, torceu o corpo. E isto aqui, o que ?
Onde estou? As algemas machucavam seus pulsos e os fios de
arame faziam sangrar seus tomozelos, mas no via nada. Sentia
dor por causa das porradas, golpes de coronha de fuzil e chutes.
Sentia a nuca arrebentada, como se tivesse levado um golpe de
machado. Curvou as costas e as vrtebras rangeram; flexionou as
pernas e os msculos soltaram-se e queimaram. Na cabea doam
tambm as perguntas. Por que no me levaram para uma cadeia
ou um quartel? Estava lcido, com uma lucidez desesperada, e as
perguntas abriam caminho como facas em brasa: Que fao aqui?
O que vo fazer comigo? A cabea fervia e o corpo tremia de frio.
Estou em um quarto? Em uma casa? Num local secreto? O que 
isto onde estou? Por que no me levaram com os outros? No
podia se tocar, no podia se mover. No podia se ver. Arrastou-se
pelo cho; bateu em uma parede. O que  isto onde estou? Exis-
tiam paredes, tetos, cho. E o fio em brasa das perguntas. ~o me
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deixar morrer de fome e de sede? A transpirao de gelo. Que
horas so? Quando viro? Quis que viessem de uma vez. A incer-
teza era por do que qualquer eoisa. E se me deixam abandonado,
para que eu mot~ta? Uma lixa na garganta. Quanto tempo  poss-
vel agentar sem gua? Devo recordar quanto tempo. Eu sabia.
Preparar-me. No. No vo me deixar morrer. Uma dolorosa nu-
sea acre subiu do fgado at os dentes: ao me matar. Vo meter
um tiro na minha nuca. Vo deixar que eu morra ou vo me
matar? O que pre iro? Escolha. Estou assustado? Assustado, eu?
Cago de rir. Susto, no; espanto. Espanto com qu? Na superfcie
lisa da memria surgia a ponta de algo que lutava para sair Tenho
vinte e sete anos recm-feitos. Acabou minha corda? No~ foi
pouca a vida para tanta morte que me espera? Medo, no; raiva. E
espanto. Tenho vinte e sete anos. Tenho cinco an~. Ou seis?
Estou na beira do caminho, com minha amiga. Estamos os dois
escondidos no mato, entre as flores amarelas dos ips e as f(ores
roxas dos cardos espinhentos. Vemos passar a junta de cavalos.
Sem adeus vemos os eavalos passarem e, atrs, aos trambolhes,
o caixo de pinho. Ali viaja a av, no caixo, e atrs vem o cor-
tejo de vinte e sete caminhantes, a pequena e negra procisso dos
parentes e amig~ e vizinhos.
- Esto todos.
- Cala a boca.
- Voc no sabe?
- O qu?
- Se voc conta vinte e sete e diz o nunero, depois voc
morre aos vinte e sete.
O susto nos espanta e faz fugir. Voltamos caminhando de
costas, ela e eu. Nos arranhamos nos espinhos, tropeamos nos
buracos, caminhando para trs, correndo. Mas no viramos a cara
um para o outro. Olhamos os ps e estamos com os dedos das
mos tranados em ns infinitos.
Fierro no escutava motores. Vozes distantes de grilos e rs.
 um campo? Haver outros quartos? Haver mais algum aqui?
Fierro gritou. Uma longa saraivada de palavres a todo pulmo.
Descobriu a potncia do grito. Esperou, surpreendido pela fora
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Je sua prpria voz. Gritou novamente. Gritar puta que o pariu
fazia bem. Passaram os minutos. Ou as horas? A potncia do si-
lncio. O que ser isto? As mos pegaram em alguma coisa, sacu-
diram-se, o impulso cego de arrancar o capuz da cara, mas o corte
do fio das algemas fez com que ele gemesse de dor entre os den-
tes, e o devolveu  realidade. Estava extenuado. Mover-se, im-
possvel. Tinha que pensar. No. Puseram o capuz em minha cara
para que no os reconhecesse: no vo me matar. No. Matar-me,
no. Poderiam ter dado um tiro em mim, quando me trouxeram.
No me trouxeram para isso. Ou trouxeram? No depende de
mim; eles decidem. Estou sozinho. Estou num poo fundo e des-
cubro o pnico de morter e a potncia do grito. Eu sozinho. Eu no
fundo do poo fundo. Eu e o medo. O medo de ficar abandonado.
Gritei; grito. Com outra voz. Quantos anos tinha? Dentro do poo
faz muito calor. No se enxerga nada. Isto deve ficar perto do
infemo. Por meu corpo caminham bichos. No comeo no posso
gritar; sutgiu um n na minha garganta. Sinto que o couro escor-
regadio e frio de uma cobra roa meu corpo. Ou o rabo do diabo,
que  a mesma coisa. Quero gritar e no posso. Quero subir e
caio. H degraus nas paredes do poo. Descubro-os tateando.
Mas a terra transpira e escorrego e volto para o fundo. Os ps
descalos se afundam no cho lodoso. No posso usar uma das
pernas; deve ter quebrado quando ca. Tenho medo de usar as
mos. Eu, sozinho, no fundo do poo sem ar nem luz. Finalmente
consigo gritar, e grito, mas a av no vem, nem ningum. Quan-
tos anos eu tinha? Foi no amanhecer. Antes de amanhecer O cu
estava escuro. Como agora. E agora, que horas so? Deve estar
caindo a tarde. Vo ine dar a maior das sutras. Isso.  isso o que
vo fazer. Vo me arrebentar a portadas. Para isso estou aqui. No
cepo, esperando. Vo chegar e me arrebentar. Ouo: afinam seus
instrumentos. No. No ouo nada. Estou rodeado de nada e de
frio. A que horas viro? Sete cavaleiros. Vm do horizonte, bri-
lhantes, desalmados. No deve faltar muito para a sada do sol.
Desperta-me o rudo dos cascos dQs cavalos. Vejo as tochas avan-
ando. Vejo crescerem os cavalos e as chamas na negrura, entre
rajadas de nvoa e de p. Vm crozando o campo vizinho, os
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cavalos, a todo galope, e rodeiam a casa. O cavalo do chefe fica
parado nas patas traseiras. Um golpe de cano de espingarda
contra a cabea de meu pai. Meu irmo maior roda com um em-
purro. Eu fujo. Me perseguem; entro no monte. O pasto est
empapado. Caio. Me perco. No monte, escondido na copa de uma
rvore, vejo as chamas se erguerem contra o cu espesso de cer-
rao, e vejo minha easa eair.
Fierro sentia que a bexiga ia arrebentar. Mijar-se inteiro.
Voc vai se mijar? O orgulho quebra, se machuca para sempre; 
parte do tratamento. Converter-me em uma eoisa. Uma pobre
coisa mijada e trmula nunca mas arrisca. Vou agentar. Me es-
queo. No vou me mijar. No vou. Decido que no. Querem
arrebentar minha conscincia. Para isso me trouxeram aqui. Aqui
me tm, atado como lingia, para isso. Arrebentar-me. Matar-
me, no. Morto no sirvo para nada. Podiam ter-me matado
quando me agarraram, quando falhou aquela granada de merda.
Ou depois. No. No vo me matar. Covarde. Alm disso, que
importa? Trapaceiro. No estava decidido desde o comeo a mor-
rer? No  verdade que nada importava? Morrer. Uma estupidez
que acontece a qualquer um. Ser digno dos outros, digno at o
fim, no parecia fcil? Algum me diz: "Basta saber que voc
est vivo em algum lugar do planeta". Algum que me conta coi-
sas. E eu conto tambm; coisas de antes. Contamos coisas um
para o outro. Falamos e vamos perdendo a roupa enquanto fala-
mos. No tiramos a roupa. A roupa va desaparecendo, pouco a
pouco, enqunto contamos coisas de quando ramos crianas. A
linda moa que, nua,  minha tnica e verdadeira casa. Eu, urso
desajeitado. Ela, minha cova.
Fierro lutava com sua conscincia maleriada: queria ajud-
la e defend-la. Sabia que era a melhor coisa que tinha: isso que
os outros chamam de alma. Esse rosto debaixo da cara: o verda-
deiro, o cheio de talhos, o que no fecha as plpebras. Sabia que
o Poder tinha se especializado nessa caada sob a pele e entre os
msculos e que era para isso, s para isso, que triturava eorpos
nas cmaras de tormento. Quantas vezes tinha ouvido falar nisso?
A tortura quer isso, existe para isso. Quantas vezes tinha dito
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isso? Querem converter-nos em insetos, para poder nos esmagar.
Vou perder o respeito que tenho por mim? Sou forte. Somos. No
tinha aprendido isso de cor? A memria. Defender a conscincia.
Rode-la, proteg-la. Estou preso, mas escapo. Inteiro, ileso, in-
victo. As chaves da memria. Tranqilizar-me: afrouxar os ms-
culos. Recordar: rodear-me da gente que amo. Chamo, e eles che-
gam de baixo e do alto e de longe. Passo a mo por suas caras.
Tenho a mo livre. Acaricio as caras da gente que amo. No
chamo Deus. Alguma vez chamei-O? Um Cristo rasgado. Rezo
de joelhos no altar de lata, em minha cova secreta. L fora voam
urubus, estalam clares ameaadores. Urra uma cadela no cio; os
ces ladram, lutam por ela. Este altar vira-latas e muito sagrado,
eu fiz com minhas mos desajeitadas, mos de menino muito me-
nino, que ainda no sabem escrever nem bater. Acendo fsforos;
so minhas velas. Chamo Deus com os olhos fechados, como en-
sinou minha av. Tenho ali uma figura de gesso, roubada, pe-
quena, toda descascada, que vem a ser Cristo. O brao que perdoa
est quebrado, mas eu sempre imaginei Deus como um pssaro
de cauda colorida e uma asa quebrada na luta contra o Diabo.
Chamo Deus porque ando precisando dele. No por mim; pela
minha gente. Fao minhas perguntas e fico esperando, ajoelhado,
com as mos juntas. Ele no me diz nada. Penso que deve estar
dormindo, o Velho Deus, e falo em voz alta. O silncio do espao
infinito  uma mentira. O nada sagrado, uma traio. Acontece
que Deus tinha costas, e foi isso o que Ele me ofereceu. No vomito.
Saio em disparada, como se estivesse sendo perseguido, e no volto.
Fierro se acalmava. A memria era uma fonte de bravura.
Eu sou eu. Perteno a mim; no fujo da raia. O cu era um buraco
descomunal, mas a cabea ia se enchendo de fatos e memria.
No me quebraro. Eles viro, agora ou logo ou nunca, mas no
podero eomigo. Neste reino sou rei. Nele, no preeiso ser feliz.
Lembro: sou invulnervel. Explorador de um planeta que nin-
gum conhece: um mundo de buracos: gotas gordas de transpira-
o escorrendo pelas sobrancelhas peludas de meu pai. O vaivm
da p. Meu pai fazendo fossos no meio de uma paisagem da lua.
O p empurra a p; uma montanha de terra cada vez mais negra
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vai crescendo na beira do fosso cada vez mais fundo. Fossos para
enterrar a ltima colheita de cebolas. Fossos para as galinhas as-
soladas pela peste. Fossos para as frutas apodrecidas por excesso
de chuva ou para as frutas resseeadas pela falta de chuva. Brinco
de amarelinha ou de cabra-cega nos caminhos estreitos de terra
seca e poeirenta entre as crateras. Ajudo meu itmo a carregar
terra na carreta. Na volta, trazemos as coisas, jogamos nos fossos.
A casa, na beira do arroio. A casa acossada pelos fossos e pelas
tormentas e pelos anos ruins. Como faz a casa para se agentar
em p? O universo  um buraco rodeado de terra. Muitos buracos
rodeados de terra e nuvens de p vermelho. No vm os pssaros
buscar minhocas; no vem ningum. Um labirinto: encontre a
linha que leva  casa. Papai com os cotovelos apoiados na mesa
de madeira nua. Um lampio que escava os misculos de seu
rosto. As sombras violentas na cara de papai, que diz: " muito
pouca vergonha a que sobra". Comemos milho. Calados. O teto
da casa maltratado pelos vendavais. Vejo brilharem as estrelas
entre as vigas quebradas e o vo das telhas que voaram. Vejo
tambm, fumegante, a lua passar. Acordo e saio correndo, sem
flego, para olhar os fossos. Vi um avio branco e silencioso, que
chegou no meio da noite e deixou cair um pra-quedas branco,
devagar, bem devagarinho. No pra-quedas havia um senhor
muito alto e de pernas longussimas. Ele era mgico. O mgico
flutuou, roou a terra. Dos bolsos do mgico caram milhares de
brinquedos guardados em grandes caixas com fitas coloridas e
todos os fossos ficaram cheios de brinquedos. Depois, com um
sopro de vento, ele levantou vo e foi embora. Saio cortendo
assim que acordo. Chego na beira do primeiro buraco, que 
fundo, e me inclino. Da negrura, l embaixo, me chama uma
fora que no conheo e que tem muitos poderes. Uma neblina ou
um brao misterioso me agarra pela nuca e me leva para baixo.
Caio sentado no fundo do fosso. Machucado, todo quebrado, cho-
rando. Estou paralisado pelo susto e pela repugnncia e pela dor.
Quando finalmente consigo gritar, chamo a av.
Fierro tinha se apoiado de costas contra a parede, e sentia
que estava melhor O trapo negro apertava seus olhos e o asfi-
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xiava, mas no impedia que ele visse as earas e comarcas que se
ofereciam dos anos passados, nem de respirar ares de outros tem-
pos. Recordar, fuga -toa, no salvava: mas ajudava. Era como
tocar o prprio corpo: uma maneira de comprovar: estou vivo:
chamo a av, me envolvo, o mundo como um sino: cai a tarde. A
av est sentada na entrada da prgola. O ar no cheira a jasmins.
A av passou o dia, como todos os dias, fiando linho com os
dedos. Tem um leque de seda branca, com aplicaes de madre-
prola, aberto sobre os peitos enormes, mas no o usa, nunca,
para abanar-se. Aperta-o contra si e por cima do leque imvel,
que  sua marca senhorial, contempla o vazio com seus olhos
cegos de velha, de cmeas sem brilho e pupilas manchadas. A
saia  um imenso sino cor de barro. Meto-me ali, entre as pregas
do tecido spero, acocorado contra as coxas, e gosto de ficar ali,
preparando-lhe o mate ou esperando que de vez em quando me
diga algo ou me chame de Bichinho. A av no sorti. Tem os
lbios afundados entre gengivas sem dentes e as palavras saem
como rudos de ventosas se desprendendo. Ela ensinou-me a che-
gar ao Plo Sul pela rota das estrelas. Fecha o leque para apontar
as Trs Marias e o Sete Estrelo no mapa do cu. Ela no as v: as
conhece. Tambm conhece a histria secreta de cada estrela, suas
peregrinaes nos mares da noite, mas  de pouco falar. A av d
calor, no invemo. Guarda os netos sob as asas. No gosta de meu
pai, e ele acha que ela ficou muda por culpa dos anos.
Fierro tinha conseguido que o passado caminhasse sobre
uma correia giratria: cada imagem vinha da anterior, desembo-
cava na seguinte. Nem a sede nem a dor nem a angistia interrom-
piam a livre travessia da memria. Coisas que ele no costumava
recordar, ou que se negava a recordar, afloravam como cidades
sepultadas. A memria no entregava lembranas alegres, mas
isso no importava. Era o que era e o que tinha sido. Sou. Me
percorro como um pas. Sobre estas tristezas me conquistei numa
briga dura. Estas tristezas. As plantas talhadas dos ps descalos
da av aparecendo onde acaba o lenol. Em cada ponta do es-
trado de madeira arde uma vela de cabo gross. Fico na ponta dos
ps, os dedos presos na beira do estrado, quase pendurando meu
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corpo no estrado, e vejo sua cara. A av est como se estivesse
viva. Seus olhos opacos olham sem ver e tem as faces chupadas,
como sempre, mas a pele est amarela e transparente. O lenol
cobre seu corpo como se fosse neve, seu corpo de matrona gi-
gante. Uma mosca voa sobre sua cara. A mosca pous na ponta
de seu nariz. Fico chateado. Sinto-me culpado porque no estou
triste e de meus olhos no salta nenhuma lgrima. No sei que
fazer. Quisera brincar com meu pio assobiador Ando perambu-
lando ao redor do tablado fnebre, no silncio da sala, com a cabea
cada, e no entanto, por mais voltas que dou no posso encontrar
a morte no cadver da av. Anos mais tarde aprenderei que um
corpo vazio de vida no  a morte. Um corpo vazio de vida no 
nada mais que um corpo vazio de vida. Saberei que a morte est
na vida, como fim anunciado da gente de que a gente gosta e as
experincias que nos fazem felizes: que surge, como a transpira-
o, pelos poros. Que um cadver  o W ico corpo onde a morte
no est. Mas ainda sou muito pequeno quando me obrigam a
passar a noite no velrio da av, e ainda no compreendo e estou
vermelho de vergonha e cheio de asco pelo medo de que me obri-
guem a beijar essa coisa gelada. Balano sobre o salto e a ponta
dos sapatos, para trs e para a frente, como um pndulo. Os sapa-
tos me trituram os dedos dos ps. Terei de caminhar para dom-
los. Terei de caminhar. Caminharei. Na cidade. Na cidade, farei o
qu? Queria ir ao futebol, no campo perto do porto, e nos domin-
gos vou subir pelos alambrados. No campo do porto haver bar-
cos ancorados atrs do gol, e haver barcos passando, e parecer
mgica. Na cidade, quem me espera? Os primos e os tios apare-
cem primeiro na imaginao; depois, numa casa; depois, num
bairro. Caminharei. Quais so as imagens que me abrem as pupi-
las? A memria navega; a tormenta brinca com ela, despedaa
tudo. "Nunca se deixe aturdir pela desgraa. Nunca permita..."
Screi o intruso. ao me bater. Por escrever com a mo esquerda.
Por comer came sem usar o garfo. O estrangeiro. Porque nunca
tinha visto o mar e entro nele vestido. Porque fujo pela janela e
vou deitar e dormir entre as rvores do quintal. O no convidado.
Batero em mim. Com a palma da mo aberta. Com alpargatas e
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correias. Com a fivela do cinturo. Com serpentes de sete cabeas
que de noite me acossam o sono. Por ser cabea dura. Por no
dizer que chego tarde na escola por causa da fila de leite, e dizer
que chego tarde porque quero e pronto. Me meo, na frente do
espelho; meo a lngua que vo arrancar. Sonho que um carro me
atropela e quebra meu brao e que pelo osso partido sai pur de
abbora. O no esperado. Me batero. Unhas pintadas de ver-
melho. Por achar que os ndios fizeram muito bem em comer
Juan Daz de Sols e chupar seus ossinhos. Vou apanhar por no
chorar quando apanho. Porque meu cachorro manco rasgou, brin-
cando, minha u~ica cala e eu digo que me enganchei na cerca de
arame farpado. Meu cachorro manco chamado Farrapo. Que
mostra os dentes para eles. Que crava os dentes neles. Que sobe
nas rvores. O Farrapo. Que tambm no queria vir para a cidade
mas perseguiu meu cheiro pelos trilhos da estrada de ferro e as
tuas barulhentas e veio e deitou-se aos ps da minha cama. Chu-
taram ele. Expulsaram-no. Me espera. Espero por ele. O Farrapo
estendido no quintal, no amanhecer, com os olhos de vidro e es-
puma seca jorrando do focinho aberto. E eu chuto todos eles. E
mordo. E bato neles com os punhos. E eu os odeio. "Vou odi-los
para sempre, assassinos, assassinos." Levanto a orelha de Farrapo
e conto um segredo para ele. Me agarram pelo pescoo. Me do
uma surra. Me deixam de planto at que me arrependa e diga
que estou arrependido. Estou com as pernas abertas e as mos nas
costas, no meio do quintal, na intemprie gelada, juro e juro outra
vez que no abrirei a boca, no abrirei, passam as horas, a noite
cai do cu, a noite cai em cima de mim, no direi uma palavra,
nunca, as estrelas giram, lentas, e faz frio e eu no abrirei a boca.
Quando abro os olhos, estou numa cama. Algum choraminga.
Algum quer enfiar uma colherinha de leite quente na boca e eu
me sinto pela primeira vez erguido por uma certeza de vingana e
vilria e dignidade salva.
Fierro escuta as vozes do passado vindo sem mentira e sem
pressa. Ouve seu filho dizendo: "Conta como voc era quando
era pequeno"; sente os cheiros da infncia voltando, cheiro de
mato, cheiro de bolo; sente o gosto do mel das madressilvas, o
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gosto das frutas roubadas; v a cara de seu filho impressa sobre a
tela da memria, a imagem assombrada, sempre recm-nascida e
ntida contra o fundo nebuloso do tempo. Saio da priso ao meio-
dia, com uma bolsa no ombro, e flutuo no espao e fecho e abro
os olhos: custo a acreditar em tanta luz. O ar est cheio de chuva
e todo luminoso de luz branca. Longe, contra uma parede, uma
mulher est  minha espera. Meu filho vem correndo, chega, sobe
em mim de um pulo, nos afogamos em um abrao. Os murros do
corao contra o peito. Dois golpes: estou vivo. Esta necessidade
de caminhar em qualquer direo e sem prazo, caminhar por
nada, porque quero, porque sim. A liberdade. Olha. Tenho para
voc esses bichinhos de miolo de po. Foram feitos por todos
ns. A vida l dentro. O vo l dentro. O vo fundamental da
gaivota que passa pelo mico pedacinho de cu que deixam voc
ver meia hora por dia. O meio-dia. E vem a chuva. As nuvens
cinzentas penduradas no cu. O ar inchado do meio-dia. Quando
voc descobrir que o mundo est organizado para que voc mate
aquilo que mais quer... Outros meios-dias, outras chuvas. Os ps-
saros voam para refugiar-se no monte. O pintassilgo sai voando
disparado em linha reta; perde foras, pra no ar; fica suspenso
no ar; agita as asas como louco: sai voando com todas as foras.
Olha. A terra surpreendida pela chuva. As coisas que no conto
por essa nossa maneira calada de querer-nos. Quando voc desco-
brir... quando voc descobrir Olha. Chove como se fosse pela
primeira vez. Meu filho a cavalo, atravessando o temporal a ga-
lope. Meu filho a cavalo, galopando ao meu lado. O pasto esma-
gado sob os cascos dos cavalos. A terra sem cercas de arame. As
coisas que no digo. A nossa terra vermelha empapada pela
chuva. Daqui voc nasceu, brotou desta terra molhada: por ela
voc vai lutar, at que cada fogueira seja a casa de todos. As
coisas que no digo. A cavalo, aos saltos, golpeando charcos, li-
vres sob o cu rasgado, e chove, e chove. Que ser de todos ns?
Livres. Abrindo a chuva brava: livres. Que outro galo cantar?
Fierro esperou essa noite, e no chegaram. No voltaram
,
essa noite. Voltaram na manh seguinte, bem cedo. A mquina
cumpria horrio comercial.
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O garoto anda pela costa e levanta do cho um tubo qual-
quer, um pedao de ferro oco tapado de ferrugem e terra, e co-
loca-o num olho, como uma luneta. Aponta contra o sol. Fecha o
outro olho e no extremo do tubo de ferro voam borboletas com as
asas descoloridas pela chuva de ontem e voa o mgico cantor e
voa tambm, em direo s rvores do monte, um exrcito de
passarinhos encabeados pelas calhandras banzlhentas. Um sabi
sai batendo asas pela janela de casa e no bico levou uma nota
para mame, uma nota que no termina nunca, assim ela compra
comida e no tem de trabalhar nem chorar nem andar sempre
preocupada. O garoto se v a si mesmo, tambm, na outra ponta
do tubo de ferro, e ele  grande e domador de cavalos.
O garoto caminha e caminha tanto que a praia se acabou e
ento v uma mureta e se ordena: senta a. E pensa:
Aonde vo os senhores que vivem na lua, quando a lua vai
se encolhendo e fica fininha?
Quantos gros de areia h neste mundo?
E pensa:
Papai. Noel leva presente para os mortos? Ou os mortos so
como os pobres?
Quantas pessoas cabem na boca de um tigre?
Por que a gente teve de vir para c?
Arraxica um punhado de grama e pe no bolso:  alface,
para papai comer quando voltar. Levaram papai e ningum pode
v-lo e eu guardo comida para ele e cuido de suas coisas.
O garoto n ama a cidade, porque a cidade  grande e a
gente se perde e agora ele no sabe como far para voltar. Uma
gaivota passa perto dele e ele estende um soco que no chega.
Pensa: "De gaivota eu nunca andei". Pensa que seria lindo andar de
gaivota ou de cometa e levar papai para conhecer os outros mundos.
77
18
"Disse que no devia nada.
"Advertida, e ordenada que se despisse, disse que no devia
nada.
"Advertida de volta para que dissesse a verdade, ou seria
mandada para as correias.
"Disse que no devia nada contra a f; foi despida e posta
nas correias, atados os dedos dos ps, e pelos ps e tbias uma corda
fina, e pelos braos, e nas ndegas, para a primeira volta da roda.
"Estando despida dizia que no devia nada, e que se no tor-
mento por no poder suport-lo dissesse algo, que no valha nem
seja vlido, porque o dir de medo.
"Estando j atada na forma dita e posta a roda a rodar, foi
advcrtida para que diga a verdade; onde no, seria mandado dar e
apertar.
"A primeira rodada da roda."
19
Sou um velho que no v... sou um ouvido que no escuta...
sou esta mo que no toca...
As plpebras chocaram-se contra o pano negro e spero que
as oprimia. Fierro quis arrancar o capuz amarrado ao pescoo; a
puxada violenta cortou os pulsos algemados nas costas. Onde
estou? As pernas negavam-se qualquer movimento; os ligamentos
eram trapos. Por que estou? Da boca no saa nenhuma palavra; a
lngua era uma bola de came ardida. Com quem estou? Os lbios
no se fechavam; o queixo, trmulo, no obedecia. Lentamente ia
reconhecendo seu corpo, o territrio bombardeado que conti-
nuava sendo scu.
Sou um corpo desfeito e desolado...
Um gemido remoto ia e vinha. Fierro no escutava mais
nada, e era seu prprio alarido de pouco tempo atrs que regres-
sava como uma rajada desafiante. Um alarido: um gemido de
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nada. Achara que estava urrando. A garganta no funcionava.
Havia um incndio na garganta. Tinha pedido gua. Lembrava?
Sim, lembrava. Tinham aberto sua boca, tinham cuspido dentro.
Sou um monte de msculos retorcidos e queimados...
T'mha os nervos expostos. Doam os cabelos, um por um.
Doam as unhas. Sentia uma agulha cravada em cada poro. Sentia
a dor rangendo na caixa de ossos do crnio. At que ponto? Volta-
ro. At que ponto se pode agentar? Vo voltar agora. Uma
brasa na escurido; duas; muitas. Voc est sozinho, disseram
eles. Todos os outros cantaram, sabemos o que voc sabe; sabe-
mos tudo, voc est sozinho como um co, filho da puta, canta.
As palavras voavam; atingiam o alvo; estalavam. Voc no tem
sada, reconhea, canta, qem so eles, quantos, nomes, quere-
mos nomes, escuta, diga, no se mate, reza, filho da puta, vai
rezando. O crebro tinha voado aos pedaos. Uma nusea como
uma onda com gosto de sangue e cheiro de podrido. Voltaro.
Agora. Viro dos quatro pontos cardeais, como as palavras e os
golpes. O frio da lmina da faca no escroto. O cano do revlver
afundado no cu. Vo levantar novamente o capuz: voc ver
outra vez as fascas arrasando seu corpo, mordendo sua carne,
arrancando sua carne aos pedaos. Voc vai se debater como um
peixe fisgado. O desespero escorregadio do peixe. Agora. Volta-
ro. At que ponto  possvel agentar? A vitria precisa de
todos. Precisa de ns? Precisa de mim? Voltaro. Logo. Agora.
Tinha querido gritar. A lngua inchada ocupava toda a cabea. Os
testculos inflados como bales. O pus jorrando: tinha sentido,
sentia, os minsculos e repugnantes rios de pus e de sangue desli-
zando das feridas. Morrer. Sim: lembrava. Fst sozinho, ningum
sabe que voc est aqui, ningum viu quando levamos voc, nin-
gum conhece voc. Ningum. Vamos mat-lo.
Sou utn punhado de fibras rasgadas...
Morrer No quero morrer.  injusto. Quero morrer? No
quero. Faltam tantas coisas para fazer e para ver. Tempo meu,
mundo meu. Tempo sem fim. E, se no h Deus, para quem a
gente deve protestar? Fstou feito de dor. Fstou desfeito de dor.
At que ponto  possvel agentar? Morrer. Vamos matar voc e
79
ningum vai saber, mas agora, hein?, no, no vamos ser bonzi-
nhos e matar voc agora, desgraado, antes voc vai sofrer.
Muito. Olhe bem. O cho tinha-se levantado, esmagava sua cara.
As pinas se abriam e fechavam sobre cada pedao que ainda
~stava vivo. Uma brasa na escurido; duas brasas; muitas brasas.
Eles fumavam. Voc vai repetir para ns o que disse antes. A
memria balanava, bbada, em cima de um p s. O que voc
disse antes. Mas eu no disse nada. Tenho certeza. Sentia o cho
de cimento gelado debaixo do corpo nu e toda a dor do mundo
com um ato simples como engolir ou mover um dedo e se dizia:
estou certo de que no disse nada. Estou certo de que fui mais
forte que eles e no disse nada. Tenho certeza? A terra girava,
uma bola adormecida no espao, e Fierro sentia-se como uma
barata pisoteada e descobria que duvidava e que tinha medo. O
pano babado do eapuz o estrangulava. A revoluo, a terra pro-
metida... Trinta anos? Pode ser. Quarenta anos? pode ser. Uma
cruz feita com lpis vermelho sobre um nmero no ealendrio?
Amanh? No. A vitria e a ressurreio e o poder: amanh, no.
Jogo a vida. No vou ter outra. Esta  a nica que eu tenho. Vida
nica vida. Vou perd-la. Ela est indo. Estou perdendo-a. Es-
corre; goteja. Ningum me dar outra. E eu gostava dela. Ah, eu
gostava. Quanta ser a quantidade de dor reservada para mim?
Tudo por qu? Pelos outros? Pelos que esto me arrebentando?
Tambm por eles? A multido  uma famMia?  possvel tocar a
multido? A gente pode sentir-se abraado pela multido? Sim
,
pode, sim, pode. Pode. Voc pde. Aconteceu. Est acontecendo.
Sempre. A multido: uma moa grvida de granadas. A gente
danando na rua. Uma alegria feroz. Um rudo de tamborins e
violes e bandeiras e todos abraando-se e beijando-se sem se
conhecer. Sim: sempre. Sim: tudo. Por isso: tudo. A revoluo:
quando o cu desce e a terra sobe. Os armados, desarmados. Os
amarrados, desamarrados. O preo. Pagar o preo, no era o que
voc pedia? No era o que voc queria? Quem escolheu por
voc? A longa noite dos anos. O trabalho de formiga. A impotn-
cia e a espera. Sem abrigo, e na intemprie. Voc. Eu. Sim. Eu.
Ns. Eu disposto ao arrombamento de todas as prises e  viola-
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o de todos os mandamentos. Voc no quis falar com a voz dos
que no tm voz? Lutar do lado dos que no tm armas? Cair
com os condenados  queda? Eu. Esta mo,  minha? Est dor-
mindo. Isso: dorme. Pobre mo estrangulada. Por que di, se est
dormindo? Por que escorre minha saliva se eu estou morto de
sede? Tenho a boca aberta, como os mortos. Tremo: estou vivo.
Di o suor gelado em mim. Doem os msculos e os ossos e a
medula dos ossos. Se esto doendo, estou vivo. Quem est a?
Estou sozinho. H algum? H algum a? Estou falando, agora?
No. Pensando. Isso. No estou falando. No disse nada. No
digo nada. No direi nada. Sou mais forte que minha dor. Sou
mais forte que meu medo. Somos mais fortes. Ns. Ns somos.
Eu. Disposto a pagar o preo. Aqui estou e sabemos por que mor-
remos. Eles no sabem por que matam. Pobrezinhos filhos da
puta. Estou disposto a morrer. Estou disposto a sofrer. Vou sofrer
com uma alegria selvagem.
No sou minha dor; sou outro...
Pensar. A est: tenho de pensar. Pr minhas idias em
ordem. Salvar-me. Penso. Salvo da dor. Separar-me da dor. Isso.
A dor me parte. Quem sou? No estou quebrado. Quem era eu?
No me arrebentaro. Quem so os meus? Os meus: os malcomi-
dos, os maldormidos, os donos de nada. um dio que cresce como
cabelos ou unhas. Sou mais forte que minha dor. Pensar. Penso.
Eu. Forte. Eu sei por que estou aqui. Eu escolhi estar aqui. Aqui,
neste mesmo lugar de merda. Sabia que ia chegar minha vez.
Quis. Soube. No estava condenado. Comer e arrotar e dormir 
sombra das baionetas? Sou forte porque sinto asco. Sou forte por-
que sinto dio. O Poder. Sabemos: no jorrar sangue ao morrer.
Sabemos: deixar nada mais que uma pelcula de p nas mos
dos justiceiros. No me importa morrer. No me importa sofrer.
Estar vivo  um jogo de dados. Mexo os dedos. Assim. As pernas.
Os tendes. Devagar. Devagarinho. Assim. Estou vivo. No devo
mover-me. Quieto. Assim. No estou sozinho. Ainda estou vivo.
A revoluo: quando chove de baixo para cima. Me vejo longe.
Estou longe. Devagarinho.
Sou um pas subterrnco...
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20
"Nas paredes viam-se penduradas disciplinas de materiais
diferentes, algumas cordas cheias de ns e no poucas endureci-
das com o sangue; outras correntes de arame com pontas e rodi-
nhas eomo as das esporas, estas tambm manehadas de sangue;
coroas de tecidos de arame com pontas salientes, eomo de um
oitavo de polegada, cobertos com couro pelo exterior e providos
de cordinhas para amart-los. Havia de diversos tamanhos, para a
cintura, as coxas, as pernas e os braos. As muralhas eram vistas
tambm adomadas com camisas de crina, para usar depois da
flagelao, ossos humanos com uma corda a cada extremo para
amordaar os que falavam mais que o necessrio e mordaas des-
tinadas ao mesmo fim, feitas com dois pedaos de taquara atados
nos extremos, que abertos ao meio, ao serem postos nas bocas, e
amarrando-os atrs da cabea, como as de osso, apertavam a ln-
gua com grande fora.
"Em um caixote havia muitas argolas para os dedos, feitas
de pequenos pedaos de ferro em fotma de semicreulos ou meias-
luas, com um parafuso num dos extremos, de maneira que, colo-
cando-as nos lugares adequados, podia-se apertar tudo que se qui-
sesse, at o ponto de arrebentar as unhas e quebrar os ossos."
21
Fierro quis domiir, deslizar pela longa tripa escura do sonho
at o fundo do mar ou da noite. Quis, mas no. No podia fechar
as plpebras. No podia ir. Acordado, os pesadelos entravam com
fora pelos seus olhos abertos contra o pano negro do capuz.
Pesadelos como este:
As paredes estavam vivas e comiam e iam ficando infladas,
ele ouvia as paredes, latejavam, um pulso de relgio, avanavam,
se inchavam, paredes-pulmes contraindo-se e dilatando-se, cre-
scendo em cada pulsao, paredes-ventres caminhando, en-
chendo-se de ar pelos poros abcrtos, poros-bocas que arfavam e
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jorravam rajadas de vento e devoravam o ar do mundo inteiro e
ele sentia o pulsar dos estrondos e troves, o clamor da invaso
das paredes engolindo tudo at que no existisse mais ar para
respirar nem espao para estar e ele era cercado pelas costas e
pelo peito e as paredes trituravam suas costelas e esmagavam
seus pulmes e acabavam engolindo-o e ficavam transformadas
em um tnico muro gordo e vitorioso.
Ou este:
Ouvia as sombras rompendo-se e ouvia um gemido ou mu-
gido longo e quente e na escurido surgia uma lngua de ao,
erecta, vinha, a folha de uma navalha entrando e crescendo e em
seguida era uma serpente de metal que ondulava e depois era uma
serra eltrica dando voltas em busca de carne humana, perse-
guindo-o, ele se agachava e saltava sem poder v-la enquanto
escutava o roar de espada de imensos dentes esfregando-se e
tambm chiados e gemidos e os golpes de um martelo pulveri-
zando ossos e uma p mecnica se desprendia da noite e o perse-
guia para mistur-lo com restos de homens castrados e mastiga-
dos e vomitados e ele no encontrava esperana em nenhuma
parte de seu corpo.
22
"Foi mandado tirar a capa, e, tornado a ser advertido para
que diga a verdade, disse que no tem mais nada a dizer.
"Foi tirado o escapulrio, e, tomado a ser advertido para
que diga a verdade, disse que no tem mais nada a dizer.
"Foi mandado tirar a bata e o colete, e, advertido para que
diga a verdade, disse que no tem mais nada a dizer.
"Foi mandado tirar a camiseta, as calas e os sapatos, e, adver-
tido para que diga a verdade, disse que no tem mais nada a dizer
"Foi mandado vestir uns cales largos, e, advertido para
que diga a verdade, disse que no tem mais nada a dizer.
"Foi mandado tirar a camisa e ficar despido e com os cal-
83
es largos e sentado no troneo, e, advertido, disse que no tem
mais nada a dizer alm do que disse.
"Foi mandado estender-se no tronco, e, estando estendido,
dsse: `Veja o quanto sou magro e quo facilmente se acabar
minha vida."'
23
Fierro qus desmaiat e maldisse a fortaleza de seu prprio
corpo. Pensou: vou bater neles, para obrig-los a desmaiar-me.
Quando voltarem, baterei neles.
Descobriu que j no estava amarrado. Descobriu que ti-
nham arrancado o capuz de sua cabea. Quis ficar em p. O c-
rebro ditou a ordem. A ordem desceu de clula em clula e as
brancas cordas dos nervos transmitiram-na a viva voz, mas a me-
dula no escutava. Os cabos tinham sido cortados, as pontes dna-
mitadas; a medula no respondia. O crebro chamava os mscu-
los, repetia a ordem, insistia; era intil: esta perna estrangeira,
esta pema de areia.
Sentiu-se erguido, puxado pelo pescoo, e um jorro de luz
caiu em sua cara e uma tormenta de clares surgiu no eentro do
crnio. Escutou vozes que o sacudiam. "Conhece esse aqui? Co-
nhece?" Viu uma eara. Pobre velhinho, desfigurado pelo medo.
Pobre diabo. Dava pena. Era a cara de algum que tinha ficado
perdido na selva, com barba e sujeira de anos e os rasgos incha-
dos e borrosos. Mas era um espelho. Descobriu que era um es-
pelho. Era um espelho, o que estava na sua frente. Um sonho?
Estou dormindo? Est acontecendo.
Acontecendo comigo. Eles riam s gargalhadas e ele quis
arrebentar o espelho, fazer com que sua imagem saltasse em pe-
daos, converter-se numa teia de aranha naquele vidro ou em um
monte de vidro estilhaado: quis se arrebentar, e se disse: para
cima, braos, para cima, mo. Mas os braos e as mos tampouco
Ihe pertenciam e descobriu: sou meus fiapos, sou os restos de
mim. E descobriu: no snto dor porque j no sinto meu corpo.
84
Entreguei meu corpo. Arrancaram-no de mim. Perdi. Era meu
cocpo, e eu o perdi.
Foi invadido pelo pnico da traio. Este corpo que j no 
meu me trair? Trair minha gente? No sabia quanto tempo tinha
passado e quis recordar os ltimos interrogatrios, mas a mem-
ria tinha se inundado de dvida e cerrao. Sentiu a obrigao de
se matar, porque o nascimento e a morte no tm importncia e o
que importa  o que est no meio e ele no podia permitir que no
meio estivesse a traio. Matar-se. Morrer, terminar. Fim do in-
femo, fim do cu, princpio de nada. Matar-me. Oferecer-me. O
cho de cimento como um altar de pedra e o sangue indo embora
aos borbotes pela veia aberta e o prazer de pensar: ferrei eles.
Eu terei fim, mas o tempo no. Eu terei fim, mas o espao no. A
luta no. A sorte est jogada, mas jogada por mim.
Pensou no filho, como numa despedida.
Mas no sabia ainda que eles no iam deixar que ele esco-
lhesse. No tinham ainda arrebentado seu fgado, ao fim de vrias
semanas de no conseguir arrancar nenhuma palavra de sua boca.
No o tinham jogado, ainda, morto, no mato, perto de uma cida-
dezinha qualquer.
E no sabia, e no soube nunca, que em alguma parte havia
uma carta para ele. A carta dizia:
Perguntamos por toda parte e ningum soube informar
seu paradeiro. Nos quartis riem de mim, quando pergunto. Eles
dizern que voc deve ter ido embora com outra, mas eu sei que te
levaram preso ~wvamente porque veio um amigo seu que sabe e
me disse. Pergunto onde andars. Os sofrimentos que estars
passando, eu imagino. Pode ser que esta carta chegue a voc e
pode ser que no, mas eu mesma vou lev-la para ver o que
acontece. O Jujo diz que manda para ti um chiclete de bola, por-
que sabes fazer bolas, bolas grandes, que voam, e assim entras
dentro da bola e foges. Diz que quando voltares trars para ele
um guarda-chuva e um sorvete.
O Jujo  uma maquininha de fazer perguntas. Me deixa
Louca com as perguntas. Quando comear tudo de novo?
85
Quando comear tudo de novo, do ano 1 em diante? Quantos
segundos demora um sculo?
s vezes me diz que est querendo nascer e est querendo
crescer, mas s vezes me diz que quer entrar outra vez na minha
barriga.
Caminha muito sozinho, anda por a, sem se dar com nin-
gum. Todo sujeito que v de uniforrne pela rua, mesmo um por-
teiro de Itote~ pergunta: Quando  que voc vai devolver meu
pai? Diz que vai fuzilar todos com o raio ultra-seven, chuta as
canela.s deles e sai correndo.
Eu tambrn sirzto muita saudnde de ti. Esquece todas as coi-
sas feias que eu te disse. S quero que voltes. Quero que a gente
esteja junto outra vez, airtda que por um minuto, e quero dizer-te
que foste a melhor coisa que me aconteceu na vida.
No gostavas que eu falasse assim e mudavas de assunto ou
ficavas rartzinza e alm disso sempre havia outras coisas para
falar, ou seja, as maldades do governo ou o preo das coisas e
que no h dinheiro que chegue.
Agora no sei se poders ler esta carta, mas sinto do
rnesmo jeito uma necessidade de dizer que eu contigo fui mais
feliz do que os livros dizem que  possveL Perdoa-me, se tantas
vezes andei me queixartdo por bobagens.
Um dia me disseste que eu tinha cara de mulher  qual
sernpre se volta, e eu te espero agora ou quando for e onde for e
como for. Quero que tu saibas ".
24
E.stava procurando um lugar para estender-se e fazer a sesta
debaixo de muita rvore, costume do homem sozinho que fora
antes, homem s e mateiro. Procurava e encontrou.
s suas costas, nos litnites do povoado, ardia, empilhado, o
lixo. No cu havia um sol mau, violento. O vento andava empur-
rando fumaa branca e p nebuloso e fuligem e esparramava um
86
cheiro de detritos queimados e de soneira de vero. Viu o p. lsso
foi o que viu primeiro. O p, aparecendo entre os galhos espit~hentos.
Uma touceira impedia a passagem. O vento, ali, tampouco
podia entrar. As moscas zuniam, alvoroadas. Viu o p e adivi-
nhou o resto.
Escapou correndo.
Parou, sem flego, e pensou: por que tinha de ser justa-
mente comigo? E se eu no disser nada? Por que vou levantar a
lebre? No se meta, disse. Ningum viu voc vendo. Quem te deu
vela nesse enterro? No se meta. Cada qual com seus problemas,
pensou. Eu no vi nada, tchau. O que vier atrs que apeie. Se eu
disser alguma coisa, vo botar a culpa em mim. J vi tudo. Vinte
anos de sombra. Quarenta anos de sombra. Toda minha vida na
sombra. No.
Quis comer e descobriu que a garganta estava tapada.
Quis dormir Tinha o morto atravessado entre as plpebras.
Voltou no meio da tarde. Sozinho. Aproximou-se; persig-
nando-se, viu o corpo nu e espalhado, a pele lvida e as manchas
vermelhas dos golpes e das queimaduras. Viu o misterioso fo-
guinho invulnervel ainda brotando de alguma parte, e impondo-
se at agora.
O corpo no tinha comeado a se decompor. Este pobre
homem foi morto vrias vezes, pensou. Est pedindo terra, pen-
sou. E paz. E outra coisa mais est exigindo ou advertindo, pen-
sou, sem saber que coisa era essa que estava ressoando alm da
surpresa e da tristeza do assassinato.
Foi ao povoado buscar um carrinho de mo e uma p e um
couro de ovelha. Ergueu-o nos braos, sem asco nem medo, e
deitou-o no carrinho e o cobriu. Desceu a ladeira de pedregulhos.
O morto, desengonado, se sacudia aos trambolhes. Os braos e
ps levantavam p e pedras do solo. Quando estava chegando l
embaixo, a roda de ferro do carnnho de mo saiu rodando so-
zinha e deitou-se sobre uns matinhos bobos.
O homem sentou-se em uma pedra e tirou o saquinho de
tabaco do palet. Lentamente armou um cigarro de ponta chata.
Acendeu-o e fumando decidiu-se a cavar a fossa. Tinha chegado
87
ao fim da viagem. Era muito prprio do destino, isso de quebrar a
roda e assinalar o lugar
Ento, o viram. Uns meninos. Surpreenderam-no quando
afundava o fio da p na terra seca. C~mprimentaram-no aos gri-
tos e ele espantou-os a pedradas. J no havia mais nada a fazer.
Por que tinha de ser comigo?, perguntou. Quem mandou eu me
meter nessa confuso? Olhou o sol, que estava baixo no cu, e
calculou a hora.
Era domingo e o povoado estava vazio.
Ningum quis cuidar do morto sem nome.
25
"Porque durante a missa maior, em um dia de festa, com
muita ira e clera disse: `J passou o tempo em que Deus man-
dava que se a um lhe dessem um bofeto em uma face, virasse a
outra, pois quem a mim me pisar no sapato, arrancarei a alma'.
"Por ter andado renegado.
"Porque dava sorte com amores e curava com feitiarias.
"Porque lidava com o diabo, e quando falava com ele dizia
`minha alma querida' e muitos outros galanteios; e quando 0
diabo queria lhe falar, surgiam ares frescos em seu rosto; e
quando ela queria, punha-se a ver o sol ao meio-dia em ponto, e
posta em cruz via o cu aberto e a glria, e no sol via toda gente
como se fosse de vidro, e via suas entranhas.
"Porque achando-se no campo tinha ouvido de repente um
som muito suave que baixou do cu e alegrou muitssimo seu
corao, atribuindo-o  graa que lhe era concedida de repente.
"Porque tinha exclamado, lendo uma vez a Escritura: `Eia!
,
que no existe pois outra coisa que viver e morrer!'
"Porque disse que um raio o tinha partido e que tinha satado e
que s mulheres que se vestiam com saiotes vermelhos via tudo que
tinham, como se estivessem em plo, com outtas coisas desse tipo.
"Porque no tirava o chapu  ctvz, nem fazia reverncia s
88
imagens nem aos santos, nem ao Santssimo Sacramento quando
se encontrava na rua.
"Porque levava recado aos presos.
"Porque afirmava que no houve Ado nem dilvio, nem h
diabos nem bruxos, e que isso que chamam de estrela dos magos
foi um cometa dos ordinrios.
"Porque achava que, se houvesse infemo, haveria de ser
para os reis e poderosos, para clrigos e frades, que se sustentam
do trabalho alheio, e que era inveno digna de reprovar-se a sub-
misso do Rei ao Papa.
"Porque, tocando a guitarra, fazia bailar um ovo, e que se
erguesse do solo at a altura de sua cabea."
26
A mar alta o tinha arrojado, finalmente, aos ps da cidade.
Foi na hora em que as sombras degolam a ltima luz de um talho,
e a noite se derruba, brutal e vingativa, sobre ns.
Ele demorou vrias r~oites em chegar, mas orientou-se at
aqui como se quisesse muito. O mar, com seus movimentos de
pisto, ia e vinha, com ele flutuando, e o vento trazia das ilhas os
ecos dos lentos troves da guerra: os corpos golpeando contra as
rochas e precipitando-se ao fundo das guas, pesados como mon-
tanhas, e o cheiro de sangue erguendo-se dos abismos do mar.
Ele'viajou sua ltima viagem com o ventre rasgado pelas
presas inimigas. Uma gaivota acompanhou-o, com as asas aber-
tas. Acompanhou-o sem gritar. A gaivota navegava sobre ele,
voava suavemente, parava, flutuava na escurido como uma lm-
pada acesa: esperava por ele e o conduzia. As algas, arrancadas
pcla mar crescente, aoitavam o mar com seus fogos frios, en-
quanto ele viajava sua viajem de navio fantasma com a gaivota
como bandeira.
Depois, a gaivota ficou montando guarda sobre ele, fixa no
ar com as asas abertas, para que os pssaros no lhe devorassem
os olhos nem as tripas que aparecem pela ferida aberta.
89
Ele no caiu de cara no cho, como os outros: tem o pes-
coo erguido e enfrenta a cidade com as mandfbulas abertas. J
no lhe sobra pele, apenas fiapos pregados contra a carapaa de
couro duro.
A cidade no diz que o ehamou. A cidade: que de dia come
luz e de noite cospe. Que de noite engendra vidas e de dia as
enterra. Chamou-o: com a voz de um homem que sente uma tris-
teza igual  de um exrcito em retirada e com a voz de um
homem que sente que toda a alegria do universo cabe na primeira
chama das altas fogueiras que faremos arder.
27
"Porque num enterro muto suntuoso disse que tanta pompa
era intil, j que o morto no haveria de necessitar nada.
"Por ter sado artes mgicas com que convertia em negros
os homens brancos.
"Porque disps tns bonecos que representavam outras tantas
pessoas de autoridade e exerccio, dois vestidos de beca e o terceiro
de escarlate, e, assim dispostos, ps sobre carves acesos uma pa-
nela com aguardente, coca mascada e aucar e levantando a panela ao
alto aoitava a chama com os bonecos, invocando o demnio.
"Por dizer que no tinha o Pontfice faeuldade para conce-
der indulgncias e que estas eram uma quimera e ostentao,
como que o Papa fosse cabea universal da Igreja e que a este se
devesse obedincia, pois no eta possvel que a um s homem se
sujeitassem tantos, e ainda mais quando este eoncitava tropas a
favor de uns prncipes ou monarcas contra outros.
"Porque disse que Deus tinha errado na criao do homem
,
pois sabendo que haveria de ser-Lhe infiel e ofend-Lo, tinha-o
criado.
"Porque disse que tinha segura a glria e estava to perto
dela como daqui a sua cama, e que para obt-la tinha muitos tra-
balhos que sofrer e tormentos que passar, como: escurido muito
grande, fogo oculto e uns precipcios muito espantosos.
90
"Porque estando adormecida, viu que haveria de ficar a ei-
dade reduzida a cinzas pela ira dos cus, e que o Senhor arrojava
contra cada uma das casas trs lanas ou fleehas de fogo, com
que se incendiava toda a cidade em castigo das graves culpas que
se cometiam.
"Porque um clrigo, com quem ela tinha estado amance-
bada, costumava dizer-lhe: `Minha deusa', e que a queria tanto
que quando estava na Igreja e ouvia citar o nome da Santa Maria,
ele dizia: `Minha Maria'. Porque, chamada a declarar, ocultou a
verdade.
"Porque disse que os sacerdotes comiam o suor dos pobres
e que vendiam cada dia Jesus Cristo por um tosto e que nenhum
homem que vendesse negros e mulatos poderia ir ao Cu mas sim
estava condenado ao Infemo, e que o Papa que permitia isso era
um bbado.
"Porque ofereceu-se ao demnio e a primeira noite que dor-
miu com ele foi a noite do dia das Onze Mil Virgens, e, depois
que voltou a si, viu que estava todo o aposento coberto de negro e
uma tumba no meio e umas tochas acesas.
"Porque negava redondamente o sexto mandamento.
"Porque disse que tnha tdo a revelao de que o trono ro-
mano haveria de passar s ndias.
"Porque disse que ainda que mandassem o Rei e o Papa
,
faria em sua casa o que quisesse.
"Porque insistia, com motivo da apario do cometa grande
,
que isso significava o fim do mundo, porque j no havia cari-
dade nem verdade.
"Porque renegou Deus enquanto estava pendurado, rece-
bendo aoites de seu amo.
"Porque se denunciou de ter expressado, em galeras, que, se
no cavalgava este mundo, o diabo faria que cavalgasse no outro.
"Porque declarou que era como e charlato, e que como
prova disso tinha uma cruz no peito e outra no cu da boca.
"Porque afirmou que os ndios que tinham morndo antes da
chegada dos espanhis iam para o cu.
91
"Porque disse que a Inquisio era como a torre da Babil-
nia, porque os que nela entram nunca acertam em sair.
"Porque insistia que os inquisidores e seus familiares deve-
riam ser amarrados na cauda de um cavalo.
"Porque disse que os inquisidores no faziam o que deviam
fazer, que no eram a no ser contra os pobres e no contra os
grandes comiles do mundo."
28
A senhora lembra a primeira vez que nos falamos? Eu era
muito menino, acabava de comear esta vida sem abraos.
Lembra? Foi a primeira vez e a ltima, porque passaram-se os
anos e a senhora nunca mais cuidou de mim. Razes no Ihe
faltam, eu sei. Eu nunca acendi nenhuma vela pela senhora e
nunca pus uma moeda nos cofrinhos das igejas. Das suas rezas
que eu sabia, esqueci faz tempo, por falta de uso. Eu a quero
bem, Maria, mas  minha maneira.'
Lembra? Eu era pequeno. Tinham-me enfiado debaixo da
ducha fria, por alguma diabrura que eu tiriha feito, e veio a Monja
Pastora e aplicou-me o castigo. A Pastora deu em mim com uma
vara de marmelo nas costas, deu em mim com toda alma e vida e
eu no chorava para no dar-lhe o gostinho, e quanto mais eu
agentava, mais forte me batia a Monja Pastora com a vara. De-
pois me levaram despido para o meio do ptio. Me obrigaram a
ficar de joelhos e a me tiveram todo o dia ajoelhado e com as
mos na nuca, obrigado a olhar o cho. No podia me mover. Se
me mexia, me batiam com a vara. Eu estava contndo formigas e
vi desfilar a fileira de sapatos dos outros garotos do albergue e
eles passavam ao meu lado sem falar Fiquei sozinho. Estava tre-
mendo de frio, eu; com os braos cheios de cibras e os joelhos
arrcbentados pelos pedregulhos e as costas em came viva. Estava
todo cheio de dor. Foi ento que fechei os olhos e apertei-os para
que ficassem l dentro e vi pontinhos coloridos e com toda a
fora de minha alma pedi ajuda  senhora, Me de Deus, Me dos
92
Mrtires, agasalho dos pobres. E a snhora me foi propcia. Eu
pedi um milagre, e a senhora fez. A senhora fez que nesse mo-
mento acabasse a guerra mundial. Lembra? Dois de maio, no ?
De 45. Acabou-se a guerra mundial e tocaram as sirenes e na
confuso ns arrebentamos as portas e fugimos todos. Eu juntei-
me ao Sussurro, que tinha vomitado a hstia na missa e fugira
antes. Quando apareceu a noite, amos dormir nos depsitos do
jornal. Durante o dia, andvamos vagando, vagabundeando, pelo
mercado velho.
E eu caminhei, desde aquele dia. Caminhei e caminhei e cami-
nhando ando at agora, buscando no inverno a calada do sol.
Na senhora eu acredito,  minha maneira. Sempre acreditei
na senhora, V rgem Maria Santssima, atravessada de punhais
pelas dores do mundo. Nos espritos, no. Nos espritos, eu no
creio. E como vou pedir aos espritos que venham dar-me uma
mozinha, se no creio nem mesmo que eles existam?
O Sussurro acreditava neles, mas os espritos no o impedi-
ram de arrebentar-se como um percevejo, pobre Sussurro, que
descanse em paz. Ele dizia que tinha falado com uma quantidade
tremenda de defuntos. s vezes vinham os espritos e sentavam-
se na cama para bater papo e jogar truco e at tinha um que lhe
deixava dinheiro emprestado, dentro do sapato. O Sussurro era
visitado por espritos colaboracionistas e espritos vingadores.
Uma vez chegaram os vingadores'e Ihe deram uma surra brutal,
enquanto ele dormia. Amanheceu todo inchado e sujo de sangue.
Ele me contava essas coisas e eu discutia com ele. Olha a, Sus-
surro, eu dizia a ele, no  porque eu seja muito desacredador,
mas no venha com esses disparates de espritos para cima de
mim, no. Os que te visitam, eu dizia a ele, so esses caras dos
discos voadores. No so os espritos que te visitam. H pouco,
sem ir mais longe, os caras dos discos voadores desceram aqui na
praia. No ficaram sabendo, as gentes, porque o govemo no dei-
xou publicar. De um cristo compatriota meu arrancaram sangue
de um dedo, que para eles, claro, era como o caf da manh.
Comportaram-se de maneira muito correta, verdade seja dita, e
falaram ao homem no idioma nosso, daqui do pas. Foram cor-
93
diais at quando tiraram sangue dele. Comeram, e depois foram
embora. Eu no sei se a senhora sabe, Maria, mas os caras dos
discos voadores vm do centro da terra, onde est o fogo etemo, e
saem das crateras dos vulces. J conquistaram o planeta Marte.
Essa  uma das minhas teorias, quando comeo a pensar.
Cada vez penso mais, porque ando sem trabalho, sabe?
Penso: e eu, o que tenho? O que  meu? E eu, o que sou?
Carne batizada e nada mais? Entro dentro de mim e avano,
avano, e vo aparecendo pessoas que eu amava, e continuo
avanando e continuo e continuo mas me d medo, porque eu sei
que no final desses corredores de minha alma no h ningum e
que existimos por pura casualidade das coisas. Que haveria acon-
tecido se papai e mame no se juntassem numa noite de cama-
val? Estaria eu aqui? Acho que teria morrido sem nascer. E quem
estaria em meu lugar? Hein? Porque, no fundo, eu no sei quem
sou nem de onde sou. H algum que sabe, mas no sou eu. Eu
sei que esta vida que levo no  a minha. Mas qual  a minha?
Isso ignoro. Esta vida que levo no tem msica. De tanto sentir
pena, j esto doendo minhas costelas.
Uma das minhas maldies  essa de no ter nada. Tudo que
tive, perdi. A mulher que eu mais amei, a Pitanga, eu que com ela
me sentia sbio atmico, no agentou mais comer ossos e foi
embora. Dois dos meus filhos, quanto tempo faz que no os vejo?
Empenhei o rdio, com Gardel l dentro, e depois empenhei o
recibo do empenho. O guarda-roupas, tiraram ele de mim quando
faltava um par de prestaes. O anel de casado, a aliana, esse eu
no perdi, porque nunca tive. A gaita, que para mim era como 0
cigarro ou at mais, muito necessria para comear o dia, a meni-
ninha, a caula, agarrou um garfo e comeou a enfi-lo nos bura-
quinhos da gaita e deixou toda a lata retorcida. Vale uns cinco mil
pesos, a gaita, Maria, veja s, por essa tal questo do dlar. Esses
sapatos que eu uso, a senhora est vendo, Virgem Santa, so ver-
dadeiros cadveres. Outra tarde entrei na igreja com esses sapatos
numa das mos, e o cura veio dizendo: "No se pode entrar des-
calo na igreja". E eu lhe disse: "Se eu calar esses,  mentira",
disse. "Eu venho pedir ajuda a Deus", disse para ele, "e como 0
94
senhot  o delegado Dele, numa dessas Ele d ao senhor uma
ordenzinha a para me amzmar um par de sapatos novos". "H
quanto tempo no se confessa, meu bom homem?", veio ele per-
guntando. "H quanto tempo no comunga?". E eu pego e res-
pondo: "Vnte e cinco anos". Deu-me acar. Eu precisava de
sapatos. E ele me deu acar.
Eu estava pedindo sapatos a Deus, que  seu filho, no?,
porque eu aos homens no peo nada. Eu no mendigo. Eu no
agradeo. Ofereo meus braos, bons para o que for, agentado-
res, de ferro. Mas no h novidades para mim. At as estrelas me
respondem que passe uma outra noite qualquer. Ningum tem no-
vidades para mim. H quantos anos estou fazendo fila e espe-
rando chegar minha vez? Se protesto, me prendem. Se fico ca-
lado, me prendem. Jogo uma moedinha para o alto e se d coroa 
azar, se d cara tambm. De onde vem minha desgraa? Nasci
torto ou me puseram mau-olhado? A alegria fugiu de mim, V r-
gem Santa, pelos furos que tenho na alma. Estou transformado
numa tristeza andante. Para que vivo? Por que respiro? Fico pen-
sando e perguntando e  como apertar o boto de artanque de um
motor que depois ningum consegue parar. s vezes fao uns
pesos e converto-os em graspa, com muita freqncia me acon-
tece isso, verdade seja dita, no vou enganar a senhora, a senhora
que  a Rainha do Cu e da Terra. Mas essas so as minhas
armas, Maria, a senhora compreende, contra as perguntas que me
vm l de dentro e me atropelam. Peo  graspa que me artanque
as perguntas que me machucam a cabea. Esvazio a primeira gar-
rafa e ento espero perder a vontade de cobrar as desgraas a faca
e de artebentar a cara de meio mundo. Eu tenho essa inteno. Se
no consigo, no  culpa minha.
Eu estava trabalhando numa fbrica. De quem era a fbrica?
Nunca soube. Para quem eram as coisas que fazamos? No
soube nunca. Ando at hoje pegajoso do leo da mquina e de
noite ainda me zumbem as brocas nos ouvidos, embora j l se
vo uns bons quatro anos disso tudo. Veio a greve geral e eu, que
ia eu fazer, Virgem Santa? Que faria a senhora, digamos, em meu
lugar? Para fura-greves eu no nasci e garanto que a senhora tam-
95
bm no. Eu no me meto em poltica e dessas coisas no en-
tendo nada, mas se for para brigar, acompanho e brigo e do ca-
valo ningum me faz descer. Perdemos. Os que mandavam conti-
nuaram mandando e quem no gostar, vai preso. Me deram o fora
e me deixaram na rua para sempre. Eu fiquei plantado a tarde
inteira no porto da fbrica, agarrado s barras de ferro, e fechava
os alhos e pensava que punha uma bomba l dentro e acendia a
mecha eom um fsforo e contava dez, nove, oito, sete, enquanto
corria e corria e a fbrica arrebentava e voavam os pedaos pelo
ar e eu olhava as chamas de longe. No fim cansei de pet~sar nisso
e dei um chute no potto e uma pedrinha entrou no meu sapato
por um furo da sola.
E eu caminhei e eontinuei caminhando. Sempre apressadas
as pemas, como se tivessem algum lugar para ir ou procurando
algum lugar que fosse meu lugar, sem achar. Caminhei sem bai-
xar os braos, mundo acima e mundo abaixo, caminhante, vi-
vente, sobrevivente, com a desgraa fazendo sombra e com este
pnico de que um dia me encham de ar a pana ou a cabea.
No so lisonjas, Virgem Santa. So veraeidades. Para mim,
a minha prpria entrada no mundo j esteve errada. Os meus an-
tepassados eram prncipes guerreiros na frica, dali da fronteira
do deserto e da selva, Utopia se chama o pas deles, na esquina
do Nilo azul. Eram uns tipos muito poderosos, desses que fazem
chover furando as nuvens com a espada. Se v que meu nasci-
mento foi um erro e que eu no estava para vir aqui. No sou o
que sou e no me encontro: tenho isso eontra. Eu sei que este no
 meu lugar Aqui estou, mas no estou, Maria, Maria Auxilia-
dora, Me de Deus, e j tenho umas quantas psaduras no lombo.
Pisaduras, tenho. Outra coisa no. Tive meu pai, mas por
uns instantes, e deixaram ele morrer. Com ele, eu conversava.
Antes, lembrava as palavras dele, e escutava essas palavras cada
vez que sentia falta delas, a voz alquebrada dele, rouca, baixinha,
mas h anos a perdi e sinto falta: Eu, menino, me levantava
quando era muito de noite e saa no campo para buscar a gua
tordilha. Aqueles eram bons tempos. Eu cortava madressilvas
para adoar a boca com seu suco e  note no tinha medo, por-
96
que graas aos grilos a noite no estava calada e no era minha
initniga. Eu trazia a gua, armava a carroa e amos ao mercado,
trotando pelo caminho de terra, meu velho e eu. Ele levava as
redeas numa das mos e com o outro brao me apertava contra
seu peito, para que eu no sentisse o frio da madrugada, e me
falava ao ouvido para que eu ouvisse, porque o trote e as rodas
faziam muito barulho. O velho me falava de suas coisas tristes e
das patadas que tinha levado e voc vai ser mais forte que eu, me
dizia, vai ser forte como Tarzan, e quando voc for grande, me dizia,
vai fazer esses filhos da puta suarem sangue.
Eu agora chamo a senhora, Maria, para que me ajude e me
acompanhe para que eu caminhe bem pela ma e as coisas me
saiam direito esta noite e eu no tenha que voltar nunca mais 
desonra. Para esta noite temos um assalto. Eu sei bem que a se-
nhora no gosta nem um pouco dessas coisas, e imagino a cara
que estar fazendo ao me escutar. Mas no fao por infmia; fao
por necessidade. Ando nervoso e s, e estando assim me pereo.
Caminho por caminhar, comendo e descomendo, mas cada vez
com menos sorte e vontade. A senhora, que  sagrada, vai permi-
tir que eu continue comendo pedras? No  muita glria o que
peo. Tentei tudo e sempre pelas boas e meu expediente l no Cu
dar testemunho disso. Mas j sei que meu destino  outro e peo
que a senhora me d uma mozinha. Meu amigo Buscavida foi o
que conseguiu as dicas, que lhe foram passadas por um viado no
bar A Perversa de Paris, l embaixo, no sei se a senhora co-
nhece. No  um assalto difcil, mas eu me jogo numa parada
brava porque no tenho costume e no sou de crime. Por isso peo 
senhora, Virgem Santa, que me ajude. At quando vou viver de
mendigar, e em qualquer canto? Ando com medo de que numa
madrugada dessas no me saiam mais palavras da boca ou que meu
corpo se negue a mover-se, ou que eu esquea a alma na estao do
trem. Encontrarei meu lugatzinho? De que poo  este sapo,
Maria? De nenhum? A senhora, Maria, que premia e que castiga,
que acende e apaga o sol e derrama a chuva quando quer, lembre-
se de mim. A senhora deve ter muitos pedidos. Deve estar muito
ocupada, a senhora, Me de Deus e de todos os que sofrem, arran-
97
cando os espinhos do mundo, que so tantos. Mas lembre-se de
mim, se for possvel. Meu nome  Ganapn e sou muito macho.
29
Os dias seguintes foram dias de vertigem. Eu estava deses-
perado. Dormia nos nibus, no tinha roupa para trocar todos
eram perseguidores. Achava que podia salvar Fierro se conse-
guisse esparramar a notcia de que estava preso. No havia tempo
que bastasse, e cada esquina era uma artnadilha. Vi quem pude e
quem no pude. Senfia que havia um exrcito pisando meus cal-
canhares; desconfiava de minha sombra. Eu tinha negado a mim
mesmo o direito de me esconder. Falei com a mulher de Fierro e
com vrios amigos e advogados. A gente que podia ter feito al-
guma coisa estava toda escondida, presa, morta ou desterrada. Os
outros averiguavam, insistiam, e finalmente davam de ombros.
No h nada que possa ser feito, me diziam. Ningum sabia nada.
Eu no me animava a contar como tinham sido as coisas, embora
com certeza tivesse dito mais do que devia. Ou disse menos? No
sei. Sensatez, ou vergonha. Fierro estava oficialmente desapare-
cido e pronto. Marcava encontro com jomalistas nos cafs. A
nossa j era uma repblica de silncio. Ningum pde ou nin-
gum quis publicar uma linha.
Tinham fechado nosso jornal. Nossa gente estava dispersa e
o quarteiro rodeado por soldados com armas de guerta. Uma
madrugada, quando eu j devia vrias noites ao sono, minhas per-
nas caminharam sozinhas at minha casa. No passei da esquina.
Depois confitmei: estavam l dentro,  minha espera.
Antes eu tinha estado em sua casa, Clara, e tinha dito adeus.
Ia dizer: no me abandone. Mas disse adeus. No sabia o que
fazer, nem a quem perguntar. S sabia que no queria meter nin-
gum mais nesse baile. Estava sozinho, Clara, e no queria quei-
mar os outros em nada que no fosse a notcia de que Fierro tinha
sido agarrado vivo. Voc nunca entendeu por que, e acredite: eu
tambm no. Mas foi assim. Para no magoar voc? Para no me
98
pendarar em seus ps e arrastar voc comigo? Ou por minha an-
tiga e confessa incapacidade de compartilhar? Sentia-me intil e
culpado. Sei o que voc est pensando. Mas eu no queria fazer
um convite  desgraa. Por orgulho? Pode ser. No me defendo.
0 fato  que, no fim, j no restava nenhuma porta para bater e eu
andava  toa.
Andei assim, no sei, um par de semanas. Depois de tantas
voltas tambm ca preso. Era visvel, claro, que ia acontecer, e
acho que no fim no fiz muito para evitar. No sei.
Puseram-me de planto um bom tempo no quartel; quanto
tempo, no sei. No fim eu delirava e tinha febre alta e os ps
inchados como patas de elefante. As noites de agosto so muito
frias. Passei vrias noites e vrios dias; a gente perde a conta.
Mantinham-me com as pernas abertas e as mos atrs, amarradas
com utn arame. Quando dortnia, e caa, me levantavam com a baio-
neta. Tinham posto uma venda em meus olhos, mas toreendo 0
pescoo podia ver algo por baixo.
Escutava-se nada mais que relinchos de cavalos nos curtais
e, s vezes, gritos.
Houve uma voz que me ajudou muito, no comeo. Eu es-
tava no sei a quantas horas de espera e escutei uma voz que me
perguntava, bem de perto, em segredo: "Quantos anos voc
tem?". E me disse: "Para voc, vai ser um passeio. Vai agentar
fcil. Com cetteza. Como no vai agentar? Eu agentei e sou um
velho. Tenho trinta anos a mais que voc". Pelo vozinho debaixo
da venda consegui ver um joelho desfeito, todo inchado, em came
viva. Veio uma bota e chutou, chutou esse joelho que sangrava e
que tinha me dado fblego, e o corp caiu. Eu no me movia.
Depois, comearam os interrogatrios. Perguntavam-me de
Fierro. Mandaram-me para a mquina. A gente se sente muito
nufrago, Clara, muito completamente sozinho. Principalmente
quando fica nu. Porque eles esto vestidos, no ? Enquanto voc
tem a cueca no corpo, sente que  mais dono de si. E alm disso
eles podem ver a gente, mas a gente est encapuado, e os braos
e pernas deles esto livres e a gente est amarrado e doente pelos
dias e noites de planto.  desigual, e esse desamparo di mais
99
que os golpes. Voc est perdido de cara. E se voc tranca os
dentes e agenta sem falar, isso  muitssimo pior para eles do
que qualquer insulto, e se enlouquecem de fria se pelo menos
voc no chorar. Est tudo organizado para que voc se desmo-
rone antes que comece a dor
Perguntavam-me sobre Fierro. No comeo, sentia muito
medo e tinha que fazer um esforo feroz para que no tremessem
minhas mos e queria dizer alguma coisa e a garganta no dava
nenhuma palavra. Depois, o medo foi embora e eu me espantava
por estar to lcido e sereno. No por coragem, Clara: por uma
espcie de distncia que se abre entre eu e a situao que estou
vivendo, como se fosse outro, e  essa distncia que tranqiliza e
faz resistir. Eu no podia v-los, mas me olhava de fora, era meu
prprio espectador, e pensava e tirava minhas concluses entre
uma porrada e outra. Assim, descobri que eles no sabiam que eu
tinha estado com Fierro nos ltimos minutos. Algum, no sei
quem, tinha passado a ficha: eu andara dizendQ que ele eSt3~a
preso, e isso era tudo. Na verdade, tinham comeado a me buscar
bastante depois. Os primeiros dias de perseguio tinham sido de
puro delrio.
Ri de mim mesmo. Eles tambm sabiam, claro, que eu era
amigo de Fierro, e deduziram que nos encontrvamos, mas no
tinham certeza. Descobri isso e foi muito importante para mim.
Ajudou-me a agentar Isso significava que algum tinha dela-
tado Fierro: ele no tinha cado por minha culpa, ningum tinha
seguido o carro que me levou ao esconderijo e nosso encontro
tinha coincidido com o desastre por pura casualidade.
E outra coisa: soube que o tinham assassinado.
Cada vez que me lembro, ele morre outra vez. So muitas
as vezes que morreu e sinto dor cada vez.
Aquela noite, percebi de repente. O rabisco desse relm-
pago desenhou em meu crebro: Fierro est morto. Adivinhei
pelas perguntas. Confirmei quando cometi meu grande erro. Meu
grande erro, digo, e digo agora, mas no sei. Foi quando disse a
eles, sem gritar nem nada, que eu tinha certeza que ele tinha sido
preso porque eu estava com ele quando o levaram. Compreendi
100
isso em menos de um segundo e nunca senti tanta raiva e tanta
vergonha de ser inocente e nunca me bateram tanto e com tanta
fria. Desmaiei.
Despertei muito depois, chorando de vontade de merecer o
que estava acontecendo e pensava: e vo enterrar deitado um cara
como ele? E v fechar os olhos de um cara como ele? Pensava
que ele, que no tinha querido ficar bem com este mundo nem
com o que vem e tinha sabido escolher, incendiador mais que os
sis, e em seus restos, suas migalhas esparramadas pelo mundo, o
grande cara que ele fora, o tipo incrvel que tinha sido meu
amigo, e o via maior que Deus e mais macho tambm, e per~sava
que um morto daquele tamanho era demais para estes poucacoi-
sas e para os poucacoisas como estes que tinham artancado sua
vida. Os assassinos no eram dignos de um cadver to enorme, e
isso me dava asco.
Aquela noite, o resto no me importava. Nada. A torlnra e o
cansao no me importavam e tampouco a possibilidade da
morte. Nunca me senti to forte como naquela noite.
Mas houve muitas noites mais, e muitos dias.
Na parede, algum escreve: "No vi, no ouvi, no sei".
Conta-se, tremendo, os passos no corredor. Vinte e cinco, vinte e
seis, vinte e sete. Esto levando outro, e algum ser o prximo.
Eu. A mquina atravessa sua came e parte os ossos e arrebenta o
corao. s vezes, passa-se a fronteira do sofrimento e ento j
no se sente nada enquanto a coisa acontece, porque as dores se
acumulam e anulam-se umas s outras, mas depois voltam todas
juntas ao ataque, quando se fica abandonado no cho, e ento as
dores gritam por todos os poros, o corpo  um alarido, e por dentro
sente-se aos poucos que cresce um inendio que arrasa tudo.
Aprendi muitas coisas. Duas vezes fui mandado para o hos-
pital, e voltei. Aprendi muitas coisas que no sabia. Eu sabia que
a mquina foi feita para arrebentar os homens, mas no sabia que
 preciso defender-se das tentaes que a gente mesmo sopra
junto ao nosso ouvido enquanto a coisa dura. No sabia que vem
a tentao de salvar-se vendendo uma informao qualquer, e a
101
tentao de arrebentar uma janela e cravar os punhos nos estilha-
os de vidro, e a tentao de saltar de alguma janela alta.
A gente pode se dominar, e voc estar salvo enquanto
puder se dominar. Mas chega, de repente, o medo de ficar louco.
Voc est l, no cho, e sente que seu crnio se abre e de dentro
saem pssaros e porearias e voc ainda pensa, mas com pnico:
Eu no sou meu dono? Estou deixando de ser dono de mim?
Quem  meu don? A mquina? A mquina me derrotou? Isso 
pior que qualquer dor e mais triste que a morte. A morte  o
ltimo cartucho, e o que morre perde. Disso, eu sabia. Mas no
sabia que esse pnico  pior que a morte.
Pensava em voc, Clara. Ou no pensava. Voc vinha so-
zinha, para ajudar-me. Eu no chamava, mas voc vinha. Lembra
quando nos conhecemos e eu dei um encontro em voc e pisei
seu p? E caiu o livro que voc levava e nos agachamos ao
mesmo tempo e demos uma cabeada um no outro? E o primeiro
beijo, aquele meio-dia, quando se chocaram os culos? Voc vinha
sozinha e me ajudava.
30
Voc estava preso,  meia-noite, e na cidade um galo com
insnia cantava.
Voc estava preso e sozinho na sua jaula e queria dormir,
como se fosse possvel. As pemas de trapo pediam para dormir e
tambm a mo que tinha tremido, esta noite, ao agarta a colher de
madeira, e os olhos que ardiam.
Dormir no: mas voc conseguiu no escutar os gritos e os
golpes. Pela primeira vez voc foi longe da balbrdia desesperada
da priso, que era seu exMio, e uma moa chamada Clara foi seu
reino perdido e recuperado: ela vinha vindo, descala, nua: a ci-
dade estava deitada de boca para cima, e ela andava pelo peito da
cidade com passos secretos.
A que dizia a voc: apesar de tudo, e chamava voc de Pirata.
102
A que suspeitava do impossvel, mas preferia assim.
A que vinha de uma comarea onde as pequenas coisas fi-
nham toda a importncia do mundo: as coisas pequenas: uma gata
lambendo a pata esquerda, uma faca caindo ao cho, a crepitao
do fogo, a forma e o calor da cinza, o desenho da gota que desliza
sobre o vidro da janela, o excesso de sal na comida ou o fato de
haver nascido em fevereiro.
A que, quando pequena, perguntava s cascas de laranja
quantos filhos teria um dia, e ficava montando guarda ao rdio
para sutpreender os anezinhos que se metiam l dentro.
A que aceitou voc sem perguntas.
A dos olhos-tineis, que ria com dentes de coelho e tinha
uma trana negra que chegava  cintura.
A que fazia amor entre as velas acesas. Minha mo toca a
sua pele ou a sua pele toca a minha mo? A que fazia amor como
uma longa viagem num trenzinho de brinquedo que deslizava
pelas montanhas e mares.
A que foi capaz de se apostar e perdeu, mas com triunfo,
enquanto voc defendia-se de querer, porque isso bate duro.
A que com os olhos dizia: mas quero tudo, e dizia: mas
quero sempre, e mostrou a voc como no se mede o tempo nem
a liberdade e outras coisas que tambm foram tradas ou, talvez,
esquecidas.
31
- E, de repente, voc apareceu. Assim: pli~c, plac. Eu tinha
feito uma fogueira de So Joo.
- Estou com fome. Vou buscar mas. Quer?
- Bom.
- Espera.
- No demora.
103
- Um minuto.
- Tartaruga.
- Mariano.
- Qu?
- Chega uma?
- Traz a.
- Olha. Morde.
- Que suco. Uma maravilha, esse caldo.
- Tinha razo, no ?
- O qu?
- Ado, e tal.
-  mentira, isso.  a histria oficial.
- E voc, o que sabe?
- Todas as histrias oficiais so mentira.
- No diga.
- Digo.
- Voc estava l, para saber?
- Tenho boa memria. Lembro de minhas vidas anteriores,
uma por uma. Todas as vezes que nasci.
- Voc viveu muitas vidas?
- Calcule.
- E eu trabalhava, em sua primeira vida?
- Tambm.
- Trabalhava como?
- Uva. Porque na verdadeira histria do paraso, Clara,
havia uvas. O diabo passava as tardes devorando voc nas coli-
nas.
- E depois?
- Depois, voc era uma flor de papel em um chapu de
velha. Isso.
- E depois?
- Uma pomba. Manca e friorenta. Eu tinha recolhido voc
na rua, e levava voc no bolso do sobretudo, nas notes de in-
vemo, voc tiritava e mostrava a cabea na boca do bolso.
- Ufa, que hornvel.
- Ingrata.
104
- Odeio voc.
- Boba.
- Cretino.
- Obrigado.
- E voc?
- O qu?
- O que voc era? Na ltima vida que teve.
- Leo.
- Veja.
- E no pareo, Clara? Hein?
- Dejeito nenhum.
- Um leo com cara de preocupado.
- ~t
- Porque tinha comido uma mosca, de pura distrao, e a
mosca era minha nica amiga, e eu tinha ficado sozinho e andava
sozinho pelas ruas, todo chutado e jogado.
32
- Estou com frio.
- Fica assim. Gosto de ter voc assim.
- A pema. Aqui. Assim.
- Voc est bem?
- E voc?
- Muito.
- Ah.
- Rindo de qu?
- Para mim, foi uxna surpresa. Quero dizer: depois. Parecia
incrvel que o mundo no tivesse mudado. Me olhei no espelho e
eu tampouco tinha mudado e mordi os lbios. Quis estudar e no
pude. Quis estar com minhas amigas e no pude. Quis escrever
cartas, quis trabalhar. Quis dormir e tambm no pude.
105
- E  disso que voc ri?
- No tomei banho. Tinha seu cheiro por todo o corpo.
- Disso?
- No, no. Depois eu digo.
- Agora.
- No. Depois.
- No me interessa.
- Ento eu digo. Como gosto de voc. Isso.
- Isso? E eu ento?
- O qu?
- Muito mais que isso. Com voc, no sinto medo de nada.
- Olha que no sou nenhuma santa. Como as unhas. Estou
avisando.
- O medo  uma porcaria.
- Claro. Mas quem no sente medo?
- Voc sente?
- No jogue a a... no seja porco.
- Medo de qu? De que fiquemos assim, como estamos?
- No sei. Ou sei. Sinto, como qualquer uma.
- Mas juntos, no. Juntos estamos a salvo. Deixamos o
medo debaixo da sola do sapato e crash: pisamos nele como
numa porcaria qualquer.
- Escuta, Pirata. Prometa, Pirata.
- Escuto. Prometo.
- De verdade?
- Sim.
- Nunca vamos deixar que isso apodrea. Hein? No
vamos permitir nunca que isso apodrea.
- S isso? Nada mais?  fcil.
- No.
- No o qu?
- No  nada fcil.
- Se a senhora garante...
- E nunca vamos nos ferir. Voc promete isso?  perigoso.
- Deixar o couro na cerca?
- Mais ou menos. Pode ser.
106
- Tanta alegria.  um presente. Por que vamos nos machu-
car? No gosto que voc fique solene.
- Que horas so? Ui, h dezoito horas que estamos para
nos levantar.
- Vamos ~car doentes.
- Vamos evaporar
- Teramos de nos levantar.
- No amos no cinema?
- Quando foi isso: ontem? Anteontem?
- No amos descer para comer?
- Sim. Teramos de nos levantar.
- Isso  melhor que Buster Keaton.
-  melhor que tudo.
- No h nada que...
- Fica assim. Assim. Gosto de dormir assim.
- Voc vai acabar dormindo.
- No. Bobo. Quero que voc fique. Fica. Quero.
- Eu tambm quero. Quando eu era menino, era s querer
uma coisa com muita fora, para que acontecesse. Fechava os
olhos, pensava com todas as minhas foras no que queria, e
pronto: acontecia.
- Quando eu era menina, o que queria era um telescpio.
- Um desses grandes, que os astrnomos usam?
- Um enorme. Eu tinha visto um no museu. Como no
tinha telescpio, sempre parecia que tinha escapado uma estrela.
- E isso importava?
- Vivia desejando que viesse a guerra. Uma guerta bem
grande, para misturar-me com os japoneses e roubar o telescpio.
Algum iria arrebentar os vidros aos chutes e eu ia aproveitar e
escapar correndo com o telescpio nos braos. Mas, sozinha, no
me animava.
- Poderia ter tentado.
- E voc?
- Eu? Eu era catlico, quando era menino.
- Como  acreditar em Deus, Mariano? Nunca acreditei.
-  como acreditar na revoluo, acho. D a mesma ale-
107
gna e a mesma sensao de no estar sozinho: Quando eu era
menino, eu no sentia medo nunca. Mas um belo dia...
- Continua.
- No, nada.
- Gosto de escutar voc.
- Nada.
- Vamos, no seja mau.
- D um cigarro.
- Espera, no apaga.
- Quero dizer que um belo dia voc procura e ele no est.
Quero dizer, voc perde Deus como se perde uma coisa. Uma
coisa que cai do seu bolso. Como se perde um isqueiro, assim.
- Olha. Para mim, Deus era um senhor de barba que assus-
tava os outros.
- Para mim, no.
- Entendo.
- Era muito mais que isso, para mim. Ainda no sei com
que devo tapar esse buraco.
- Agora, quem ficou solene foi o senhor, Pirata.
- Pode ser. Perdo.
- Mas Mariano... voc est triste... ficou triste.
- No.
- No o qu?
- No estou triste.
- Claro que est.
- Sim. Estou.
- No precisamos falar tanto.
- No.
- A gente no devia.
- Estraga-se tudo por culpa das palavras.
- Sim.
- Olha.
- Qu?
- Os pssaros, na janela.
- Faz um tempo que esto passando.
- Vai vir uma tempestade, acho, e vamos nos molhar.
108
- Sim. Quando formos embora, vamos nos molhar.
33
Esperam que aparea na porta do caf. Esperam por ele
como a um cartegamento de mineral que surgir, de um momento
para outro, na boca de uma mina.
- Ele no pode demorar - diz Buscavida. Pra aqui. Vem
sempre, s oito da noite. A carta di7.ia. No pode demorar. Vem
tambm aos domingos, mas para a gente no adianta. Nas noites
de quatta-feira anda com a grana toda.
Hoje  quarta-feira, e ele no pode deixar a gente na mo.
- Voc no confundiu o caf, no ? - pergunta Ganapn.
- Ele j vem, j vem. Pode acontecer com qualquer um.
- So quase nove.
- Caf Medianoche s existe um - coriclui Buscavida,
com o olhar fixo no retngulo de vidro escuro da porta.
Do outro lado das grossas paredes de cal, no h nenhuma
alma. Dentro, se espartamam baralhos, dados e gros-de-bico
sobre as mesas de pinho, e h quem discuta futebol e cavalos e
fale das pessoas que se foram. De poltica no, porque soltam-se
as lnguas e pode acontecer que algum no volte para dormir em
sua casa.
Tambm h quem beba em p, contra o balco. O propriet-
rio, juiz e sacerdote, serve e vigia. Um, que bebeu demais, ba-
lana na ponta do balco enquanto ordena ao seu corpo, em voz
alta: "Quieto a, quieto a...".
O esperado chega com exatamente uma hora de atraso. Vem
da noite e do frio e traz o dinheiro da cobrana do dia todo, que
ele no se dedicou a revolver a areia do rio de ouro nem a peram-
bular debaixo de terras ricas em diamantes, e sim a apertar cam-
painhas e bater, de porta em potta, de tua em rua, ao longo de
109
muitas horas e cibras: sem burrinho, a p; sem alforje, com pas-
tinha de couro; sem lupa, de culos.
Embora o local esteja bruxuleantemente iluminado pelas
lmpadas de querosene, Buscavida reconhece-o em seguida. Os
sinais coineidem com o que dele dizia a carta que Hachabrava
recebeu do mar ou de algum porto da frica. Busca tem a vaga
sensao de que o conhece de antes, mas acha que deve ser um
desses dribles que o destino d na memria.
O cobrador senta-se sozinho, com a pastinha de couro negro
apertada contra os joelhos. Ganapn e Buscavida sentam-se com
ele: no responde ao cumprimento dos dois nem olha para eles.
Visto de perto, tem a pele rosada, como uma prola; brilha a
calva e brilham as gotas de transpirao e brilham os aros douta-
dos dos culos. Oferecem cigarros, os dois ao mesmo tempo.
Buscavida tosse. Ganapn faz eco.
Ganapn contempla, maravilhado, o tipo que est sozinho
na mesa do fundo. As pernas mortas do homenzinho no chegam
ao cho: agarra o copo pela borda, com os dentes, e sacode o
copo mexendo a cabea e devolve-o s mos, que esperam  al-
tura do peito. As mos, pssaros presos: agitam as asinhas, os
d~dinhos: o mal-aeabado est chamando-o. Ganapn faz que no
ouve, por causa do pnico de que o outro possa pedir ajuda para
urinar "Vem, vem", diz o paraltico, e Ganapn aponta-o com o
polegar a Buscavida: "Conhece? Est te chamando". Buscavida
,
sempre cuidadoso com os escndalos, se aproxima. Inclina a ca-
bea:
- No falem com ele da poca gloriosa - aconselha o
estranho, sussurrando junto ao seu ouvido. - Quando fala disso
comea a chorar, e depois ns, os amigos,  que temos de car-
reg-lo at sua casa.
- Quem? - Buscavida no entende nada.
- Flecha - diz o paraltico, irntando-se. - Quem queria
que fosse?
Buscavida concorda, como se soubesse de tudo. Quer dizer
que esse era o famoso Flecha. Flecha, que soube ser adorado pela
multido e eantado pelos poetas e gora  esse infeliz comido
110
pelas traas. Os focos da memria de Buscavida se acendem
todos ao mesmo tempo. Flecha. O heti da infncia e dos anos idos.
Volta  mesa com um papel ns mos:
- O senhor nos 'desculpe - diz ao cobrador. - Estamos
incomodando-o porque queremos um autografozinho.
Supe adivinhar um tpido resplendor de orgulho abrindo
caminho nas cinzas; insiste:
- Desde que ramos uns toquinhos - diz - que andamos
querendo um autgrafo seu. Ns amos sempre ao campo para
v-lo fazer gols. O senhor tinha as chuteiras cansadas de fazer
gols. Se eu me lembro... e como...
O cobrador afrouxa a presso dos dedos, presos como gar-
ras na ala da pasta de couro. Levanta a cabea; brilha a lente
esquerda dos culos, que  muito grossa:
- Verdade seja dita, que eu antes no podia nem caminhar
pela rua. Todos queriam tocar-me. Todos queriam levar alguma
coisa como lembrana. Onde eu parava, a verdade  que as mu-
lheres faziam fila.
T'mha pigarreado, eomo jorrando alento em lugar de pala-
vras. Pega o lpis, d uma lambida na ponta, e assina com alguma
dificuldade e muitas voltas. Buscavida dobra o papel amorosa-
mente e estende-o a Ganapn, com uma careta imperativa. Gana-
pn enfia-o no bolso desfiado de sua camisa de pano barato. Bus-
cavida ergue as sobrancelhas e diz a Flecha:
- Se soubssemos que o senhor ia aparecer, teramos tra-
zido um pergaminho.
Flecha vasculha a pasta de couro. Ganapn e Buscavida ar-
regalam os olhos. Ganapn acaricia, no bolso traseiro, a cabea
do martelo. Buscavida lhe dissera que trouxesse o martelo, para
no caso de o homem bancar o valente.
Da palma da mo de Flecha brota uma medalha com umas
fitinhas chamuscadas. "Eu passei necessidade, mas no quis em-
penh-la nunca", explica. Tira os culos. Aproxima a medalha
d_os olhos.
Buscavida toca seu brao.
111
- Tome alguma coisa, irmo - diz, e acrescenta: - Algo
que no seja gua, no?
- O senhor decidiu.
- Porque a gua vem do rio, no ?
- Claro, amigo.
- E no rio esto os peixes, no ?
- Exato.
- E os peixes passam a vida mijando, no  mesmo?
Buscavida ri sozinho. O garom traz umas doses de cachaa.
Flecha desdobra fotografias sobre a mesa. O passado estala,
a glria, as lmpadas de magnsio: clic, Flecha salta na rea pe-
quena, clic, vai cabecear, vai fuzilar, a bola ficar cravada no n-
gulo: a fama e o disparate de ser deus por este instante em que o
couro espera a testada, e Ganapn e Buscavida sentem que esto ~
escutando a multido arrebentar, abraar-se, chorar nas arquiban-
cadas, enquanto Ganapn pensa: " outro", e ante seus olhos des-
filam provas de que essa histria ocorreu, e Flecha contempla-se,
admirado, e espia as reaes dos dois.
Flecha fala de viagens e de regressos aos supetes. Recebia
ameaas, conta, e se cagava de rir. Recebia cartas annimas:
"Vamos arraricar a bala os dedos dos seus ps". Quiseram su-
bom-lo, mas este corao no tem preo: Flecha sorri contra um
cu esbranquecido, de ccoras, com a bola entre as mos, e, um
instante depois, pra a pelota no peito e d com a esquerda da
linha do cmer, e cai, e a bola sai voando com alegria e d utna
volta perfeita no ar e sacode a rede. Flecha conta de quando era
menino e jogava na praia com a bola amarrada nos ps, ele so-
zinho contra todos, e a areia chiava como se estivesse sendo lus-
trada, e conta outras coisas que ficaram penduradas no tempo e
na memria; e um pouco quebradas, tambm.
Os eopinhos de cachaa voltam a ficar eheios. O ambiente
cheira a tabaco. Na ponta do balco, algum recita a propsito
dos beijos. O poema termina proclamando que o beijo mais puro
 o que se d na testa do cadver da me.
Flecha guarda as fotografias e fala olhando para baixo, com
a vista na pasta de couto, barriguda de dinheiro alheio e fantastnas:
112
- Estvamos em segundo lugar e faltavam duas partidas. E
a maldio caiu em cima de mim e me esmagou. O doutor veio
para mim e disse: "Olha, Flecha, voc e eu temos de ter uma
conversinha particular". Convidou-me para comer em um restau-
rante desses de fazerem cair o queixo. Tinha pianista e tudo. O
doutor mandou trazer um garrafo de vinho que estava reservado
para ele. E me disse que era uma ocasio muito especial. Teve
sobremesa com fogo. Como eu ia dizer no? Ele era o presidente,
no ? Mostrou-me a chave e me falou do assunto e eu no podia
negar. O presidente do clube  mais ou menos o dono da gente.
- Claro.
- A chave era o prmio que me prometia. Mostrou-me a
chave e guardou-a no bolsinho do colete. "Se acabarmos cam-
pees, Flechita, dou a ehave a vc", disse. "Por uma noite, voc
vai ter a chave." Falou assim.
No balco, fala-se de dom Segundo Ulloa, pois jamais se
viu homem com mais amor-prprio que ele. Dom Segundo reci-
tava  meia-noite, e na hora em que se esqueceu da letra, na me-
tade de um verso, soube pr um fim em seus dias atirando-se de
cabea no braseiro, com roupa e tudo. Assim dizem os que esto
dizendo, e dizem que h testemunhas.
Mas o vozerio soa distante. Embora no estejam mais sobre
a mesa as pardas fotos cariadas de Flecha, Ganapn sente que as
imagens de antes predominam sobre o rosto desse tipo encolhido
pela humilhao dos anos, que continua repetindo sem emoo
sua histria tantas vezes contada e no de todo gasta at agora:
- Era a chave de um apartamento. Se terminssemos cam-
pees, eu ia entrar s dez da noite - em ponto - e ia orientar-
me como um gato no escuro, at chegar ao dormitrio. Ali, na
cama, esperando por mim, estatia o prmio. E aconteceu. Ganha-
mos o campeonato, e aconteceu. O presidente me entregou a
chave e eu fui. Meus joelhos tremiam. Os meus joelhos, de
homem sem medo! A moa estava toda nua, sobre os lenis, e na
escurido adivinhei que era lindssima. Enroscou-se em mim e foi
uma vfbora na cama. Coisa de cinema, aquilo.
113
Flecha aperta as plpebras. Limpa uma cinza que cara na
lapela.
- Mas havia duas condies que eu tinha de cumprir. No
podia acender a luz nem podia perguntar-lhe nada. Nunca saberia
quem era ela. E cumpri. No abri a boca. E andei na escurido do
quatto, sem ver nada; para que os olhos, por que eu iria quer-los?
Ri uma risadinha piedosa: "Eu precisava de outras coisas. E
tinha o que precisava. Ah! garanto que tinha. Sobravam".
Conta que havia um vu na cara dela, que soube ao acarici-
la, e que fizeram amor at s quatro da manh, em um s e longo
abrao. Quando tocou o despertador, ele foi embora, como tinha
prometido ao presidente. Afastou-se, caminhando muito tonto e
feito um trapo feliz, e ficou sentado na praia, de cara para o mar.
Tocava a areia e era um prazer. Tinha as pontas dos dedos carre-
gadas de eletricidade.
- At que o sol saiu e me abraou.
Buscavida d palmadinhas em suas costas:
- Parabns, companheiro.
- No me felicite tanto. Porque a foi que eu me perdi. E
agora, estou aqui - diz, como desculpando-se pela magreza e
tristeza e essa vida que leva.
- Conte, conte.
- Quer que eu conte o qu? Quer que eu continue revol-
vendo o punhal na ferida? - se queixa.
- Ento, no. No por isso. No conte, que no importa.
- E por qu? - irrita-se. - Se quiser, conto.
- Ah, claro, isso  claro!
- Se tenho vontade, conto.
- Nisso, voc tem razo.
- Quem quiser escutar que escute. Quem no quiser, que
v dormir.
Apia um cotovelo na mesa; acende um cigarro de filtro.
Protegido atrs das lentes dos culos, desfruta a expectativa de
Buscavida e Ganapn. Solta a futnaa e demora antes de continuar
Um gordo, chamado Bebo, todo vestido de branco e com o
rosto coberto de p de arroz, est cantando nasci, como 0
114
cravo do aaaar, beijoooou minha teeeesta o pampeiro, e quando
diminuem os aplausos o dono do caf opina que, a seu saber e
entender, a Gioconda do tango  Amurao, enquanto os outros
bebem, lustrando o balco com os cotovelos, e meditam sobre a
vida com o maior respeito.
Mas Flecha esvazia seu copinho de cachaa e continua:
- Porque depois, na festa, eu a vi. Houve uma grande festa
no clube para celebrar a vitria e eu a vi. Reconheci. Coisa es-
tranha. Senti que aquele corpo estava me olhando de longe. E me
aproximei. Ela estava conversando com um grupo e me aproxi-
mei para escutar sua voz. No tnhamos falado nada, mas a voz
era igual aos gemidos de alegria e aos gritos. Enfrentei-a e ficou
toda vermelha.
Cala, e modela a mulher no ar, com as mos:
- Eu no sabia que neste mundo podia ter nascido algum
assim. Era como eu acreditava, mas muito melhor. Ia falar com
ela, e fiquei mudo. E ento ficamos um instante assim, os dois,
,
olhando-nos, duros de assombro, e por fim pude dizer-lhe: "Al
misteriosa", e no agentei e belisquei sua pema. E foi ento que
fiquei sabendo. Ela era a mulher do presidente. A senhora do doutor
Ganapn no pisca nem se move; permanece alheio ao pala-
vreado do caf. O paraltico do canto est contando uma epopia:
"Pus o punhal no peito dele - conta - s a ponta, e logo vi que
no havia homem". O gordo plido canta o tango do "bulin que
ficou mistongo e fulero". Um copo se estraalha no cho. Busca-
vida olha o relgio de parede, entre o Corao de Jesus e a cara
de Gardel, e comprova que o relgio est parado e se pergunta h
quantos anos pararam os ponteiros.
Flecha sopra as mos. As mos ficam frias cada vez que se
recorda.
- Persegui-a - diz. - De dia e de noite. Chamava pelo
telefone esperando sua voz, mas ela nunca atendia.
O pomo-de-ado de Flecha desce e sobe.
- Montei guarda na esquina da casa. Ela saa de braos
dados com o doutor, e os dois riam. Um dia encontrei-a sozinha.
Cheguei perto e ela fez que no me conhecia. Olhou-me de lado,
115
simulando dio, e disse que ia chamar um guarda se eu no a
deixasse caminhar em paz. Mas eu no a deixei em paz e ela no
chamou a polcia. Eu no falava com ela. Olhava seu caminhar,
s isso, bem de pertinho, to linda que era. Caminhando era uma
gata humana. Nunca se viu coisa igual.
A voz fica mais espessa:
- Mandava bilhetes annimos para ela. Comecei a beber.
Eu, que sempre fugi da bebida e que nem cerveja provava. Me
embriagava todas as noites. Acordava ao amanhecer, em qualquer
lugar, enredado em uma cabeleira qualquer. No campo, no em-
bocava uma. Primeiro, perdi o entusiasmo de jogar. Depois, perdi
a coragem. Era chegar na rea e meus olhos ficavam enevoados.
Errava gols feitos. E desse jeito no podia continuar Fiquei com
medo. Eu, que nunca tinha sido apresentado a esse senhor Medo.
Fiquei com medo de ficar louco. O mdieo media minha febre e
me dava pastilhas. O presidente estava mais carinhoso que nunca:
"Mas Flechita, que bieho te mordeu? - me dizia. - Estou te
achando esquisito, Flechita". Quis comprar meu passe, mas no
foi possvel. Estava preso, por contrato. V saber o que diziam
aqueles papis! Fui perdendo amigos. Fui me perdendo. Perdi
tudo. D raiva, no ? Perder tudo sem ter apostado. Por que eu,
que tinha eu que ver?
- Nada que ver, nada - apia Buscavida.
- Ah, no? E naquela cama quem se deitou? Hein? Mongo
Aurlio? Fui eu, eu, eu - Flecha golpeia o peito com o dede
indicador
- Bem... claro... e no  feito de verdura... - consola
Buscavda.
- Feito de verdura? Eu? Eu, de verdura? Ah! - se orgulh,
Flecha.
- Quer dizer que acontece com qualquer um - insist
Buscavida.
- A qualquer um? A qualquer um, disse? Se at Deus ficc
verde de inveja, aquela noite! - indigna-se Flecha.
Aperta a pasta de couro e fica um momento em silnci
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Uma gota de transpirao escorrega lentamente e repica, plic,
contra a beira do copinho.
Buscavida pensa que da a pouco o cobrador vai estar ma-
duro para ser levado para fora e ser roubado at da dentadura
postia. Proclama, apontando para Ganapn:
- O homem, aqui,  um inondicional seu. E eu tambm.
Ns dois o queremos muito. Eu gosto muito do senhor. O senhor
no est sozinho. Como vai estar sozinho, o senhor .. O senhor,
para mim,  meu velho e minha velha. Os dois, o senhor . Os
dois ao mesmo tempo. Com isso estou dizendo tudo.
- Falar - interrompe Flecha -, falar, falar De que
adianta falar? Contar, agora, posso, porque j no importa. Mas
naquela poca, ia contar para quem? Teria me sentido muito ca-
nalha se tivesse contado para algum. Eu no podia. Contar
agora, de que adianta? Embora acreditem em mim...
Ganapn sente a boca seca, a lngua pregad ao cu da
boca. Toma um longo gole e decide que no usar o martelo.
Toma outro gole e decide que no bater nele, que no poder
bater nele de maneira nenhuma. Um inseto cai do forro. Busca-
vida esmaga-o com a sola do sapato.
- Sabe o que me gritavam? Me gritavam: se mata, ven-
dido, mafioso. Isso  o que me gritavam. Errava um gol e grita-
vam: "Com a ferradura, no!".
Varre a mesa com a manga do palet:
- Tinha l sua razo, a torcida, no duvidem. Eu chegava
no campo bbado e mal dormido e sempre tarde. Eu, que antes
soubera meter a bola l dentro, com goleiro e tudo! Mas no tinha
mais que trinta anos e estava artebentado. Uma tarde dei um
chute na bola e acertei a bandeirinha do crner Uma laranja
podre acertou bem na minha cabea. Fiquei com a cara escor-
rendo laranja.
Fica calado; a mo treme ligeiramente. Ganapn sente que
na cabea zumbem os bichinhos da culpa e do arrependimento.
Depois de um longo silncio machucado pelas vozes e risa-
das dos outros, Flecha recupera a mulher mascarada:
- Esse corpo, que me perseguia sem se mexer!
117
E lembra:
- Eu queria apag-la, e ela crescia.
E murmura:
- Teria pago qualquer dinheiro para comprar esse esqueci-
mento.
E conta:
- Mas no. No dava. Fiquei pendurado um ano inteiro.
Via os jogos do lado de fora, nas poucas vezes em que ia. S me
deixavam treinar de noite. No fim de um ano, ningum mais se
lembrava de mim. Ia nos jornais e me diziam: "Flechinha, tem
um cigarrinho a?". Ningum mandava buscar o fotgrafo. Pro-
metiam fazer alguma reportagem e no saa nada. No final, eu
fcava conversando cam os porteiros. Custava a me convercer.
Podia correr, pular, chutar, enganar, tudo como antes, mas sem
vontade. Uma tarde me puseram de titular em um jogo de merda.
Durei dez minutos. Na sada gritaram alguma coisa e briguei
contra a torcida inteira. Bati neles como quem lava e no passa.
Eram milhares. Bem, no sei; era um tremendo monte de gente.
Mas levei uma porrada de mau jeito e ficou este meu olho es-
querdo tapado por uma nuvem chovedora para sempre. Parece
que me rasparam a retina ou qualquer coisa parecida.
Passa a mo pela pele escorregadia. Buscavida pensa:
"Homem de dentes curtos, nascido para sofrer". Ganapn brinca
com o martelo entre os joelhos; entre gole e gole de cachaa, luta
contra sua conscincia, cai: "Fica quieta a, quietinha - diz para
a conscincia. - Isso no  assunto para voc". Mas  a Virgem
Maria quem est dizendo a ele: "Eu, deste negcio, me retiro. Eu,
com este, no tenho nada que ver".
Flecha esconde a cabea entre as mos, com o rosto cado
em sombras e umedecido pelo resfriado ou a emoo de estar
cruzando os furinhos da esfarrapada cortina do tempo. No cafj
no se canta nem se conta. Se conversa ou se discute:
- Aqui, todas as noites, h algum que diz adeus.
- E da?  errado querer comer todos os dias? Eu tenho
~ lhos. Sete. H trs meses que...
118
- V se me entende. Eu, que sou um vetet~ano com muitas
corridas curtas.
- O que o senhor me dissc no me adianta. O que est
dizendo agora, e.stou eseutando atentamnte.
- O senhor, cu respeito.
- E o senhor, cu tambm respeito.
- Assitn cu gosto.
- Agradeo.
- E cu digo. Daqueles que estvamos o ano passado, sem
ir mais longe, quando sobramos?
- Vamos sendo poucos. Essa  a verdade.
Se algum comea a fazer a conta...
- Ser que ns, que ficamos, ficamos para velar o dcfurtto?
- Probo-o dc falar assim da ptria.
- O senhor no  ningum para proibir-me de nada.
- Eu? Eu sou uma coisa especial. Como um. coronel,
venho a ser. Como um doutor.
- E sua palavra  abstrata.
- lsso tnesmo.
- Quc no se apalpa nem se toca.
- Completamente.
- Por isso digo. Estamos fcando vazios.
- No  essa a maneira de querer os outros.
- A est,  isso. Se todos comeam a se esparramar pelo
mundo, os compatriotas...
- Mas, por quc no nos larga a desgt~aa? Por quc est to
agarrada no nosso pcscoo, a desgraa?
A cabea de Flecha sc levanta outra vez, na lttz amarela dos
faris. Range a cadcira de madeira. "Tome mais uma", cz Busca-
vida; c o cobrador diz: "Esta volta, pago cu"; e Busca: "No
,
no,  mirtrta"; e cxplica quc estamos festejando um puto aconte-
cimento sumamente transeendcntal, e o sc:nltor no pode deixar
de unir-se, mcu amigo, e Flecha, sempre apertando a pasta, e
Bu.scavida sc oferece: "D aqui, cu seguro", Ihe diz, puxando
suavementc, mas a pasta  uma continuao dos dedos de Flecha,
quc ainda no cst vcndo em dobro c abraa-a, acalentando-a:
119
- Como ia contando - diz -, consegui um trabalhinho de
pedreiro e a cal me cortava as mos. No andaime, ficava tonto. .
Atiravam os tijolos para mim e eu no agarrava nenhum, embora
tivesse sido goleiro, quando garoto. E goleiro dos bons! Passei a
vender verduras, com um cavalo que eu tinha, que era um santo, ,
o pobre. Uma madrugada, duro de frio, escorreguei do estribo.
Ca de eostas. Fui parar no hospital. O eavalinho ficou me espe-
rando na porta. Roubaram ele. Depois, andei carregando sacos
em um moinho. No primeiro dia, eaiu em cima de mim um saco
de farinha, e novamente, fiquei na misria. Me trocaram de lugar.
Era uma gente boa. Me puseram para costurar os sacos, e eu es-
petava os dedos. No era gente tuim, mas eu nasci para fazer
gols, e fora disso no srvo para nada. Essa  a verdade verda-
deira. Em qualquer outra coisa, em todo o resto  eomo estar
vivendo a vida de outro. Este  que  meu problema. Que se
algum vive a vida de outro, vai mal. E isso naquele tempo, tinha
trabalho, havia empregos, no era como agora. Eu andava ro-
dando como uma bola sem controle, de emprego em emprego,
vivendo de favores, e no final ningum acreditava em mim,
quando eu dizia: sou Flecha; e ningum mais esperava nada de
mim. Ningum esperava merda nenhuma de mim.
Ergue o rosto desolado. Os dias se repetem e estamos no
outono; mas, que importa isso? Queria pensar que envelheeer foi
um erro, e convencer-se disso. Queria inventar uma culpa prpria
ou alheia para poder arrepender-se ou acusar e salvar-se da re-
pugnncia. Para no saber que no tinha existido nunca uma
chance de voltar atrs, porque no h idia mais suja do que a
certeza de ter nascdo para cair E cair aos trinta anos! Queria
voltar a falar de futebol, que  a guerra sagrada, ej no pode:
- Um belo dia - diz - ela apareceu. Ela no, o chofer.
Ela ficou no carro. No sei como ficou sabendo onde eu morava.
Eu estava em uma penso de ltima categoria, devendo trs
meses, estava l jogado em um catre fumando as tltimas guim-
bas, e ela veio no Packard azul, na hora da sesta. Os vizinhos
viram ela, e ainda devem estar se lembrando. Ela no desceu;
mandou o ehofer. Abriu-se a cortina que dava para o ptio e o
120
cara tirou o bon e perguntou por mim. Trazia um envelope na
mo. Nem me levantei nem olhei para ele. Estendi o brao. Escu-
tei o carro sair e depois agentei o dia inteiro, sem abrir o enve-
lope. Quando chegou a noite, fui caminhar, entrei num caf e
abri, aos pouquinhos. Eu pensava que dentro haveria uma carta.
Mas no. Havia notas. Isso  o que havia: dinheiro para mim.
Palavras, nada. Nem uma linha.
Os ombros vo-se levantando; a cabea vai-se afundando.
- E nunca mais soube - diz. - No sei que ter sido feito
dela. Nunca mais a procurei. No sei como estar, embora os
anos devam ter acabado com ela. Os anos passam por cima das
mulheres como um desses rolos de rua. Pobrezinha - diz -, ela
nunca entendeu nada. Pobrezinha. E eu - diz - eu consegui
este emprego. No posso me queixar. Embora caminhe demais.
H muito tempo caminho demais. Olhe - diz, e mostra as varizes.
Flecha tira os culos. As plpebras caem.
- s vezes - diz - a gente queria...
Os dedos, curtos  iguais, se desenroscam e vasculham o
mao de cigarros. O mao est vazio; a mo o amassa. O punho
de Flecha se retorce no centro da mesa.
- A gente s vezes gostaria...
Ganapn olha para sua cara. Olha a pele rosada e escamosa,
pele de pana de peixe, e espera, vigilante, o brilho do pranto.
- ... que sopre um vento louco na vida da gente. Isso eu
queria. Que soprasse um vento louco.
Mas o pranto no acontece. As vozes do caf desfalecem ao
redor e Ganapn sabe que j no adianta essa salvao, e que
perdeu: que no ficar rico essa noite nem noite nenhuma. J sabe
que no vai fazer nada. E sabe mais. Sabe que no permitit. E
diz a Buscavida, falando baixinho:
- Se voc encostar nele, eu te mato.
Buscavida insinua um protesto. Um utico faiscar de ameaa
nos olhos de Ganapn pra Buscavida.
Em seguida Ganapn pe o martelo sobre a mesa, desliza-o
at o queixo de Flecha, e diz:
- Isto  para o senhor. Um presente.
121
34
A ccla era mais baixa do que eu, de maneira que eu no
podia ficar em p sem dobrar a cabea. Tinha um cheiro pior que
o dos matadouros, a cela, e no tinha mais ar que no caixo de
um morto.
Eu continuava encapuzado. A gritaria atravessava os muros,
mas durante os longos dias sem luz eu tratava de distrair-me es-
cutando o zumbido de um inseto que se chocava contra as pare-
dcs. Nas noites, adivinhava os passos de um camundongo empa-
pado que vinha pelo cano me fazer companhia. Eu adivinhava
quando era dia e quando era noite. Pela rotina, suponho, o estalo
do ferrolho e a janelinha de ferro que se abria para surgir o prato
de comida, e pelas viagens ao banheiro, quando me levavam e me
traziam como uma coisa, uma coisa qualquer. No seu se distin-
guia por isso os dias e as noite, ou se por alguma outra razo
misteriosa. Gritos, sim, se escutavam a qualquer hora.
Tinham suspendido as surras. "J, j, a gente volta a falar",
tinham dito. Aos poucos, eu ia recuperando meu corpo maltra-
tado. Lambia minhas feridas. Caminhava muito. Quilmetros in-
teiros, Clara, feitos de tres passos. Mancava. Manco at hoje. Isso
no vai ter cura.
Com as pontas dos dedos, lia as mensagens que outros ti-
nham deixado, com unhas ou botes quebrados, nas paredes.
Todos sentimos, sabe-se l por que, essa necessidade de escrever:
estive aqui.
Dormia no cho, em cima do palet. ~icava esperando que
viesse algum sinal, l de fora. Adivinhava ou tentava adivinhar
sons que no fossem os rudos da dor Tudo que eu ouvia era
filtrado e acumulado. Como ao acaso, esperava que algum
viesse falar comigo, mesmo que fosse para dizer: filho da puta,
122
mas no vinha ningum. Eu contava os dias que passavam, so-
mava, subtraa, calculava, e pensava nos anos que iam me roubar.
Conversava com uma colher
O capuz tinha cheiro de baba e eomida fermentada. Cheiro
de baba alheia; de fermentos de outros.
Um dia me tiraram da cela. Puseram-nos caminhando em
fila indiana, cada um com a mo no ombro do que ia na frente.
Fazia no sei quanto tempo que cu no tocava um ser humano.
Quero dizer: os guardas me agarravam pelo brao para me carre-
gar, mas isso no contava, no , Clara? Fizeram a gente cami-
nhar em fila e depois nos puseram de costas contra a parede. Nos
anunciaram duas horas de reereio. Falar , estava proibido. Mas
podamos arrancar nossos capuzes. Podamos correr e pular.
Quando tirei meu capuz, senti que recuperava a metade de minha
liberdade. A luz me ofuscou. Vi uma parede nua e um homem
com uma pistola na cintura. Descobri o cu, o sol que nos quei-
mava os olhos; l em cima havia soldados com fuzis. Vi outros
soldados, vi cachorros. Ento olhei para os lados, vi as caras dos
outros presos, todos ns pobres e nervosos, as barbas, as calas
sustentadas por barbantes, uma moa que tremia e outra que ta-
pava os olhos com as mos, e mais de um que parecia aniquilad.
Fez bem, para ns, nos reconhecermos. Olhvamos piscando.
ramos quase todos jovens. Muito jovens, alguns. Bastava dar
uma olhada para saber quais tinham sido transformados em ve-
lhos aos vinte anos: em que casos a mquina tinha triunfado.
Havia um, soube depois, que tinha sido quebrado para
sempre. Tinha sido levado para a mquina, depois de ter contado
tudo, e tinham feito com que sentasse debaixo de um facho de
luz, ali entre os tanques, as tbuas, as correias, os trapos e os fios.
Na escurido, atrs de uma trelia de madeira, estava sua mulher,
e ele no sabia. Ela no o havia reconhecido, no comeo, quando
foi obrigada a olhar para ele. Estava muito magro e barbudo, e
tinha as costas muito encurvadas. Ela no tinha reconhecido a
voz queixosa, que choramingava: "Por que estou aqui? O que vo
fazer comigo? Eu j contei tudo".
123
-  preciso repetir tudo, disseram. Voc ter de repetir
tudo o que nos dis.se. Tudo o que nos disse de sua mulher.
- No. No.
- Dela. O que nos contou dela. Diga.
- J fiz com que ela sofresse. No quero faz-la sofrer
mais. No vou...
- Voc tem de repetir o que contou.
E ele repetiu. Acusou-a. E ento lhe disseram:
- Ela est a, escutando o que voc diz.
E ele comeou a chorar
- Fale com ela - lhe disseram. - Diga o que tem para
dizer.
Torceram-lhe o rosto, e ele falou para a escurido:
- H trs testemunhas - disse. - J se sabe tudo. No
faa com que te matem. Isso no ajudar ningum.
E chorava. Ento, a trouxeram. Puseram-na diante dele. Ela
em p, nua, e ele sentado, olhando para o cho.
- Salve-se.
E chorava.
- No faa com que te matem. Salve-se. Eu te amo.
Ela no dizia nada. Ele levantou a cabea aos poucos e viu a
cruz feita com as pontas dos cigarros marcada no ventre e viu seu
lbio partido, mas no viu as outras marcas que a mquina dei-
xara dentro e fora de sua pele.
Ele quis erguer um brao e no pde. Pediu-lhe perdo. Per-
do, disse. E ela olhou para cle. E ele in.sistia:
- Perdoa-me. Voc tem que me perdoar.
Ela olhava para ele. Olhava sem pestanejar. E no lhe dizia
nada.
Agora ele estava ali, no ptio, junto a todos ns, e eu no
sabia quem era. Soube depois que tinha querido se arrebentar
contra a parede, e tinha-se atirado e sido devolvido. A parede
estava forrada de espuma de nilon. Agora eu o via ali, onde est-
vamos todos, sem capuz, olhando sem ver: perdido.
Pelas roupas era possvel saber qual o momento exato em
que cada um tinha sido caado.
124
No comeo, ningum se animava a dar o primeiro passo. De-
pois um se animou, e outro, e nos movemos quase todos, menos
alguns que ficaram pregados na parede, tremendo. Os que po-
diam correr comearam a ehutar pedrinhas e armou-se uma par-
tida, com gol e tudo, e eu pude trotar um pouquinho. Fizemos os
gols com os capuzes, para poder pis-los.
Logo ficamos cansados. Estvamos transformados em merda.
Ento sentei-me de ccoras, junto, muito junto dos outros,
todos tocando-se, e disse a mim mesmo:
- Vou fugir. Juro que vou escapar daqui. Ou escapo ou me
mato ou me matam. Juro.
Levaram-me de volta  cela sem capuz. Podia ver o mundo
por um buraquinho. O mundo era um corredor, mas isso ajudava.
Pouco tempo depois me mudaram de quartel. E eu sempre
com a idia da fuga ocupando-me toda a cabea. Bem sabia que
tinha que me apressar para salvar o que restava de mim. Tarde ou
cedo, mais cedo que tarde, iria voltar  mquina. Eles mesmos
avisavam. No tinham pressa; eu, sim. Eu estava me recons-
ttuindo e eles iam arrebentar-me outra vez, para sempre.
O tempo estava carregado. Aquilo era o infemo, e cada hora
que passava eu sentia que entrava uma nova bala, clac, no tambor
de um revlver invisvel e gigantesco, pronto para disparar. Ou
atirava eu, ou atiravam eles. Passava os dias e as noites fazendo
planos, medindo distncias, calculando, averiguando o que podia
e adivinhando o resto. Eu estava sozinho, mas dava um jeito para
juntar informao a partir de qualquer barulhinho ou dado solto.
Eu era utna bala perdida, e isso estava a meu favor: se partisse,
no prejudicava ningum.
Inventei muitos planos brilhantes e inteis. Cheguei a pen-
sar em cortar o couro dos sapatos para poder cala-los ao contr-
rio, como faziam os cangaceiros, com a ponta do p no lugar do
calcanhar, e despistar as pegadas.
Dormia com a cara apontando o lugar onde imaginava que
estava a cidade, e, nela, vocs.
As pernas j respondiam bastante bem. Mancando e tudo,
podia correr Estava muito fraco, pura pele e ossos, mas podia
125
correr. Corna na cela, sem sair do lugar. Teria de correr muito, se
as coisas dessem certo.
Pensei num par de chances e escolhi a mais difcil. Porque
comecei a suspeitar: e se fosse uma artnadilha para me matar? A
fuga seria uma boa maneira de me matar. Um modo cmodo. A
essa altura, muita gente j sabia que eu estava ali, embora eu
continuasse isolado. Escolhi a mais bt~ava e me mandei. No
agentava mais, Clara, e o que acontecesse no me importava.
Dobrei as barras de ferro da janela, fazendo alavanca, com
muito trabalho, depois cortei os fios de metal tranado. Tinha
conseguido com que cortar e dobrar. Deixei um embolado de len-
is debaixo do cobertor e escorri pelo buraco da janela. Estava
muito magro. Como uma cobra, deslizando, subi a um dos cipres-
tes que se alinhavam contra o barraco. Ento esperei e pensei.
Os refletores roavam meus ps. Quero dizer a voc que quis
esperar e quis pensar, mas no podia nem ver nada, tamanho meu
medo. Do outro lado do muro, eu sabia, estavam os guardas, bem
armados. Em qualquer momento os carcereiros sentiriam minha
falta. Esperava, apertando os dentes, o grito da sirene.
Desci de rvore em rvore at subir no topo do paredo.
Caminhei agachado pelo alto do muro, como pude. O topo do
muro estava crivado de pedaos de vidro, fundos de garrafa, esti-
lhaos, que me cortavam as mos e as pernas. L embaixo, os
soldados da guarda iam e vinham; se cruzavam a cada vinte pas-
sos. No podia demorar. Mas fiquei muito tempo, mais de uma
hora, acho, l em cima, agachado, juntando fora e coragem para
saltar. No via outra coisa alm da luz jorrada pelos refletores,
passando pertinho de mim. No escutava outro rudo alm das
batidas do meu corao e da minha respirao apressada, e
achava que o mundo inteiro deveria estar escutando a pulsao
feroz de meu medo e falava para mim, baixinho, me dizia: puta
que pariu, irmo, voc  um cago.
Tudo iria depender da sorte e dos nervos. A surpresa era a
inica coisa que eu tinha a meu favor: com uma pema e meia, iria
cair entre os dois guardas, atravessar o corredor, saltar o muro da
126
rua: iria esperar um milagre. Tentaria distrair os guardas com uma
pedrada; estava apostando que ia paralis-los de susto.
No me animava. Passava o tempo e no me animava. Era
uma loucura. Sim, era. Mas no podia me arrepender, se ainda
quisesse sair vivo. Dei razo ao medo, para domin-lo, e pensava:
Onde iro me fuzilar? No ar? No cho? Correndo? Qual desses
dois vai me matar? O baixinho? Uma vez, o cara parou e correu o
ferrolho do fuzil. Gelei. Esperou e continuou caminhando, e pen-
sei: sim, esse baixinho de merda vai me matar. Veio a troca da
guarda. Agora eu teria outros assassinos. E, claro, poderiam
matar-me das guaritas colocadas em cima das torres, se eu conse-
guisse chegar l fora, e ento eu ficaria com vontade de ver a cara
do tipo que me mandasse para a morte.
Decidi deixar de frescura e contar at cinqenta e tchau.
Contei at cem. Fiquei erguido em cima do muro e atirei as pe-
dras que tinha trazido, atirei longe, com toda fora, e houve uma
exploso de vidros quebrados e escorreguei pelo muro e corri
como um louco.
E me salvei. No sei como. Voei. No sei como. Escutei que
gritavam "alto" e palavres, e depois tiros e depois latidos mistu-
rando-se com os tiros. Tinham soltado os cachorros atrs de mim.
Comeava a caada. A sirene de alarma me perfurava a nuca,
como uma broca. Zuniam as balas. Os refletores varriam a terra 
minha volta.
Entrei no cemitrio. Tropecei numa cruz e fui de eara no
cho. Continuei correndo, enlouquecido, tateando a escurido,
todo lanhado pelas chicotadas dos galhos das rvores. Sentia os
cachorros mordendo meus calcanhares e os chiados das balas ro-
ando perto e eu aos pulos, desviando das tumbas, tropeando,
levantando antes mesmo de cair e correndo com tudo que podia.
No meio da cornda arranquei a camisa e atirei-a num buraco.
No havia lua.
Eu cortia e pensava: me matam, vo me matar, estou ca-
gando para eles.
Saltei a cerca de arame do cemitrio e quando quis evitar
no deu, j estava me agitando no arroio. T'irei os sapatos e atirei-
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os para a outra margem, bem longe, para confundi-los. Afundei a
cabca na gua apodrecida. Andei no sei quanto caminhando ou
nadando contra a eorrente. Cada vez que punha a cabea fora
d'gua, ouvia as rajadas e os gritos de caada. No sei quantas
horas isso durou, mas eu seguia obrigando as pernas, empur-
rando-me, afogado, com o ltimo flego, e sentia que no dava
mais e os msculos me diziam: at aqui, chegamos: mas eu conti-
nuava. Continuava e continuava, contra a corrente.
O cu j estava elareando quando sa do arroio. Iam-se apa-
gando, longe, distantes, os rudos dos perseguidores. Eu cami-
nhava aos tropees, sonmbulo de tanta alegria de ser livre.
Atravessei um descampado. A pema manca, muito machucada,
no obedeceu mais. Desmoronei na margem de um depsito de
lixo, e fiquei deitado, de boca para cima, em cima do mato.
Minha cabea ardia e sentia uma agulhada feroz nas costelas: res-
pirar era um triunfo. O corao, pobre armal, queria escapar.
Minhas mos doam e as pemas e os ps. J no sentia pnico.
Percebi que minhas mos sangravam, muito. Estavam arrebenta-
da.s. No tinha fora nem para arrancar as lascas de vidro das
palmas das mos. Graas s mos, que tinham se estuporado
quando eomecei a escorregar do alto do muro, as pemas tinham
conseguido no se arrebentar na hora do pulo.
Eu estava com o corpo todo quebrado, e me perguntei como
 que as pemas tinham conseguido levar-me at ali. Comeava a
perceber. No tinha tido tempo para sentir nada. Achei que tudo
tinha sado bem, manco e tudo, e me disse: parabns, compa-
nheiro. Achei que Deus  grande, mesmo que no exista. Pensei
que deveriam ter-me procurado nas tumbas, onde alguns bbados
e ladres passam as noites. E que estava tima a gua do arroio,
com toda aquela merda e aquele barro e aquele lixo.
Estava feliz. Antes de fechar os olhos vi as estrelas no cu
de vero. Nunca houve tantas estrelas no cu. No sobrava ne-
nhum pedao descoberto. O pasto estava molhado e cheirava
bem. Contra o horizonte, nebulosa, comeava a surgir a cidade.
Vi a cidade, ou imaginei-a. No sei. Vai ver eu quis que a eidade
estivesse l, por causa de tanta alegria.
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Sentia muito frio. 'imha andado espalhando roupa por a c
estava meio nu. Com a primeira luz, ia subindo um calotzinho.

No soube mais nada.
Acordei com o focinho de um cavalo. Nem o susto pde me
mover. Consegui erguer a cabea e em seguida o cho golpeou
minha nuca com violncia. Via tudo enevoado. Atrs do cavalo,
na carroa, havia algum. Uma mancha grande. Escutei uma voz.
Palavras quebradas. Passou um sculo. Senti o sol esquentando
meu corpo. Escutei outros rudos, confusos, que vinham me per-
seguindo h anos. Depois, a mancha inflou-se, soltou-se do carro
e veio e tapou o cu. Senti que algum me erguia nos braos. Um
j rudo de passos no pasto. Meu corpo no ar. Afundei numa mon-
tanha de garrafas e papis. A montanha se mexia, e eu com ela.
Adiante, trotava o cavalo.
j Abri os olhos e no soube onde nem quando. Estava debaixo
de um teto, isso sim. No cho, coberto por uma manta fina. Quis
apoiar-me nos cotovelos e um claro estalou em minha cabea.
De uma cadeira, um negro grandalho estava me obser-
vando, com certo descuido. As mos estavam balanando em frente
aos seus joelhos. Fazia um cigarro.
Vi seus braos fortes e uma cara muito simptica, de menino
gigante. Quis dizer alguma coisa, e no pude. Estar aconiado me
deixava tonto. Compreendi que dependia daquele homem que es-
t<~va me dissecando e no tinha nenhuma razo para me dar. Va-
gamente compreendi isso.
- Andam muito inquietos - disse o negro, ou disse al-
guma coisa parecida, e mexeu a cabea. Eu no sabia de que
estava falando.
Deu uma lambida no papel do cigarro, acendeu, e me per-
guntou:
- Como vo essas mos?
Olhei-as. Tinham sido vendadas com trapos.
Isso foi tudo que ele me perguntou.
Fiquei l uma semana. Ele finha sido operrio, operrio do
metal, e tinha perdido o trabalho na grande greve. Agora vivia do
129
lixo que juntava com a carroa. Tinha filhos de vrias mulheres, e
um cavalo, que se chamava Pocaspulgas.
No rancho ao lado havia uma vaca. Me davam leite recm-
ordenhado.
Quando consegui caminhar; fui embora. No disse adeus.
Isso  algo que continuo devendo.
35
Ela surge de uma fogueira de fogo branco no centro do cu.
Ela  uma fumaa branca que anda, uma fumaa brilhante cami-
nhando pelo ar: vem at Ganapn, vai se aproximando, descendo
de nuvem em nuvem pelas escadas do cu, e quanto mais pr-
xima est, menor , e mais mulher
Ganapn levanta-a na palma da mo. Agora ela est na al-
tura dos seus lbios. Ela o cumprimenta erguendo com dois dedi-
nhos seu manto bordado. No  mais alta que um fsforo e est
toda coberta de jias, dessas que Papai do Cu fabrica l em
cima. Tem uma coroa de estrelas e uma cara muito simptica,
cara de santa meio bandida.
Pea o que voc quiser, diz. Ganapn pede po e vinho.
Comem juntos. Para ela, uma migalha  suficiente. Vinho, no
aceita. Mas depois ele a convida para danar e ela  um mims-
culo pio de luzes coloridas fazendo ccegas no brao dele, e
riem juntos e Ganapn fica tonto, feliz de tanto dar voltas entre as
nuvens. Finalmente caem sentados, mortos de rir os dois, e ela se
estende no ombro de Ganapn como se fosse cama ou grama e
adormece com as mos sob a nuca. Ganapn a contempla tor-
cendo o pescoo. Quando ela desperta, ele a acaricia com a unha
do dedo mindinho e pede: tire a roupa, por favor Vamos, tire a
roupa. Mas ela fica rubra e cobre o rosto com o manto. Depois
escorrega at a orelha de Ganapn; ele sente seus pezinhos desli-
zando sobre a pele. Ela se acomoda na orelha de Ganapn e fala
em segredo. Faz uma promessa.
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Ento ela diz adeus com a mo e sobe e sobe voando at
desaparecer nas altas regies proibidas. Ganapn a persegue pelo
universo, montado num cavalinho de madera.
Na metade da viagem, as sacudidelas de Buscavida acor-
dam Ganapn. Que pisca, esfrega os olhos, grunhe e se espre-
guia. A praia brilha, infinita, entre as pemas abertas de seu
amigo. A cabea de Buscavida est roubando de Ganapn um
pe;dao da lua amarela.
- Ns no vamos ficar aqui a noite inteira, n? - diz Bus-
cavida. - J  hora de... levanta, porra.
- Est lindo, aqui - diz Ganapn, e seu corpo de gigante
roda sobre a area gelada. Tem o peito nchado de felicidade, des-
frutando ainda o fugaz esquecimento da fome e dos enganos.
Das ondas se erguem, am altas coroas, vapores de espuma.
Na luz da lua, a distncia, um pssaro exibe um peixe de ptata no
bico. No longe da costa, deslizam os faris dos pescadores. Os
pescadores batem no fundo de suas canoas, que  sua maneira de
chamar as corvinas. Atrs das rochas, ergue-se o negro casco des-
mantelado de um barco que h muito tempo naufragou.
Ganapn diz:
- Ela apareceu enquanto eu dormia. Vi direitinho, e senti.
No foi um sonho. No foi um desses sonhos batatos que s ser-
vem p'ra gente jogar no bicho. Foi muito mais que isso.
Ganapn se levanta e procura a Virgem Maria nas vizinhan-
as da lua: imagina que ela deve estar por l, deslumbrante, nas-
cida para no morter, descansando pertinho da outra mulher de
pedra fria que, com o tempo, desmoronar como ns.
Buscavida cai aos ps de Ganapn e se persigna, mas Gana-
pn no d confiana. Diz:
- Ela vai me encarregar de uma misso, um dia desses. E
nos sculos futuros vai tomar a me mandar ao mundo, para salvar
os pobres que forem restando.
Buscavida se agacha e revolve a areia. Quer encontrar o
parafuso que Ganapn perdeu. Mas Ganapn fala com voz cur-
tida e poderosa e os olhos muito abertos:
- Entre os milhares e milhares de milhes de viventes -
131
diz - ela me escolheu. A mim, pobre pssaro sem ninho. A mim,
que nunca tive onde cair morto. E s para mim, o privilgio. Fez
de mim o maior. Um prncipe. Isso, wn prncipe, ela fez de mim.
Buscavida bate na testa. "At quando vou te agentar?",
grita. "At quando? Ganapn continua, impvido:
- Eu pedi a ela que no volte mais. Mas ela vai voltar do
mesmo jeito. De to boa. Porque eu disse: no volta. Eu no
tenho nada para oferecer, neste mundo.
Enquanto Ganapn discursa, Buscavida agarra um caran-
guejo. Se aproxima pelas costas de Ganapn, devagar, e joga o
caranguejo no colarinho do amigo. Ganapn d um salto desco-
mmal.
Dobrando-se de tanto rir, Buscavida no v o perigo se
aproximar. No v o golpe. Cai de bunda no cho e em seguida
Ganapn esmaga suas costelas com wn p. Buscavida, impotente,
se retorce no cho; abre os braos, pede perdo. Ganapn ergue-o
pelo pescoo, com uma mo, grita, como se estivesse mordendo.
Buscavida pedala no ar; grita: me larga, me larga. Ganapn larga.
Choramingando, Buscavida agarra as prQprias orelhas.
Gemc:
- Quem voc acha que ? Meu pai?
Vai sentar sobre uma pedra. Passa um leno pela testa e o
pescoo. Pentea a cabelera. Penteia o bigode escasso.
- Eu ia te dizer que voe  um bola-murcha, Ganapn.
O negro se aproxima. Perigo.
- Eu a te dizer que voc  mais chato que chupar prego.
Ganapn solta fumaa. Est a um par de passos. Chega.
~ Mas no tenho esse direito, Ganapn. Eu no posso te
dizer nada. A culpa  minha. Voc no tem um cigarro?
- No.
Buseavida conta as moedas que sobraram no seu bolso.
Atira todas para cima, recolhe na palma da mo.
- Cinqenta, dez, vinte. Cento e trinta pesos. Que merda
ganho dizendo que a culpa  minha? Podia te chamar de filho da
puta. Voc merece. Mas o que  que eu ganho com isso? Cento e
132
trinta pesos. No d nem para comprar uma droga de um po.
Enhm, eu quis me meter, a est...
; Ganapn senta-se ao seu lado. Coloca um caracol grande
contra o ouvido e fala como num telefone:
' - Al! Al! O doutor Buscavida est?
j Buscavida acaricia as moedas.
- No estou para palhaadas.
As moedas deslizam entre seus dedos e caem sobre as pedras:
-  possvel fazer com que dem cria? - pergunta, se
queixa Buscavida - Passei minha triste existncia querendo ave-
riguar como  que se faz. Como se faz, Ganapn, para fazer a
grana dar cria?
Ganapn apia uma mo em seu ombro:
- Tambm no  assim - diz. - No  para tanto.
- Ah, no. Que esperana. Desde o princpio dava para ver.
Desde o pique. Desde ontem  noite eu vejo que o mar no est
pr'a peixe.
- No perdemos nada - diz Ganapn. - Voc no est
mais rico do que antes.  verdade. Mas em compensao, tam-
bm no est mais pobre.
- Voc no perdeu nada - acusa Buscavida. - Voc no.
Quc vivo. Voc  um cara de cimento, Ganapn. Quem ps a
grana para pagar os tragos daquele tal de Flecha? Quem vendeu a
viola? Esse assalto era como favas contadas. Eu mereo isso
tudo, por ser trouxa. De trouxa.
- E o que  que voc quer - diz Ganapn. - Pelo menos
no cometi nenhum delito.
- O que voc cometeu eu estou querendo saber. Mas, e eu?
Que direito tenho de dizer a voc que voc no passa de um im-
prestvel de merda? Nenhutn direito, Ganapn, nenhutn. Para que
sirvo eu, no sei. Voc  mais intil que teta de homem, mas eu
no levo nenhuma vantagem, no vai ficar pensando...
- Est bem. Voc vendeu a viola. Muito bem. Mas...
- Muito bem o caralho, muito bem. Muito bem porra ne-
nhuma.
- Mas diga uma coisa: essa viola que voc vendeu era sua?
133
- Claro que no. Nunca tive viola.
- Ento.
- Ento o qu?
- No sei. Estou s dizendo.
- Ah.
Buscavida se envolve em seus prprios braos. Ganapn
continua tentando explicaes e consolos. Buscavida vira-lhe as
costas.
- No - diz Ganapn. - No  culpa sua. Se voc tivesse
ido  Cidade Grande, como queria, agora no seria mais um la-
drozinho fracassado.
Buscavida, tocado pelo raio da ofensa, salta como uma
pulga. Manda Ganapn  merda e corre. Pra e grita: voc  um
bosta. Se descala e atira um sapato em Ganapn. Depois, pedras.
Ganapn pestaneja; no reage. Gostaria de entender, como s
vezes acontece, mas no consegue.
Nisso, escuta um gemido. A meio quarteiro, Buscavida
pula num p s, desesperado de dor: tem um anzol enganchado
na planta do p. Ganapn se aproxima, levanta-o nos braos.
Senta-se sobre uma pedra e afunda o p de Buscavida na gua
salgada. O p de Buscavida se contrai como um animalzinho as-
sustado. Buscavida agarra o tornozelo com as duas mos, se
queixa, envolve o p no leno. Imagina infeces terrveis e um
futuro eom perna de pau.
Ganapn no lhe d muita confiana. Contempla o anzol,
examina. Est amarrado a uma linha longa, comprida, de quali-
dade. Pensa: at que vale a pena experimentar No se perde
nada. Embora seja sem vara.
- Seria bom levar um peixinho pr'os meninos - prope.
- Com as mos vazias no vou aparecer. Numa dessas, de re-
pente, a gente apanha um peixinho. Quem sabe.
- Assim, a mo? - caoa Buscavida. - Voc acha que
cles so como voc, os peixinhos? So  muito vivos. Eu passi
um ano nessa jogada. Entendo alguma coisa. De recolher lixo no
entenderei nunca, mas de peixe entendo. Se cheguei at a ter es-
camas no corpo...
134
Ganapn no responde e se afasta caminhando at o faro-
lete, que pisca  sua espera. Em uma perna s, Buscavida vai
atrs. De m vontade, cuspindo com raiva; mas vai atrs.
Jogam a linha das rochas do ponto, em frente ao barco
naufragado. O casco, forrado de mexilhes e brilhante de musgo
e salitre, parece estar logo ali, ao alcance da mo.  fcil adivi-
nhar que foi arrebentado pelas rochas.
Ganapn conversa. Espera que algum peixe distrado morda
a came do caranguejo e d um puxo, e enquanto isso conversa,
fala de mulheres, to lindas que so, e do tempo que faz desde a
ltima vez em que dormiu sereno e enamorado, feliz de ter uma
mulher ao lado e mate fresco esperando-o para o caf da manh.
Pitanga: puxa, como foi curta a vida.
- Mulheres - diz. - Mulheres.
Lembrar, no. Fechar os olhos. Escorregar. Despertar numa
cama boa e cmoda e grande e morna e do travesseiro ver os
dedos dos ps danarem l no sul.
Mas Buscavida no quer saber de nada. Tem a cabea cheia
de notas queimando. Fumegam.
- Que mulheres coisa nenhuma - diz. - Elas ficam ton-
tas com o perfume da gasolina. Sentem cheiro de pobre e saem
voando. Tanta grana que a gente ia ter, Ganapn! Mocs, caran-
gos, roupa nova, frango assado...
- Cago p'ra isso - afirma Ganapn. - A gente comea a
se ligar muito em grana e acaba se aburguesando e se esquece dos
amigos.
- Eu no tenho amigos - queixa-se Buscavida.
- Ah, no? - Ganapn esfrega os pulsos; d um puxo na
linha; a isca navega sem novidades. - E quem foi que bancou o
padre quando a Aucena exigiu casrio? Hein? - zanga. -
Quem? Te denunciei, eu, quando voc dava p'ra coitada melhoral
raspado em vez dessas pastilhas feitas p'ra no ter filho? Pensa
nela, Buscavida. Ela tambm te quer. Se voc fica assim, comigo,
o que sobra para mim? Eu durmo sozinho. Sozinho. Rodeado de
garotos. Mas sozinho. No cho e sozinho, desde que a Pitanga me
deixou no toco.
135
Para Ganapn, pensar naquela moa chamada Pitanga seria
perigoso. Para Buscavida, pensar em Aucena acaba sempre
sendo pouco ou demasiado. Buscavida gostava das gordas, antes.
Agora, no. Aucena: trs vezes operada do apndice. Que nunca
foi encontrado.
- Bah - diz Buscavida. - No penso mais em ver essa
a. Era nstica at para amar
Nalguma hora prxima, Buscavida se attastar at essa
porta e bater e gritar, sabe disso, mendingando um canto para
dormir. Ter necessidade de piedade: exigir como se fsse algo
que valesse a pena merecer.
J no sopra mais a brisa. O ar est fresco mas quieto, e
menos fro. A noite se curva, resplandecente, sobre as dunas que
normalmente o vento revolve e desloca. Cai uma estrela, perde-se
no mar. Um co espera, plantado sobre as patas dianteiras. Outro
co se aproxima, aos poucos, preguioso e sem pressa, vindo de
longe. Se enfrentam, mostram-se os dentes, os olhos vermelhos;
aram a areia com os mtisculos crispados.
Buscavida olha os dois sem interesse. Pega o prprio p,
aproxima-o da boca, sopra os dedos entumecidos. Depois estica
as pernas e mete as mos nos bolsos das calas.
- Eu j tenho trinta anos - diz, balanando a cabea. -
Quem  que vou poder estrepar? Quem?
- Mas no diga isso, irmo - fala Ganapn. - Voc
ainda  jovem. Voc tem uma pinta brbara. Vai estrepar muta
gente ainda, voc.
No fisga nada. Nem um sapato. O barco encalhado se re-
corta, negro, contra o negro do cu. Na praia, um co uiva. O
outro eo, machueado, se levanta, anda uns passos e cai com as
patas abertas. O mar invade, ameaa, cerca a terra. A lua cheia,
que empurra o mar, guia os ladres pelos telhados da cidade. Das
tumbas do cemitrio, mal fechadas, soltam-se luzes ms. Muito
longe dali, um contrabandista se aproxima da enseada com os
remos envolvidos em sacos de estopa e percia de jaear. Num
casebre de lata, treme o foguinho debaixo da panela encarvoada.
136
Os filhos de Ganapn tm o hbito de esperar. Na panela h ossos
e macarro e algumas batatas flutuando.
De repente, Buscavida planta a mo aberta sobre a boca de
Ganapn:
- No fala - diz. - Escuta.
- O qu?
- Do barco.
- No ouo nada.
- Chegam vozes.
Uma gaivota grita sobre eles.
- O que seria, esse barco? - pergunta Buscavida.
- E eu sei l. Pesqueiro - diz Ganapn. Pesqueiro de alto-
mar.
Seguro pelas rochas, preso, invlido e enferrujado, o barco
mostra as costelas quebradas que sobram de seu esqueleto e de
sua dignidade. Dentro, o que haver?  dfcil acreditar que tenha
sido herico alguma vez. Quando o vento feroz o trau, aonde ia?
Buscavida no tem dvidas:
- Esse foi um barco pirata - diz.
- Pode ser - diz Ganapn. - No conheo. A verdade 
1 essa: no sei.
1
- Por sso ningum chega perto.
- Ningum?
-  perigoso. Por causa dos fantasmas.
Navio caador, matador e ladro, guerreiro de aluguel. Ma-
;
; tador dos sete mares, que navegava torto.
- H quantos anos ele... ?
- Nome, no tem. Se tvesse, a gente veria daqu.
- Est a desde antes da guerra.
- Desde antes de tudo. No v que  um barco muito an-
tigo? Anterior  cdade.
- Vigiavam ele.
- A no h ningum - diz Ganapn.
- Antes, era vigiado pela polcia - contradiz Buscavida.
- Mas agora, quem vigia so os mortos.
137
- Apasto que existe um tesouro l dentro - se entusiasma
Ganapn.
- O ltimo que se aproximou - informa Buscavida - apa-
receu estrangulado, quando amanheceu. Apareceu a, est vendo?
As ondas trouxeram ele. A areia enterrou. O vento desentertou.
Ganapn ri, s gargalhadas.
- Pois l vou eu - diz.
Atravessa a enorme lua amarela e salta de pedra em pedra
at a ltima, a alta, l da ponta. Buscavida, sem se mover, olha. A
cabea de Ganapn tapa a estrela baixinha do Cruzeiro do Sul. A
cara de Ganapn brilha, pela certeza de que no barco espera por
ele isso que tantas vezes ele chamou sem ser nunca escutado. A
noite serve para apagar o dia, e a noite est viva.
Buscavida grita ao companheiro, dizendo que apareceu um
peixe enorme. Mas Ganapn, surdo, atira-se ao mar com roupa e
tudo. Umas poucas braadas e chega at o casco encalhado. Sobe.
Treme; se sacode. Aparece. J no persegue a deusa que, pelo que
dizem, bebe as lgrimas dos maltratados e desvia as penas e as
balas. Agora, a sorte pode quase ser tocada pela sua mo. A sorte
est seguramente presa entre as costelas do barco, que se erguem
como um esqueleto de baleia entre os revestimentos de madeira
meio apodrecida. Agora,  propriamente a chamada boa sorte a
que est pedindo: salva-me, Ganapn, que sou tua.
Ganapn sobe ao que resta do passadio e dali, com vozei-
ro de capito, chama seu amigo. Caminha eom cuidado, em
cima das enormes tbuas quebradas. Tenta subir no mastro princi-
pal, partido pela metade. Escorrega e leva uma batida. Uma viga
estala em sua cara. Contnua explorando o novo mundo sem dar
coniiana  dor.
O navio foi implacavelmente desmantelado. Como a um ca-
dver, arrancam tudo, dos dentes de ouro at os ossos para fazer
gelatina. Sobraram uma roldana, sem cotda nem manivela, e al-
gumas tbuas e ferros tapados pela femxgem e a podrido.
Ganapn escuta a voz de Buscavida. Em cima de uma
rocha, o amigo est chamando-o.
138
- Vem - grita Ganapn de volta. - Iso no  um barco!
 uma casa! Estou. tomando rum! Vou ficar para dormir!
Buscavida se atira no mar, se agita, res~folega. Ganapn es-
tende uma mo e o ajuda a subir  coberta. Buscavida aparece
vesgo de frio e de medo; seus ossos tremem. A roupa, transpa-
rente de to empapada, aprisiona seu corpo.
A cabea pareee um pio, dando voltas, mas o corpo conge-
lado no se mexe.
- Onde est a garrafa? - pergunta, levantando levemente
a mo violeta.
A voz tambm treme.
Ganapn aponta a tampa de uma escotilha presa ao solo por
duras crostas de ferrugem.
- A dentro - diz - h um monte. Rum, usque, cachaa,
vinho. Tambm tem gm. O capito bebia p'ra burro.
Buseavida se aproxima mangando. De repente, o lodo e o
tapete de musgo atiram-no para cma e lanam seu corpo at a
popa, acertando com ele - e em cheo - uma desmantelada
escada de ferro. Buscavida geme "mame"; as l9grimas molham
seu gemido. Um caranguejo sobe em seu p amarrado.
. Levanta-se aos poucos, agarrando-se a uma perna de Gana-
pn. Assoa o nariz; o leno jorra litros de gua do mar.
Agora est mais ealmo. Ganapn leva-o por um brao.
Fazem cuidadosamente o camnho at a proa.
- No tem ningum a? - vai perguntando Buscavida. -
Tem certeza? Nenhum barulhinho de corrente?
- Ganapn aponta a escotilha:
-  por a que se chega  cabina do eapito - informa.
ar -  por a que se chega no cemitrio - diz Buscavida.
Ganapn se agacha, mas Buscavida toca-lhe o ombro com o
,a- dedo indicador:
- No, no; 'xa pra mim, deixa - diz, malandro, recupe-
:er
al- rado. Massageia os msculos, arregaa as mangas da camisa erri-
papada.
- Deixa pro seu amigo, que ele sabe - diz.
Buscavida pe mos  obra. Puxa. Transpira, fora.
139
. - Est soldada - conclui.
- Traz a chave inglesa - ordena.
Ganapn d uma olhada  sua volta e sacode os ombros:
- No tem.
- Est bem. No importa. Traz um martelo.
- Tambm no tem.
- Ento - conclui Buscavida -  impossvel.
Ganapn empurra-o para um lado e chuta a tampa com tanta
fria que sacode o barco inteiro. Depois mete os dedos na argola
e puxa com fora. Ouve-se um chiado como se estivessem arran-
cando um dente de um gigante. A escotilha fica aberta e Ganapn
cai sentado e ri, escandaloso, vitorioso, erguendo a tampa na mo.
Ganapn prefere no olhar para Buscavida para no hu-
milh-lo, mas Buscavida se adianta e garante:
- Acontece que seu amigo no fez nenhum esforo.  isso.
Buscavida se mete no buraco:
- Eu primeiro - diz. - Vou eu primeiro porque no
tenho medo.
Mas l embaixo no se v nada e Buscavida agarra-se como
um carrapato ao brao de Ganapn.
- Passa os fsforos.
- Esto encharcados.
- E a lantema? - pergunta Buscavida. - Voc no trouxe
lanterna?
Buscavida fala sobre a importncia das lanternas nesse tipo
de circunstncias e sobre o asco que sente pelos covardes e o
desprezo que sente pelos grandes que ainda acreditam em fan-
tasmas e almas penadas: fala sem parar, atropelando as sMabas,
num galope que amontoa chiados e gemidos e sussurros, en-
quanto Ganapn vai tateando a escurido sem encontrar nada.
Buscavida no larga seu brao, onde est agarrado com as duas
mos, embora necessitasse de pelo menos uma mo tremelicante
para poder se persignar.
- Quer calar a boca? - exige Ganapn. - Desse jeito,
no consigo pensar.
Buscavida sussurra um padre-nosso, os pedacinhos que
140
ainda consegue lembrar, enquanto sua barriga emite um cacarejo
de galinha. Os intestinos deram um n. Ganapn se move. Busca-
vida no tem outro remdio al de prender-se  sua camisa e
segui-lo. Os negros podem enxergar no escuro, como os gatos?
No se anima a perguntar. Em compensao, implora:
- Espera a, Ganapn. Devagar Tenho frio. Eu sempre fui
seu amigo, Ganapn.
Tateando, Ganapn prossegue e no encontra a escotilha.
Como tampouco encontra o telescpio, a bssola, a luneta, o ca-
chimbo ou a lmpada de Aladim cheia de leo de baleia.
- Sinto dor na barriga, Ganapn.
No aparecem ganchos nem adagas, nem cofres cheios de
piastras e rubis, nem pemas de pau nem remendos.
- Onde  que fica o banheiro, Ganapn?
H um teto frouxo a ponto de desmoronar e um cho com
buracos que talvez conduzam ao fundo do mar em linha reta. A
boa sorte foi tragada pela escurido.
De repente, Buscavida d um grito agudo que atravessa a
cabina e racha a noite e desperta os peixes e os cidads. Gana-
pn d um pulo. Sacode Buscavida pelos ombros:
- O que ? O que h? ~
As paavras, trancadas no pescoo, demoram a chegar 
boca. Buscavida, trmulo, empurra a mo de Ganapn. A mo
toca couro frio.
- Mas que merda est acontecendo com voc? Quer me
dizer?
- Um esqueleto!
- Sim - diz Ganapn, farto e tranqilo. - Mas no se
assusta,  amigo.
Na escurido cerrada, Ganapn se firma e tateia a superfcie
dura e spera.
- No acha que est um pouco gordo para ser esqueleto?
- pergunta. Na cabine h um calor asfixiante. Respira-se ar
morto.
- Ajude-me a empurrar - ordena Ganapn - e deixa de
bobagem.
141
 uma arca enorme. Foram a tampa. A arca parece vazia.
Ganapn afunda o brao. Fica pendurado, com as pemas no
ar, e cai dentro da arca. L do fundo, grita: gol: ali dormem o
sono eterno algumas garrafas empilhadas. Ganapn surge e
abraa Buscavida. Buscavida celebra o achado com um risinho
nervoso.
-  vinho - garante Buscavida. - Francs. Envelhecido.
Muito bom.
- Ah, ? E como  que voc sabe?
- Seu amigo conhece, animal. Seu amigo passa o dedo e
sabe.
Com o braos carregados de trofus, atravessam o negror,
sobem a escada, chegam  coberta.
L fora, est acabando a noite. Ganapn enche os pulnies
de ar fresco.
Ganapn acaricia uma garrafa, deita-a n~ braos, nina, diz:
"Voc  minha, meu amor, oisinha linda". Quer dar uma pisca-
dcla emplice a Buscavida, mas no consegue. H anos ensaia a
piscada, desde que era menino, e at hoje os dois olhos feeham-se
ao mesmo tempo, por mais esforos que faa franzindo o nariz e
torcendo a boca.
Buscavida crava o dedo indicador na etiqueta da garrafa.
Aponta a caveira e o par de ossos emzados sobre o fundo negro e
explica:
- Muito tpico, isso. Veja s. Vinho especial para piratas.
Deve ser da ilha Tortuga.
Ganapn tenta soletrar as palavras misteri~as, impressas
em tinta escarlate com arabescos de tipografia antiga.
- Esse  o nome de uma vinha que em seu tempo foi muito
famosa - explica Buscavida. - Era dos franceses, nos tempos
antigos do Mar Caribe.
A palavra Danger! cruza a etiqueta. Abaixo, est a palavra
Poison. Buscavida no encontra o ano da safra.
- S de olhar posso garantir que  l do ano de 1800. Pelo
menos. Trata-se de um vinho muito velho.
Ganapn lambe os lbios. Saca-rolhas, no h. No se pode
142
esperar quando a tentao  muita. Ganapn afasta o brao para
arrebentar o gargalo contra a beira do barco, quando percebe que
o barco se move. Ao mesmo tempo, v que Buscavida d uma
volta e gira com os olhos fora das rbitas. Ganapn sente o cho
afundar e inclinar-se suavemente sob seus ps e pensa: isso, sim,
 que  esquisito, ficar tonto antes de provar o vinho.
Buscavida est verde de pavor, e dessa vez com toda razo.
As ondas se ineham, se aproximam, se dispem a lanar o ataque
final. A eoberta est se torcendo e vai desaparecendo aos peda~
e o casco nteiro est se arrebentando e desmoronando, buscando
o fundo, glup, glup, glup, lentamente tragado pelo mar. Como
cobrando o saldo de alguma velha vingana, o mar agarrou o ca-
dver que tinha esquecido a meio comer e agora o tritura e vai
engolindo os pedaos sem nenhuma pressa. Tudo range. Ganapn
volta subitamente  realidade. Vacila. Se pergunta como diabos
pde acontecer e por que justo agora, depois de tantos anos ou
sculos, mas a gua se apressa e sobe por seus tomo,zelos e ele
perde o equih'brio e agarra-se a qualquer coisa.
Buscavida mergulha com uma gatrafa em cada mo.
- Salve-se quem puder! - grita.
Em seguida  capturado pelo redemoinho. Agita os braos,
os ps: intil. Assim que v a cabecnha se perdendo na espuma,
Ganapn se atira ao mar Luta contra a corrente; chama aos gritos
o afogado; afunda, se asfixia, sai  tona, ressuscita. Resgata Bus-
cavida agarrando-o e arrastando-o pelos cabelos at a margem.
Coloca-o de cara contra a areia. Senta-se em cima. Move
seus braos como hlices e aperta seus pulmes. Uma lagoa salta
da boca da vtima. A vida torna a meter-se, soprando aos poucos,
no pobre corpo. Da boca nasce, ento, entre os jorrinhos de gua,
um Io de voz: Buscavida pergunta pelas garrafas de vinho.
Ganapn respira fundo, arfando, esgotado. Se estende na
areia. Olha para o navio fantasma, procura por ele atrs das ro-
chas. No h mais nada. Nem uma fumacinha. Esfrega os olhos.
Belisca um brao. Nada. O mar vai e vem, impassvel, surdo.
= Onde nos metemos, Buscavida? - pergunta Ganapn.
; - O que era isso?
143
Uma voz de alm-tmulo sussurra: .
- Eles o afundaram. Eles.
- Eles quem?
Para Buscavida, a praia  um imenso leito de agonia. Sus-
surra:
- Ficaram zangados.
- Quem ficou zangado?
Murmura:
- Fomos encher o saco deles e ficaram zangados. Agora
foram embora para as profundezas insondveis.
Ganapn sente arder seu nariz, mordido pelo maldito ano
na briga da Perversa de Paris. Tinha esquecido todo aquele as-
sunto. Toca o galo da testa:  tudo que restou da intil aventura
do barco.
- Tudo d errado com a gente - diz.
Sim. Sempre. Arrebentado para nada. Corpo triste. Ganapn
gostaria de se perdoar e no pet~sar
H enxofre e fsforo no horizonte. Logo o sol abrir ca-
minho e crescer e tomar conta do cu.
- Vamos botar a roupa para secar - sugere Ganapn.
Se despe entre as rochas. Buscavida no sai de seu lugar
- Est amanhecendo - comenta Ganapn, a distncia, en-
quanto mija agachado. - E preciso voltar.
Buscavida, que estava deitado com os braos abertos, de
costas contra a areia, se apia num cotovelo e diz:
- Voltar para onde? Para onde, posso saber?
A voz afinou-se ainda mais. As palavras saem como gemidos.
- Eu, fracassado - diz. - Eu, arrebentado. Se voc ti-
vesse roupas boas, fazia voc dormir com uma pedrada e afanava
tudo. Se valesse a pena. Mas por esses farrapos!
Espirra. Tosse.
- C~lpa sua, Ganapn - acusa. - Por tua culpa me resfriei.
Agarra a barrga:
- Quero vomitar e a pana est oca.
Esfrega a face inchada:
- Por tua culpa, voltou minha dor de dente.
144
Inventa foras para gemer:
- Quer saber para que  que voc serve? Para dar azar.
Para isso voc serve. Para isso, Ganapn!
Ganapn estendeu as calas sobre uma rocha. A camisa flu-
tua, presa pelos sapatos. A esto todos os seus bens, esperando
que o calor do ar chegue at eles. Ganapn est nu, sentado de
ccoras entre as pedras altas. Imagina Buscavida a poucos me-
tros, s suas costas, como um franguinho molhado e meio morto
,
seu amigo de tantos feitos e feridas, e diz:
- Vamos continuar puxando juntos, Buscavida.
Depois de um momento, insiste:
- Vamos continuar Mesmo que a guerra no valha a pena.
E diz muitas coisas, l do seu abrigo de pedras. Mas Busca-
vida no responde.
Quando finalmente Ganapn se levanta e olha, descobre que
no h ningum na areia gelada.
36
Passei na cidade uma noite e um dia e tinha tido sorte. Es-
tava tudo arranjado. Uma barcaa de contrabandistas ia me levar
 outra margem.
Comecei a caminhar, com uma sacola nas costas.
Tinha que atravessar muito campo para chegar ao.rio. Cru-
zacampos, vagamundo, andarilho, caminhador: ria sozinho e es-
cutava minha risada. Estava fraco e muito cansado, mas me sentia
o tempo todo louco de vontade de correr e revolver-me no pasto
como um potro. Nunca mais iria me arrepender de estar vivo.
Tratava de reconhecer os pssaros pelo seu modo de voar
ou cantar. Assim me distraa e me sentia acompanhado. Quis des-
cobrir o bem-te-vi, o pintassilgo, a rolinha. Desconfiava da ca-
lhandra, porque imita todos os outros. O tordo andava mudo s
145
por preguia. O mais fcil era recor~hecer as vozes engolidas,
como em gargarejos, glup, glup, glup, das pombas do mato que se
escondiam nas copas das rvores na cada da tarde.
Estendi-me para descansar no caminho, quando no dava
mais, mordendo o capim. E me lembrando muito de Fierro. A ele
eu devia a curiosidade e o respeito pelo zumbido falante dos la-
mos prateados e as vozes das rs no cio e os poderes do macachn
ou da carqueja. Cada vaga-lume assina seu nome no ar, com tinta
azul, e  preciso saber ler esse nome. Eu pensava em Fierro me
ensinando essas coisas. Pensava nele e pensava qne  impossvel
recupcrar o que nos tiraram, ou ressuscitar algum, mas ao menos
a gente tem que tentar empatar as contas, e pensava com raiva na
mquina de picar carne humana e nos que querem converter a
nossa terra em uma vala comum.
Sentia a necessidade de chamar cada coisa pelo seu nome,
para no perder nenhuma. Os bichos e as plantas me devolviam
os nomes que eu tinha esquecido e que iam me acompanhar para
sempre. Via a barra do dia no cu e enehia meus pulmes com o
perfume das flores do mato e nunca estive to seguro de ser livre
e sem marca de ferro nas ancas e de querer esta terra que me fez e
que eu escolhi para viver e morrer. Va o beija-flor trabalhando
nas eorolas e o pica-pau nos troncos e meu peito explodia, porque
eu era um pedacinho de outra coisa muito maior que eu, e melhor
tambm. Em vos alta me dizia: vou para voltar. Ento, na volta, ia
comear a verdadeira viagem definitiva para mim. '
Pensava na gente que tinha ~cado para trs. No apenas em
Fierro. Pensava nos companheiros da priso e principalmente em
um que tinha sido triturado e quando pde ver a mulher, depois
de um ano, ofereceu-lhe terra para comer Pensava nos compa-
nheiros do jomal, nos poucos sobreviventes que no estavam
longe ou presos, e imaginava-os juntando-se para beber  minha
memria e felizes por ter um pretexto. Pensava em meus amigos
de tantos anos. Via o Pardal na praia, ao lado da fogueira apa-
gada, de p e com as mos nos bolsos, olhando um barco passar
e se perder. Imaginava o Ronco como o tinha visto da ltima vez:
na frente de um espelho em pedaos, com um revlver apertado
146
na mo, vacilando, transpirando, desesperado e solitrio por culpa
de uma ferida que no cicatrizar nunca no fundo de sua alma.
E pensava em voc, Clara. Via voc se esquecendo de mim.
Queria apagar voc e que voc pudesse me apagar. No queria
que voc me esperasse. Alm disso, a liberdade me bastava para
ser feliz. Mais, seria um abuso. Tinha perdido voc, mas no
doa. Se alguma vez me metessem um tiro na nuca, ningum~iria
hcar com um buraco demasiado grande no peito, e isso me dei-
xava livre. Mas me lembrava de quando voc dizia: "Chegar a
hora de ficar triste. Anos para ficar triste. E toda a morte, que 
to longa. Agora no. No temos direito". E me lembrava de
quando arrebentvamos a mquina do tempo e nos queramos
para sempre.
Eu tinha pensado muito em voc, estando preso. No alto
que subimos juntos e nas porradas que nos demos e em tanta
beleza e no preo de dor que se paga. Muitas vezes eu tinha me
comportado como um guri caprichoso. Quando estava preso, me
acusava pelas estupidezes que tinha feito ou dito quando os fan-
tasmas me davam, por dentro, unhadas de animal feroz.
Teve que passar bastante tempo para que eu soubesse que
podia chegar a ter saudade dessa maneira de amar como menino.
A gente tinha se querido como s se pode na primeira vez ou na
ltima, o espelho do cu era o inferno, e isso transformava a
gente num tipo bastante ridculo. Mas depois, com o tempo,
quando eu j estava vivendo do outro lado do rio, soube que tinha
perdido essa capacidade e que sentia falta. Lembra, Clara? As
perguntas traioeiras, o insulto da desconfiana, a loueura dos
cimes pelo passado ou pelo futuro. Lembra? Qualquer bobagem
me revolvia as tripas. E ento, como disse, cheguei a sentir falta
desses punhais bobos. E quis que voc soubesse que tinham
dodo mais em mim.
E escrevi para voc. No disse nada disso. Escrevi qualquer
coisa, e no recebi resposta. Tratei de ir me acostumando com o
silncio. Sentia vergonha e nenhum orgulho por ter conquistado
essa independncia intil  fora de tanto negar o que voc me
147
dava. Eu tinha transformado tudo em merda. Eu tinha tido xito.
Eu, especialista em demolies. Eu, meu inimigo.
Mas no pensava nisso quando estava indo. Isso veio de-
pois. Ia indo e me lembrava de voc como se dissesse adeus ou
obrigado. Andava evitando as estradas, e assobiava forte no meio
do campo, de alegria de ter passado por tudo o que acontecera e
que ainda me sobrasse algum resto.
Caminhava devagar. Sentia dor na perna manca e era pouca
a energia que tinha no corpo. Parecia um arame, de to magro.
Ao amanhecer do terceiro dia, cheguei a um povoado aban-
donado. Eu sabia que tnha que evitar casas e gente, mas ali a
nica coisa que restava era o cheiro dos currais vazios e uma rua
de terra, o p flutuando sobre os esqueletos dos casebres e o sol
ardendo e ningum. Procurei ali um telhado, sombra para me es-
tender Sentei. Deixei a sacola de lado. Apoiei as costas e fechei
os olhos.
Nisso, escutei uma voz grave que disse:
- Anda cansado, o moo.
Virei e vi. Era velho e estava tomando mate sozinho, parado
na porta de algo que tinha sido o armazm do povoado.
Passou um bando de andorinhas e o velho disse que vinham
da Venezuela. Disse que ele tinha um filho na Venezuela, mas que
o filho no voltava no vero nem nunca. Tinha outro filho na
Austrlia.
O velho estava de chapu e com um temo mais velho que
ele, palet etvzado e lapelas muito largas, como de casrio an-
tigo. Uma flor seca esiava espetada em sua lapela.
Era o aniversrio. O velho fazia no sei quantos anos esse
dia e estava sozinho. Estava com o cachorro, mas o cachorro j
tinha se esquecido de latir porque no tinha para quem latir. O
velho tinha disfarado o cachorro. Tinha posto um bon e um
saiote que o pobre animal arrastava e que no deixava que ele
coasse tranqilo as pulgas.
Os porcos e as galinhas entravam e saam da casa. Havia
uma vaca leiteira no fundo. Com o velho, comi coisas que ele
tinha feito com as prprias mos: po quente e chourio, salsi-
148
T
:ho e queijo. Brindamos com um vinho caseiro tinto e forte. Me
perguntou porque eu estava to magro. Disse que vinha de um
lugar onde era preciso ralar o po para poder com-lo e que reeo-
Ihia as migalhas do cho, uma por uma, e o frio partia os ossos.
Me disse que assim eram as coisas no estrangeiro e que por isso
ningum conseguiria tir-lo de sua terra.
Deu-me o catre para dormir. Quando acordei, ele estava es-
perando com uns papis n mo. Era uma carta de um filho,
longa, de seis ou sete pginas, escrita de muito longe. H cineo
anos que o filho tinha escrito essa carta, mas o velho pediu-me
que a lesse.
- No, no. Em voz alta - me disse.
A carta contava coisas de outros mundos. Falava da pena
que d sentir-se estrangeiro e andar  intemprie e sozinho e no
ter a quem dizer isso, nem conhecer as palavras.
Logo me aborreci e saltei um pargrafo. O velho me inter-
rompeu:
- Est faltando uma coisa - disse.
Sabia a carta de cor. Escutou at o final, com a uma missa,
com os olhos fechados, movendo a cabea para concordar. Mas
disse:
- Eu o adverti. E ele me dizia: j ouvi conselhos demais. E
a est. Apoiou o polegar na ponta do nariz, girou a mo espal-
mada:
- Os filhos voam assim, v? - disse.
O cachorro e eu olhamos para ele. Disse que agora que os
filhos andavam esparramados por a, o que mais o aborrecia era
pensar que teriam de mentir muito para poder sobreviver
- Deve-se mentir com os dedos cruzados, para que Deus
nos perdoe - explicou.
E continuava falando e eu sentia a necessidade de ir embora
lutando contra a gratido e a pena. Fiz um gesto de levantar-me e
ele me fez sentar com um empurro:
- No, no. Daqui voc no sai. Se estamos celebrando...
Quanto tempo fazia que ele no falava com ningum?
Ele tinha ficado no povoado, entertado vivo, testemunha da
149
passagem das estaes e sabendo que no apareceriam mais por
ali trens de ferro ou cavaleiros.
-  preciso muito calor - disse - para que o pssaro saia
do ovo. Muito ninho, muita pluma,  preciso.
Me fez um mate de capim barba-de-bode. Para curar-me,
disse. Disse que tinha ouvido eu me queixar enquanto dormia.
Eu escutava e olhava para ele e teria sido fcil ir embora e
pronto. Mas iiquei. Pensava na nossa terra que tinha perdido a
inocncia e tinha sido castigada, golpeada com bastes e cassete-
tes, esvaziada, talvez assassinada. Pensava nos acorrentados e nos
desterrados, no preso que se enforcou e nos incontveis homens
que partiram. Tantas vezes acreditamos que morreu a nossa terra.
At duvidamos, Clara, muitas vezes, tantas, de que ela tenha real-
mente existido alguma vez. No  verdade, Clara? Damos voltas,
e o que h l atrs quando viramos? Um buraco? Voc se lembra
daquilo que dizamos sempre? No descendemos dos astecas,
nem dos incas nem dos maias: descendemos dos barcos. Lembra-
se? Era uma piada, isso? E adiante, o que h? Outro buraco maior
anda? Um cuttal, um terreno baldo vazio de homens e com
praias para turistas? Um mercado de escravos em liquidao?
Uma fonte de came humana para vender a pases que falam ou-
tras lnguas e sentem de outro modo? Isso, e nada mais que isso?
Uma tumba para presos, uma cadeia para mortos? Isso? Isso? E a
memria ferida? Mas ento, o que ficar de cada um? No haver
nenhuma terra que guarde nossas pegadas?
Na manh seguinte me despedi do velho. Deu-me de pre-
sente um par de sapatos. V-o de longe, movendo um leno
enorme com a mo e o cachorrinho do lado. Continuei minha
caminhada e o tempo todo ia lutando com essas perguntas na
cabea. Eu fatava comigo e me respondia: bom, e da? Embora
nos doa tanto. Embora nos deixe sem dormr. Embora nos esma-
gue o peito. Somos livres para inventar-nos a ns mesmos.
Somos livres de ser o que quisermos ser. O destino  um espao
aberto e para ench-lo eomo se deve  preciso lutar at o fim
contra o quieto mundo da morte e a obedincia e as putas proibi-
es. caralho, vamos cobrar tudo. Tudo, caralho, pensava.
150
;
Ia abrindo caminho pelo pasto e sentia que a nossa pobre
terra me chamava e me tomava a mo e me ajudava a continuar
andando, porque eu era seu filho, e me dizia: no perca a alegria,
jure, jure que nunca perder a alegria, e eu sentia a dor dos mvs-
culos das pernas e os nervos dos ps arrebentados para sempre, e
pensava: com terra como esta devem ter feito Ado, este sol deve
ter sido o sol que foi capaz de amdurecer a fruta proibida, e
pensava: caralho, pensava: isso vale a pena.
Cheguei ao rio um par de dias depois. Um contrabandista
me levou ao outro lado. Chamavam ele de Quinzetiros. Viajamos
de noitc, e no foi fcil. Subiu a mar e o rio cresceu. Ao ama-
nhecer estvamos na outra margem. Quinzetiros no desceu da
barcaa. Quis pagar-lhe e ele riu e partiu.
37
O sol da manh limpa o ar, acende as plantas dos jardins,
banha a luz dourada as paredes das casas. Por aqui vivem os que
mandam, e eles esto a salvo, envoltos,, protegidos, momos: ainda
dormem. Se de repente as janelas se abrissem, eles olhariam o
mar sobre os telhados vermelhos, veriam um barquinho desli-
zando e o dia crescendo e confirmariam que tudo continua em
ordem, igual a onterh e amanh: no eseutariam nenhuma explo-
so: nada alm da voz das ondas, que  a mesma de sempre, e,
mais perto, o zumbido do vo de uma vespa.
No acontece nada.
Pela calada eaminha um cego que se perdeu. Numa das
mos agita a bengala e na outra um punhado de bilhetes de lote-
ria. O eego vai apregoando sua ladainha desafinada pelas ruas
sem ningum.
- Quem quer a sorte? - pergunta o cego.- Quem quer
ser feliz? - oferece.- Quem quer?
151
Ergue os bilhetes de loteria, recita um nunero, um final,
canta a sorte grande para hoje com quinze milhes.
- Quem quer comprar a lua? Quem quer voar? Quem quer
a sorte? Quem quer?
Ganapn enzza com o cego e nem olha para ele.
A sola de um sapato de Ganapn se soltou e ele caminha
raspando a calada. Ganapn no sente frio nem as ccegas que o
sol faz em seu corpo. Ele vai caminhando e se pergunta em que
momento, a que hora, em que idade se cortou a melodia.
Vai pensando: "A quem digo: devolve o que  meu? Eu, que
nunca tive nada, a quem digo isso? Antes que a morte venha e me
agarre, a quem digo?". Em outro tempo, quando era menino, Ga-
napn achava que iam mat-lo dormindo. Deu para pensar nisso e
chegou a saber que iam abrir seu pescoo de um talho, mas ento
no suspeitava que poderia ocorrer com ele isso, de sentir-se aca-
bado aos poucos. Houve dias bonitos reservados para ele, o ho-
rscopo dizia, mas era fcil perceber que tinham se cansado de
esper-lo.
Nos jardins frondosos daqui, as rvores ficaram de cor de
cobre. Uma folha se desprende e cai, morta, do galho ao cho. O
sapato de Ganapn avana eom a boca aberta; a lngua da sola
lambe a calada e se retorce a cada passo. A Virgem est surda: j
no se lembra de Ganapn nem responde para ele. No lhe es-
tende os braos. Tantos anos sem se comunicar. Deve ter mu-
dado, a Virgem. Ganapn fecha os olhos e v uma mulher, mas
desta terra, algum que ele teve e perdeu, e em seguida a apaga e
retrocede no tempo e pensa em como seria voltar atrs, se fosse
possvel, mas muito atrs, atrs de tudo, antes do nascimento e
antes da gestao e antes ainda, se fosse possvel regressar at
essa espcie de mortezinha doce onde ele deve ter estado flu-
tuando at que lhe deram cara e braos e destino e nome para
usar. Isso deve ter sido l pela frica, pensa, e devem ter existido
sis vermelhos por l, e camas verdes para cada corpo ou coisa.
A sola aberta obriga Ganapn a caminhar com os ps ergui-
dos, e aos poucos, como quem caminha sobre ovos. Senta-se, fi-
nalmente, no meio-fio da calada, com as pernas abertas e esten-
152
didas, e fica olhando o cho, com o pescoo quebrado entre os
grandes ombros redondos. Parece um palhao descomunal, que
se aposentou porque j no podia mais levantar quando caa.
Passam automveis, atropelam sua sombra. Ganapn sente
que tem o mesmo suco de um limo seco. Sente que quebraram
seus ossos, um por um, e no sabe quem. H utna estaca invisvel
que sustenta suas costas quando ele anda por a. No fundo, Gana-
pn teme o peteleco que poderia faz-lo rolar, como farinha, pelo
cho, embora assim se salvasse de continuar sendo um fugitivo
da fome e da polcia e de suas prprias sombras perseguidoras l
de dentro. Porque, pensando bem, se diz Ganapn, o que vem a
ser o homem, came crua e ossos, na imensido do espao que no
comea em nenhum lado e nem acaba nunca? E o prrpio mundo,
se voc comea a pensar e a compar-lo com o tamanho das es-
trelas e a distncia em que esto, o que vem a ser? Uma cagada
de mosca. Isso.
Surgem latidos s costas de Ganapn. Ele no d confiana.
Os latidos, impertinentes, insistem. Mais cheio que curioso, Ga-
napn d meia-volta e olha. Atrs das grades altas de um porto
de ferro forjado, um co mostra o focinho e os dentes. Est la-
tindo, o cachorro ou a cadela, histrica como um soprano, para
expulsar o intruso daquele palco. Ganapn no v nenhuma graa
nesses uivos raivosos. Engatinhando, atravessa a calada e en-
frenta o cachorro. Ganapn franze o cenho e olha fixo. Esse  um
cachorro barbeado, de pele suave e brilhante, sem feridas nem
ossos  vista; tem antepassados e gola de astracn, e um ventre
bem recheadinho. O cachorro cala a boca, crispa a juba de cachos
negros, ergue o pompom do rabo, arranha o cascalho com as
patas de trs.
Em quatro patas, Ganapn ruge:
- Bicha! Cachorro bicha! Filho da puta!
Agora  Ganapn quem enfia a cabea entre os ferros do
porto, e o eachorro retrocede e olha para ele, hipnotizado de
pavor, e d um passo atrs, e outro.
- Filho da puta! - grita Ganapn, sem se levantar. -
Voc come chut~~asco, fil mignon, filho da puta!
153
D um murro, mas o cachorro est Ionge. De qualquer ma-
neira, o cachorro d um uivo e foge para casa; atravessa o jardim
com um tremendo escndalo enquanto Ganapn, vociferante, re-
pete "filho da puta", ameaa, desafia, chama para a briga.
Uma mulher desce as escadas da manso e grita o que 
isso, quem est a, o que est acontecendo, Mozart, quer calar a
boca, cala a boca, meu amor, o que fzeram com voc, por favor,
quieto. A mulher avana pelo caminho entre as rvores de longe o
andar cansado que no tem nada a ver com o tom da sua voz. V
a mulher se aproximar balanando-se com graa e v que usa um
avental engomado e uma flanela amarela pendurada em uma das
mos. Lentamente, Ganapn vai ficando em p. Ela agora usa os
cabclos presos na nuca, mas tem o mesmo pescoo alto e flexvel,
as mesmas cadeiras largas, as mesmas pernas. Ganapn est de p
e seus joelhos tremem. Sente um ardor na garganta. Ela tambm
o reconhece. Eia pra, ela vacila. D uns passos com a boca
aberta.
Ganapn queria parar o corao e dizer algo, um ol qual-
quer, mas ela tampouco pode piscar nem cumprimentar e ficam
os dois parados um tempo, olhando-se atravs das grades, a um
par de metros um do outro, com as mos como sobrando.
Ela  a primeira a vencer o assombro. Diz, imvel:
- Ganapn!
E ento ele diz:
- Pitanga!
E se apia no porto, por causa da frouxido dos misculos.
Ganapn sente utn aroma estonteante no ar, como se no fosse
outono e no lugar das folhas secas existissem no jardim frutas
suculentas e flores abertas, muitas.
Ela se aproxima. Os mzsculos de sua cara esto tensos e no
pescoo palpita uma veia. No se quebra sua voz, quando ela diz:
- Que bom ver voc, Ganapn.
Vira a cabea, olha para qualquer parte, esfrega o avental
com a unha:
- Voc me procurava? - pergunta
154
--
,
- Eu? - diz Ganapn. - Sim, claro. Na verdade, eu...
no, no.
Ela est to prxima que se escutam respirar. Cada um es-
cuta a respitao agitada do outto.
- Eu... te procurei. Antes - diz Ganapn. - Antes, an-
dava procurando voc por a.
Ela toma distneia. Ganapn v a ponta do p dela empur-
rando pedrinhas.
- Sim - diz ela. - Para me matar.
Ganapn d uma risadinha nervosa:
- E no te encontrei. Foi uma sorte, n? Voc se salvou.
Na testa de Pitanga desenham-se rugas. Ela apia a mo na
cadeira, torce a flanela.
- E agora? - pergunta. - Agora que voc me encontrou,
vai me queimar viva?
- Agora? - se surpreende Ganapn. - Agora, nada.
Ela brinca com a flanela amarela.
- Porque j no importo, no ? Voc no me odeia mais
porque no se importa merda nenhuma comigo.
Se olham; Ganapn no responde.  verdade? Ele no sabe.
Pode ser.
A flanela d uma volta de hlice no ar.
- Quem bateu em voc?
- Em mim?
- Voc viu como est sua cara?
Ganapn toca o galo na testa, o nariz inchado.
- Ah, sim... - diz. - No, no.
- Sempre brigo, Ganapn - diz ela. E inclina suave-
mente a cabea.
Ele assobia baixinho. O que pode dizer? J no h bebe-
dcira, nem boteco no porto, nem briga, nem Flecha, nem perdo,
nem barco nem fantasmas. No h Buscavida. Ontem no existe.
Ontem foi embora e voou:  um dia a menos. No deixou comida
na barriga, nem grana no bolso, nem alegria no peito.
- Voc parece andar mal, Ganapn - diz ela.
155
-  que ontem  noite andei aprontando por a. Hoje  meu
dia de folga, sabe? Eu... trabalho.
- Voc vai me matar de susto.
- Sou telefonista - informa Ganapn, sem vacilar mas
com cabea baixa. - Na Pan American. Telefonista l da Pan
American.
Um pardal d pulinhos buscando comida entre as pedras.
- No me diga - respondeu ela, sria. - E eu, eu sou .
professora de ingls. Aqui.
Os dois erguem a cabea ao mesmo tempo; se encontram os
olhos: os dois riem, s gargalhadas. Se calam ao mesmo tempo, e
ficam em silncio. Um silncio pesado. Ganapn no quer ir em-
bora. Mas ficar, para fazer o qu? Para dizer o qu?
- Voc est muito mudado - diz ela finalmente. - Mal
vestido. Com cara tuim. Olha essa cara.  fcil ver que no te
trata bem.
- Quem?
- A que est te esperando.
- Ah.
Ganapn ergue o olhar para as copas vermelhas das rvores
quase desfolhadas. Falar vale a pena? Sente frio nos dedos dos
ps. O silncio faz com que o sangue suba  sua cabea.
- Ningum est me esperando - diz, finalmente, sem
olhar para Pitanga.
- Voc no tem ningum? De verdade, Ganapn? No h
ningum esperando por voc?
- Os garotos. Eles.
Ganapn aperta uma barra da grade com a mo direita. Os
ns dos dedos embranquecem. Depois, se anima:
- E voc? - pergunta devagar.
- Eu? Tambm no - diz ela. - Eu tambm no tenho
rungum.
Os olhos fechados. Uma chuva de pestanas. O sornso triste.
O brilho dos dentes surgindo entre os lbios muito vermelhos.
- Sem pintura... - murmurou Ganapn - voc ficava
melhor.
156
Ganapn se abraa a si mesmo, massageia as costelas.
- So opinies - diz ela, desdenhosa, e aperta os lbios.
Ganapn v seu pescoo curvar-se, o queixo deslizar at o
ombro, v como ela coa o ombro com o queixo, e ento a v
sem roupa, mordendo levemente o travesseiro, e se v com ela e
sobre ela, derramando-se, incendiando-se, transformando os dois
num lindo turbilho de transpirao e fumaa. O tempo crescia,
naquele tempo, em vez de se gastar; cada dia tinha, naqueles dias,
muito mais do que vinte e quatro horas. Foi por isso que ele
soube que no era um caso desses que acontecem e depois so
esquecidos. Amei-a at a medula, pensa Ganapn. Mas agora, o
que importa? Ganapn queria se convencer de que j no precisa
de nada do que ela tem. Queria poder se convencer de que j no
a quer. Ela acabou comigo.
- Bem - filosofa. - Opulncia e decadncia no se mis-
turam. No se procuram. No podem ser misturadas. Eu estou na
decadncia. J vou indo.
Ento ela estende o brao, passa a mo entre as grades do
porto e roa seu cabelo, enrosca os dedos na cabeleira farta e
encaracolada de Ganapn, e em seguida retira a mo e esconde-a
nas costas. Ganapn sente subir um calafrio pela coluna vertebral.
- Ora, vamos, Ganapn - pede, balanando o corpo. -
Fica um pouco. No custa nada.
Mozart recuperou a coragem e late nas escadarias, longe.
- Voc tem o que fazer - diz Ganapn. - Est traba-
lhan,do. Aqui te tratam bem.
- No posso me queixar.
- Vo te mandar embora, se virem voc aqui.
- No importa.
- Estou indo, Pitanga.
- Escuta, cabea dura. Vem comigo at a cozinha e te es-
quento um prato de lentilhas. Um bom prato de lentilhas, bem
quente. Voc entra pelos fundos, ningum v.
- No estou com fome - emente ele. E diz, orgulhoso:
- No preciso. Eu me arranjo. No peo nada. Nem aceito.
157
E ergue a mo e diz tchau. D trs passos e ela abre o porto
e o alcana num pulo.
Caminham juntos, sem palavras. Antes de chegar  esquina,
c.le se apia contra um muro e afunda as mos nos bolsos.
-  verdade que mudei - diz. - Ningum continua igual.
A gente muda. Quando voc leva a primeira porrada,  de um
jeito. Quando leva a porrada nunero mil, voc  de outro jeito, 
um outro eara, ou a metade.
Ela se encosta na parede, ao seu lado. Passam automveis.
Um, dois, tns. Um caminho vermelho, destrambelhado, tossindo.
- Eu te amava, Ganapn - vira o rosto, olha de lado. -
J sei que  meio difcil de entender, mas eu gostava de voc.
- Olha, Pitanga. No comeo, se eu te agarrasse, te matava.
Cortava em pedacinhos. Fizeram bem em fugir, voc e o cara de
bunda que te engrupiu.
- Eu no agentava mais. No queria te odiar.
- Quem era ele, Pitanga? Como era?
Ela ergue os ombros e faz um gesto como quem cospe.
- Eu dormia - diz Ganapn - e sonhava, vendo-o
sempre com uma cara diferente. Sonhava que o matava, matava
ele e voc tambm, e acordava cansado. Procurei por vocs; no
encontrei.
- Eu queria ir embor`a, e no sabia como. Voc no ia me
deixar. Tinha medo de voc. Te queria, Ganapn. Eu te queria.
Mas no agentava mais e queria mudar de vida e tinha medo de
voc.
- E depois veio o pior. Porque no podia mais dormir,
sabe? Dcitava e no podia dormir. Batia nos garotos. No supor-
tava ningum. No tinha aonde ir. No me encontrava em lugar
nenhum nem com ningum. Voc me fez um mal, Pitanga: acos-
tumar-me a voc.
Com o polegar, Ganapn percorre a velha cicatriz que corta
sua cara.
- Andava tonto de tristeza. E quando a gente est assim, os
outros disparam. No se quer ver ningum, e ningum quer ver a
gente. A tristeza  uma lepra. Queria me embebedar, com lcool
158
de farmcia, qualquer coisa, mas voc sabe como sou duro na
queda. Para beber, sou uma esponja. Essa  uma de minhas des-
vantagens: o quanto agento. E, alm disso, comeava a beber e
voc chegava mais fundo ainda, e quanto mais eu bebia mais
triste ficava, e mais brigo. Arrebentava os dentes do primeiro
que encontrava, porque me olhava de lado, ou porque me olhava
de frente, ou porque no me olhava. No fim, perdi a vontade
desse crime. Fiquei s com a tristeza.
Ela apia a cabea no ombro de Ganapn. Ele no conta que
acordava dizendo seu nome e apalpando a escurido.
O grande momento. O inico. Depois, rodar at a cloaca.
Isso tinha sido mais que qualquer viagem ou guerra ou festa. Isso.
O mel que Flecha provou e pelo qual foi condenado. Isso, o que 
agora? Ganapn se surpreende por sentir carinho pela atrocidade
da dor que ela tinha deixado.  possvel ainda amar essa dor?
Abra-la, abrig-la, acomod-la? Isso. Essa chaga.  melhor ir
embora. Esquecer outra vez. Ficar sozinho.
Mas ela crava as unhas em seu brao e desabafa.
- Esse babaca de merda - diz. - Eu acreditei em tudo.
Quando acordei, j era tarde. Eu tive meu castigo, Ganapn. No
v achar que... Voc no sabe...
- Sei, sim. Soube. Soube depois.
- Soube o qu? - ela pergunta.
Para Ganapn, falar  difcil. Falar di. Se tivesse a gaita. Se
a gaita no estivesse arrebentada. Se estivesse, agora, no seu
bolso traseiro, a gaita, ele a levaria aos lbios e sopraria muita
; msica e a mtsica ondularia pelo ar e aliviaria sua dor, a dor j
! no estaria l dentro, puxando, porque a misica arranca a pena e
leva-a para longe.
Ganapn diz:
- Soube que ele te arrancou at o anel. Que cortou seus
cabelos e vendeu para fazer peruca.
Ela se desprende da parede.
- Houve mais.
- O que mais?
- No importa.
159
- Diga.
- Voc no sabe o pior.
- Diga. Tudo. Quero saber.
-  melhor no falar.
- Tudo. Diga. ,
Escutar di. E a gente fecha os olhos e aperta bem e da a
gente quer fazer de conta que mesmo sem a gaita a mtsica nasce
do mesmo jeito. A gente quer sentir que a misica escorre sinuosa,
um fio de gua, uma coisa de nada que vai crescendo dentro da
gente e molhando a alma seca, porque a gente queria ser capaz de
transformar a dor em vento e melodia.
Ela caminha em semierculos, na frente de Ganapn. Artasta
os sapatos; com os saltos, arranca fascas da alada.
- Queria me obrigar a rodar bolsinha na rua.
- Tudo. Tudo.
- Me botou trabalhando num bar do porto.
Ganapn escuta com os olhos fechados.
- Havia um ano - diz ela - que me vigiava, e uma
velha repelente que queria me obrigar a... No terceiro dia, me
mandei. Estava morta de medo. Tinha medo de ficar e medo de
andar sozinha e medo de voltar para voc. Isso voc no sabia,
n?
- Sabia, sim - diz Ganapn, com calma. - Soube ontem.
- Ontem?
Ela pra, sem jeito, desconcertada, e Ganapn concorda
com a cabea, abre os olhos e diz:
- O cara, ento, era o mesmo Caralisa que eu... Esse filho
da puta.
Um sorriso triste se abre na cara de Ganapn. Olha a mo
fcchada, sopra, esfrega na camisa. Diz:
- Eu arrebentei todos eles.
- Como?
- Isso. Isso que voc ouviu. Cobrei o que deviam.
- Quando? Arrebentou o qu? No entendo.
- No importa.
- No vai me explicar?
160
i
- No.
Um guatda passa caminhando e d uma alhada neles. Car-
rega o revlver do uniforme preso  coxa e um basto de madeira
pendurado na cintura.
Ganapn sente que a vaga sensao de justa dura pouco. A
vingana incha os pulmes e o dia de ontem ganha um pouquinho
de sentido, mas no fim nada disso salva nada do naufrgio. Se
devolve uma porrada, e da? Os buracos do que a gente perdeu,
como  que a gente enche outra vez?
- Est bem - ela adoa a voz. - Acredito. Voc  capaz
de arrebentar todos eles juntos. Voc  muito forte, Ganapn.
Desamarra a fita cor-de-rosa da nuca. Solta os cabelos,
fecha os olhos. Chama-o com o polegar. Ofereee os lbios.
Ganapn a contempla, distante. A memria sussurra ranco-
res. Danar juntos? Faz tempo que o bandonen tocou a ltima.
De repente, Ganapn sente que se reabre um corte que lhe atra-
vessa a memria e chega muto alm e machuca muito mais
fundo.
- Ganapn - diz ela, esperando.
Ele estende o brao e a lvanta pelo pescoo e aperta seu
corpo de costas contra a parede. Ela pisca, atnita, assustada. Ga-
gueja um protesto. Ganapn a segura pelo pescoo, com o brao
esticado, tensos os msculos, e o brao  um tronco com grossas
veias que se enroscam como trepadeiras.
- O gur - ruge Ganapn.
- Que guri?
Ela se assusta com esse olhar que aponta como uma arma.
- O nosso. O que voc levou.
Ela morde os lbios, nega com a eabea.
- Vai dizerj - apressa Ganapn, mastigando e cuspindo,
lentas, as palavras.
- Me solta e eu digo.
Ganapn afrouxa a presso dos ded~ e ela vira e afunda a
cara na parede.
- Vai me dzer o que fez com o garoto - nsiste Ganapn,
161
perigoso, sem pressa, falando para essas costas que tremem, sa-
cudidas pelos soluos.
- Dei ele de presente, Ganapn.
Ganapn d um passo para trs, estonteado pelo golpe no
queixo. Deixa cair os braos. Sente as mos formigando. Todo 0
corpo formigando. Os nervos no funcionam.
Ela chora, de cara contra a parede.
- Deu ele de presente - diz Ganapn.
Agarra-a por um brao e vira-a violentamente para ele.
Atravessa-lhe a came com os dedos. Fala mastigando-lhe a cara.
- E foi para isso que voc levou o Pirincho? Para dar ele
de presente, para isso?
Sobre a cara dela, inchada e molhada, deslizam rios de
rmel.
- E o que voc queria que eu fizesse? - solua. - Acha
que foi fcil? Que eu gostei? Eu trabalho de empregada. Em ne-
nhuma casa te aceitam com um beb nas costas.
- O Pirincho. To pequenininho e dado de presente. Como
se fosse coisa - diz Ganapn, falando para si, em voz baixa, e de
repente ruge:
- Que deixasse ele comigo! Isso  o que eu queria! Que
deixasse ele pra mim!
Ela grita mais forte:
- E pra qu?
Uiva:
- Para que fosse um morto de fome como voc?
Ganapn se afasta. Mede a mulher antes de arrebentar sua
cara. Diz, entre os dentes: "Puta". Fecha opunho. V o susto nos
olhos dela e vacila e racha a parede com um murro.
Ela escorrega para o cho, como num desmaio lento. Gana-
pn lambe o sangue da mo direita. A parede  mais forte que sua
mo. Sente dor nos dedos estilhaados. Alguma coisa se quebrou
a dentro da pele. Ganapn apet~ta a mo e v estrelas.
Reconhece, de repente, o nauseabundo cheiro de polcia.
Uma mo sutge por trs e agarra seu ombro.
- Quieto - diz o guarda. - T preso.
162
Afunda o cano do revlver em suas costelas. Ganapn se
vira e o encara. Com bon e tudo, o guarda no chega alm de
seu queixo. Ganapn torce seu pulso e o agente da ordem ater-
rissa a boca no meio da rua. Os vizinhos aparecem; algum grita;
uma senhora faz o sinal-da-cruz e fecha as janelas. Ganapn vai
caminhando, tranqilo, sem virar para trs. A sola do sapato chi-
coteia a calada: plaft, plaft.
Pitanga sacode a roupa. O guarda, atordoado pela porrada,
est querendo se levantar. Pitanga v o guarda chegando perto e
sai correndo. Alcana Ganapn, que caminha com as mos nos
bolsos. O guarda apita e d alguns tiros. Ganapn e Pitanga cor-
rem a toda, sem roar o asfalto. Fogem para a praia. Um cami-
; nho d uma freada: salvam-se raspando. Ganapn se descala
num momento; atira os sapatos e continua correndo.
Na esquina seguinte, aparecem outros guardas. Ganapn
dribla dois com uma ginga de cintura, mas o tereeiro se atira aos
seus ps e ele roda num redemoinho de chutes e porradas. Um
outro guarda ergue o cassetete por trs de Ganapn e vai arreben-
tar sua nuca quando Pitanga o alcana de um pulo e prega o salto
do sapato em sua cabea. Ouvem-se palavres e mais tiros e a
gritaria do bairro, mas Ganapn  um tanque que avana esma-
gando inimigos, batendo com os cotovelos, com a mo esquerda,
com os ps, e vai abrindo caminho, invulnervel, e logo se trans-
forma em um avio que voa com Pitanga no ar, agarrada na
cauda, por cima de todos.
Virando uma esquina, Ganapn abraa Pitanga pela cintura
e salta dentro de um nibus que passa. Atrs fica, distante, uma
nuvem de p e de raiva..
Apertam-se um contra o outro no corredor do nibus vazio.
- Voc est inteira?
- No te falta nada?
r
- O nariz, est a?
- E o brao?
Se apalpam e riem.
- Agora descemos - diz Ganapn. - E tomamos outro.
- Vamos para casa - diz Ganapn.
163
- Voc tem cigarros? - pergunta. - Ando precisando de
um cigarrinho.
Ela no diz nada. O corao, agitado pela briga e pela cor-
rida, bate aos pulos.
Na costa se respira um ar limpo e agradvel. Os pescadores,
inclinados contra as cordas, esto recolhendo a rede. Alguns cu-
riosos olham o trabalho deles. Na praia, Pitanga sobe, com Gana-
pn, no nibus suburbano.
Quando vai sentar, ela vacila:
- Tenho que ir buscar minhas coisas - diz.
- Voc foi sem nada - diz Ganapn - e no quero que
traga nada. As coisas que voc tem no vo me agradar.
- Est bem. Mas...
Ela come as unhas.
- Vem comigo - diz Ganapn - e pronto. ,
- Est bem. T.
- O que  que voc tem aqui?
Ela revista os bolsos do avental:
- Um dinheirinho para as compras - diz.
- E o que mais?
- A flanela ficou perdida. Ah. Este reloginho aqui.
- Quem te deu?
- Comprei.
- No minta.
- Custou um salrio inteiro.
- Est bem. Mais, no se precisa. Tua roupa e tuas coisas
esto l esperando. Ningum meteu a mo nelas. Quis queimar
tudo mas me deu um no-sei-qu. Quis vender tuas coisas e no
consegui. Que besta! No me animei nem a rasgar tua fotografia.
Ganapn boceja. A mo est inchada e arde e di. "Volto da
guerra", pensa Ganapn. "Estou todo avariado. Guerra ganha ou
guerra perdida? Guerra contra quem? Puta, se  violento viver! A
cada quantos minutos  gente nasce e morre? Puta merda."
Encolhe o corpo e novamente boceja e se enrosca contra o
ombro de Pitanga. Ela se estremece. A soneira  uma nvoa
morna que envolve Ganapn e o ombro de Pitanga  um lugar
164
temo e seguro para deitar e se estender. "Puta merda. Continuo
amarrado  vida como cachorro em vaca morta. Puta merda.
Dorme, agora", se diz. "Dorme, Ganapn. E depois... porrada
,
que o mundo no  brincadeira."
Ela beija suavemente a mo machucada de Ganapn.
Ronca o motor. No se escuta outro som no nibus vazio. O
peito de Ganapn, peito de touro, sobe e desce.
- Canta alguma coisa, Pitanga - murtnura Ganapn. -
Canta um tango bem baixinho.
E enquanto ela canta como se fosse em segredo, ele se deixa
ir pelo tvnel do sono.
38
Estando a terta ferida pelo poder e os triunfos dos senhores
da terta e da guerra, o vento se ergue das pradarias vazias e se
queixa.
Nas lufadas de vento se escuta o mugido dos animais: so
arrancados dos pastos e dos clares do monte e arriados aos ma-
tadouros e metidos nos calabouos: so empurrados para a morte
a golpes de agulha eltrica: so trancados nas armadilhas de ma-
deira: esmagam os ossos de seus crnios.
Uma mulher canta no caf que d para a praa e o vento
conduz sua esfarrapada voz de pardal e leva os gemidos das cor-
das do violino. O vento tambm transmite a gritaria pavorosa de
um homem que arrebenta seu copo de vinho contra o cho e pro-
pe afogar todos os velhos num imenso vmito de veneno e para
os jovens grita vo embora, no h nenhum destino, salvem-se,
vo para o cu do mundo. E carrega mais coisas o vento, como,
por exemplo, o barulho de um preso que imita um co que late e
vai se transfoxlnando em um co que imita um preso e no deixa
os outros presos dortnirem.
165
Uivando como um animal, o vento avana e arrebenta as
amarras das embarcaes, humilha as rvores, atropela as portas,
invade as casas: o homem acuado salta e enfrenta o vento com
um dedo no gatilho. O homem acuado dorme com um olho s e
desperta antes que o dia. Sente medo do eco dos prprios passos
e dos faris dos automveis que dobram as esquinas. Os gatos
que escorregam dos telhados tambm o fazem sentir medo. Ca-
minha de escurido em escurido, grodado nas paredes. O
homem acuado pode ir embora mas fica, atado  cidade por uma
dvida misteriosa que o vento conhece. Fica e vai adivinhando,
sem surpresa, as cartas desgraadas que o esperam no mao do
baralho.
O vento norte vem com terra; o do leste, com chuva; o pam-
peiro, com frio; e todos atiram remotos punhais contra os vidros
das janelas e anunciam o furaco criminoso que alguma vez vir
com fogo e nos revelar a palavra procurada.
Enquanto isso, nas cavalarias, relincham os cavalos no cio,
e o vento traz o cheiro do desejo, que  o cheiro do primeiro dia
da Criao.
39
Mariano voltou ao caminho da fuga. Est querendo ehegar,
pela beira do arroio, at a casa do homem que o recolheu. Per-
corre assim, com as pemas, o caminho que antes tinha transitado
com as palavras para Clara. Tambm em sonhos tinha nadado por
aqui, muitas vezes, trazido por imagens que o salvavam de sustos
e pesadelos e o despertavam em paz.
O caminho se faz muito mais longo. Naquelas horas,
quando corria acossado pelos tentculos da mquina, o desespero
e a alegria da liberdade lhe tinham dado foras para atravessar o
mundo de um salto. Agora, sem aquelas botas de sete lguas, Ma-
166
riano se cansa fcil e a cada instante acha que se perdeu. Estou
indo bem?  por aqui? Vale a pena continuar procurando? Reco-
nhece lugares; se confimde; vacila e segue. J no assobiam os
tiros, nem sua cabea  atravessada pelo alarido das sirenes. Os
refletores no mordem mais seus calcanhares. No o perseguem
mais nem homens nem ces.
Est caindo a tarde. Os cavalos exploram, soltos, o pasto
cheio de tufos. Das flores estreladas dos cardos escapam bichi-
nhos mimsculos: faro sua caminhada notuma: nem todos vero
a manh seguinte.
Mais alm da vasta intemprie dos depsitos de lixo, des-
pida de rvores, caracoleiam os policiais a cavalo. Marcham a
trote; os cascos acrescentam p ao p do ar. Erguem-se as altas
colunas de fumaa branca, lixo queimado, aqui e ali. Os homens
desaparecem e os ces farejam os detritos. Os varais das carroas
vaziam apontam o cu. Folhas secas e papis voam na fumaceira
do lixo. Mariano caminha atravs dos chciros cidos e da humi-
dade que pesa, gelatinosa, no ar. Os cavalos dos policiais se afas-
tam, em direo  cidade. Os altos edifcios, cinza-avermelhados
pelas ltimas luzes do dia, se encolhem no horizonte. A cidade:
outro planeta. A cidade alheia, distante, inacessvel. Mas este  o
esgoto onde vo parar os restos do que ela tritura e engole a cada
dia; este deserto de moscas e garrafas vazias e coisas quebradas e
apodrecidas: esta paisagem da lua suja.
No cu, penduradas e baixas, as nuvens escuras vo adian-
tando a noite. No sopra vento. Pode ser que chova. Mariano
apressa o passo erii direo  fileira de barracos torcidos por mui-
tos vendavais e tormentas.
Mariano no tinha visto nem ouvido nada quando jazia na-
quela earroa, aquela noite, tempos atrs, mas agora se deixa ir e
um olfato secreto vai guiando seus passos e avisa que est perto:
morno, morno. Dos barracos, entre as latas e os papeles e a es-
topa, surge de vez em quando um par de olhos imveis; olham-no
passar sem curiosidade, nem ameaa nem medo.
Mariano v, ao longe, um cavalo verde. Pisca, esfrega os
olhos: no, no est sendo enganado pelas sombras brincalhonas
167
do entardecer: o cavalo verde est ali, atrs da cerca de tbuas, e
est sacudindo a cabea, as verdes crinas escassas, como se cum-
primentasse. Atrs, perto da cacimba, ergue-se um bartaco des-
trambelhado, desenhado por uma criana, com manchas e riscos.
Morno, quente, quente, queimou: estes meninos so aqueles me-
ninos. Um deles sobe na cerca e dali salta para o lombo do animal
e se agarra no pescoo do cavalo. O cavalo se agita um pouco e
se resigna. Mas em seguida, a traio, move a anca e o garoto vai
parar de bruos no cho.
O garoto se chama Estrepe. Tem olhos de pirata, e .
Estrepe se levanta e corre. Se mete no bartaco e investe
contra as saias de Pitanga: ento comea a chorar. Ela acaricia a
nuca do garoto, passa saliva sobre os cotovelos raspados; sopra.
Ganapn no d confiana. Estrepe continua chorndo. Ganapn
est ocupado. Quer acender o fogo, com lenha mida.  lenha de
pinho, que faz brasa tuim, mas no se consegue nada melhor jo-
gado por a.
Ganapn est falando do cavalo:
- Voc me trouxe sorte, Pitanga - diz. - Ator, foi. Es-
trela de cinema. Agora no se despinta nem com chuva nem com
escova.
Acende uma bolota de papel de jomal, a introduz entre os
galhos. O papel arde, se retorce e antes de apagar totalmente se
desfaz em fuligens negras que danam no ar. A madeira esfu-
maa, sem fogo. Uma fumaa cida e espessa.
- A puta que pariu, lenha de merda - tosse Ganapn.
- D o querosene - pede, tossindo. - Sobrou?
Escurece, de repente, a porta do barraco.
Ganapn, ajoelhado, vira a cabea.
- Boa-tarde - escuta.
Os olhos lacrimejam por culpa da fumaa, mas reconhece a
voz. Derrama um pouco de querosene sobre a lenha. Esfrega um
fsforo, sente as chamas crepitando.
- Pensei que no voltasse nunca mais - diz, sem surpresa.
- Custei a reconhecer a casa - explica Mariano, da porta.
- Perguntar pelo nome no podia: nunca soube seu nome.
168
Ganapn sai. Se abraam. Os garotos brincam s costas dc
Mariano, puxam a barra de suas calas. Mariano levanta um, de-
pois a outra; faz com que girem pelo ar.
Pitanga tambm sai, e cumprimenta o recm-chegado er-
guendo a vassoura.
- O doente! Voltou! Lembra, Chispita, que tinham posto
um mau-olhado nele? Agora mudou a cor e nasceu bigode no
moo.
Chispa, a maior, lembra, e talvez tambm Churrinche, em-
bora no parea to convencido, mas Estrepe olha com descon-
fiana por trs da roupa pendurada no varal. Os filhos e os entea-
dos de Ganapn. Mariano percebe que falta um, que era
recm-nascido quando ele esteve aqui.
Ganapn se aproxima do cavalo, d-lhe palmadinhas:
- E o que me diz do scio que consegui? - mostra, orgu-
lhoso. - Domestic-lo  impossvel, porque  muito velho. Ga-
nhei de presente hoje. Voltou a Pitanga, e me trouxe sorte.
Mariano atira para cima uma tampinha de Coca-Cola, mata
no joelho, mata uma, duas vezes, chuta com a esquerda. Estrepe
agarra. Estrepe se aproxima, vai confiando.
- E voc, o que ? - pergunta.
- Eu? Mgico.
- Sabe mexer as orelhas?
Ganapn sobe e desce do cavalo, retrocede uns passos para
ve-los melhor.
- Pus Fuleiro, de nome - explica. - Aquele que eu tinha
morreu. E no podia trabalhar mais, eu. Agora, com Fuleiro, vou
voltar ao negcio do lixo. Pelas garrafas vazias no pagam quase
nada. Pelos papis, nem agradecem. Mas deve haver algo para
cnganar a barriga.
Esfrega o plo verde, arranca uns carrapichos do ventre.
- Percebe-se que  inteligente - diz. - Vai me acompa-
nhar, Fuleiro. Um pouco velho est, mas trabalhou num filme,
sabe? Andou se dedicando a isso, esses ltimos tempos, da veio
essa cor que  a nica na histria universal dos cavalos e dos
humanos. O que voc acha?
169
-  melhor que o outro - diz, por dizer, Mariano.
Fuleiro boceja. Est muito aborrecido, mas isso h anos.
- Bancava eu o cavalo, sabe? - conta Ganapn. - Entre
os varais do carrinho, eu, cavalo de duas patas. Imagine s. E
assim a coisa no ia. No ia bater em mim mesmo com o arreio,
n? Meu arreio, conhece? Olha que tranado longo e assobiador.
Embora eom Fuleiro no seja necessrio. Vamos nos entender
conversando.
Chispa tem duas trancinhas, espetadas como antenas, atadas
com laos de seda amarela. Na esfera do relgio de Mariano
giram vrias agulhas brilhantes e misteriosas. Ela pede o relgio
emprestado. Aperta-o contra o ouvido, sacode.
Comeou a garoar, suave, e Ganapn e Pitanga esto abra-
ados junto ao cavalo, sorrindo de orelha a orelha, como quem
tira retrato. Mariano sente na cara a ccega da garoa, tip-top-cloc,
e os meninos cantam que chova, que chova. Por um instante Ma-
riano fecha os olhos. A velha est na cova, cantam os meninos, e
Mariano se deixa picar pela chuvinha e fica como surdo e Gana-
pn tem que repetir-Ihe o convite para entrar na casa.
- Vai se molhar, homem - diz. - Venha. Vamos comer
alguma coisa.
Estrepe sai correndo. Logo entra no barraco com um par de
garrafas nos braos.
- Eu, mais comodidade, no preciso - diz Ganapn. -
Para que vou querer mais comodidade, eu? A eomodidade te
doma, aos poucos.
Na panela, ferve o macarro. Pitanga pe sal; mexe.
As chamas vermelhas do fogo lambem as imagens de Gar-
de( e da Virgem de Ftima e tremem sobre as atrizes de biquini e
as paisagens suas, que cobrem as paredes de cima a baixo. As
vclhas fotos de revistas e almanaques esto manchadas pelas pis-
tulas da umidade e as marcas das moscas.
Dentro, faz calor. Zunem os mosquitos e outros insetos re-
fugiados da chuva. Ganapn mete a colher na panela; agarra um
macarro comprido com os dentes; prova. Entre suas pemas cir-
culam meninos, galinhas e um cachorro. O cavalo, empapado,
170
mete o focinho pela porta. Bufa; solicita. Lugar, no h. Acaba
expulso.
Pitanga serve o macarro. Os pratos no so suficientes.
Chispa come sentada nos joelhos de Mariano. Junto com o ma-
carro aparecem alguns ossos com pouca came.
- Faz de conta que  came assada - aconselha Ganapn,
estalando a lngua.
Come com a mo esquerda. A direita est escondida entre as
pemas.
- F~st fazendo falta um bom molho de tomates - explica.
- Pusemos uns pimentes e um poueo de alho, que disso tenho
um monte. Mas hoje no quiseram me fiar azeite, nem tomates
nem cebolinha verde.
As latas de conserva servem de eopo.  preciso beber o
vinho com cuidado, porque as beiradas podem cortar os lbios.
- Graas a Deus, tem vinho - diz Ganapn. - Faa de
conta que  bom.
Churrinche rouba um gole do copo de Mariano. Faz uma
careta, tosse. Chispita escorrega dos joelhos de Mariano e fica em
p junto a Ganapn; explora os fios braneos na carapinha grande.
Fstrepe brinca com fsforos. Raspa-os contra a lixa da caixa e
atira-os contra Mariano. Mariano aperta os olhos e engole saliva,
mas graas a Deus os fsforos se apagam no caminho.
- So tochas - informa o incendirio.
Amassa bolinhas com miolo de po. Quando os projteis
esto bem duros, no ponto, atira-os no rosto de Mariano. - So
balas de canho - informa o artilheiro.
Pitanga d-lhe um coque e ele escapa num pulo: a panela
treme; resvala um tio, cai no cho com uma chuva de chispas.
Uma galinha bate as asas; o cachorro espirra e lambe o focinho
queimado.
Estrepe explica, desdenhoso, apontando Mariano com o po-
legar:
- Fsse mentiroso diz que  mgico, mas no sabe mexer as
orelhas. Todos os mgicos sabem. Tem um amigo meu que  m-
171
gico de verdade e trabalha na tev. Ele, sim, quando quer, mexe
bem rpido as orelhas e voa como avio.
- Saiam da. Vamos dormir! - ordena Pitanga. - Todos,
andando, pra cama. Vamos!
Puxa Churrinche por um brao. Ele est contando, ao ou-
vido de Mariano:
- Quando eu for grande, vou ser jogador de futebol e ter
uma cama s pra mim.
Mergulham os trs na cama. A briga  longa; inclui choros e
gritos. Finalmente Pitanga os acomoda, Churrinche de um lado,
Chispa e Estrepe do outro, mas os chutes continuam por baixo
das mantas.
Pitanga raspa os pratos; joga as sobras na panela. Lava os
pratos num tacho no canto. Ganapn acendeu o lampio de que-
rosene, lampio fumacento, de vidro enegrecido e pouca mecha.
As mariposas cinzentas voam ao redor do lampio; nas paredes,
giram as sombras.
Pitanga se agacha para apagar o fogo. Ganapn olha suas
cadeiras, brilhantes de luz amarela.
O cachorro boceja, coa as pulgas; d vrias voltas, sem se
decidir, at que se estende num canto e dorme.
Ganapn descasca, lento, uma laranja. Segura-a com a mo
direita e com a esquerda vai despindo-a aos poucos. O longo rolo
da casca cai no cho. Ganapn acaricia a laranja; modela-a, re-
donda, dourada, inchada de suco. Olha fixo para ela. D-lhe uma
mordida. O suco escorre por seus dentes. Ganapn lambe os l-
bios; limpa a boca na manga da camisa.
Ningum fala. Pitanga recolhe um jornal velho para cobrir a
cabea, e arites de entrar na chuva, da porta, explica:
- Vocs tm do que falar. Vou at Dona Anunciacin.
Daqui a pouco volto.
- No, no, por favor, fique - diz Mariano, e se levanta,
sem jeito, mas ela diz:
- Tenho de ajud-la. Ela sozinha no pode.  preciso dar
remdios ao velho e comida  vaca.
172
Os dois homens ficam sozinhos. Escuta-se a respirao das
crianas, derrotadas pelo sono, e a msica repetida da chuva.
Mariano oferece um cigarro.
- O que aconteceu com essa mo? E na cara?
Ganapn olha a mo direita, o punho inchado como um
balo. Sacode os ombros:
- Andei na pior.
Sorri, sem vontade:
- Quando a gente est na pior, numa ruim, at urubu voa
de costas. Os amigos te olham de lado.
- Mas agora - diz Mariano - est mudando o vento.
- ... sim. Quem sabe.
- Pode ser.
- Vai ver...
Ganapn apia as costas contra a parede. Fuma, os olhos
semicerrados.
Mariano aplaude e cai um mosquito. Ganapn d um ta-
pinha. Outro mosquito foge.
- Na prxima vida - sentencia Ganapn - ns vamos
ser mosquitos, e eles, gente. A sim, vamos nos vingar.
- Na prxima vida - diz Mariano. - Se tivermos. Voc
acredita?
- Eu no sei. Estou s dizendo.
E se no tivermos?, pensa Ganapn. E se o cemitrio for a
ltima parada do bonde? Esse homem foi corrido a tiros, pensa.
Ter sentido a morte na nuca? O que ter pensado? Contra a
morte no h grana que valha, nem explicaes. A morte: h
quem se senta para esperar que chegue e h os que saem para
procur~-la.
Mariano olha o punho de perto.
- No  melhor ver um mdico? - pergunta.
- J passa.
- Di?
- Quando est assim, quieto, nem sinto. Isso cura sozinho.
- Sempre se cura assim, voc?
- Voc sabe que idade eu tenho, rapazinho? - pergunta
173
Ganapn. - Nove anos. Nove anos recm-cumpridos - ri. -
Eu nasci num 29 de fevereiro. Por isso. Bebe um longo gole de
vinho. Serve mais, para os dois. Arranca, pap, a rolha da segunda
garrafa.
Lenvanta-se e recolhe do cho um saco cheio de guimbas.
Esparrama-as sobre a mesa. Vai abrindo-as, uma a uma, e junta o
tabaco num montinho.
- Posso ajudar? - se oferece Mariano.
Ganapn estende o fumo at ele.
- Se quiser ir armando - diz.
Fabricam cigarros com o tabaco usado. Mariano no se
anima a oferecer-lhe seu mao de cigarros com filtro. Vagamente
intui que seria uma ofensa. E diriheiro? Pior. Mariano capricha,
distribui com cuidado o tabaco, aperta-o um pouco, enrola e
gtuda o papel com saliva. Mas os cigarros ficam um pouco torci-
dos, e magros demais, e com barrigas. Ganapn trabalha com
uma s mo, mas os cigarros saem perfeitos. Trabalha em siln-
cio, e Mariano no sabe o que dizer.
Nisso, sem querer, vira o copo com o cotovelo. Por sorte o
vinho no molha o fumo; o copo estava q~ase vazio. Ganapn diz:
- No se preocupe.
Molha o dedo indicador na lagoinha de vinho e umedece a
testa de Mariano. Olha-o fixo e acrescenta:
- Voc vai precisar, no? Voc vai precisr de muita sorte.
- Eu... - vacila Mariano - eu queria...
- O que voc fazia quando estava preso? - pergunta, de
repente, Ganapn.
Mariano se surpreende.
- Voc sabia que...?
- Com que se distraa? Fazia cigarros, quando estava preso?
- Tratava de dormir - diz Mariano. - A noite  igual,
para o livre e para o preso. Digo, se se consegue dormir. Embora
s vezes viessem os pesadelos ou os soldados.
Uma das crianas tosse. Outra se mexe, inquieta, na cama.
Mariano se levanta, d uma espiada nelas: tem medo que caiam.
Mas no.
174
De uma linguada certeira, Ganapn termina um cigarro. De-
posita-o no topo da pequena pirmide que vai fotmando, pouco a
pouco, em cima da mesa. Mariano toma a se sentar. Os dois ho-
mens se olham nos olhos.
- Por que fugiu? - pergunta Ganapn.
- Pot.. curiosidade. Para saber como seriam os dias se-
guintes, e as noites, fora da jaula.
Ganapn concorda com a cabea. Mariano quer saber:
- Voc, como...?
- Soube - diz Ganapn. - Soube, s isso.
- Eles vieram, no? Vieram averiguar.
- Passaram por aqui. Andavam buscando um, que tinham
perdido por a, pelo arroio.
! A chuva repica, vigorosa, contra o telhado de lata. H gotei-
ras por todas as partes. Ganapn cruza as pemas; balana um p
descalo. Mariano olha o dedo, que sobe e desce, como se fi-
zesse sinais.
- Nenhum vizinho cantou - diz Ganapn, inchando 0
pcito. - O bairro, mudo.
Abre um sorriso largo:
- E eu, o que tinha que ver?
Ri, uma risada cheia de dentes muito brancos:
- Nunca me meto em confuses. No ? Que me revistem.
D uma palmada forte nas costas de Mariano.
- Eu vim agradecer - diz Mariano, engasgado. - Para
isso. E tambm...
Ganapn pigarreia; coa a barriga entre os vos da camisa
desabotoada. O ambiente cheira a querosene e comida.
- Eu tinha estudado voc - diz Ganapn. - Quando es-
teve aqui, estudei voc direitinho. Fui com a sua cara, de verdade.
Mas voc tinha maneiras de rico, e no acreditei que voltasse. Foi
uma surpresa v-lo, de verdade.
De repente soa um rudo distante e estranho, de eco longo.
Os dois aguam os ouvidos. Escutam, tensos, silenciosos, a chi-
cotada que corta o ar, mais poderosa que a chuva. O eco treme,
lamenta, vibra: insiste nos ouvidos.
175

